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17/02/2011 - 10h08

As bengaladas do pacifista

LUCAS MENDES
COLUNISTA DA BBC BRASIL, EM NOVA YORK

Ditadores bravos e mansos, cuidado com a bengala de Gene Sharp. Ele foi o inspirador e guia dos protestos que derrubaram Milosevic na Sérvia, os regimes da Ucrânia e Geórgia, os ditadores do Egito, da Tunísia, sacodem o Irã, Bahrein, Líbia, Iraque, Argélia. Quem mais? Incomodam Chávez, Putin e dezenas de democracias suspeitas.

Seu Politics of Nonviolent Action (Políticas de ação não-violenta) é um canhão de 902 páginas, publicado em 1973, mas sua arma mais usada é o breve e portátil From Dictatorship to Democracy (Da Ditadura à Democracia), de 90 páginas, traduzido para mais de 30 línguas. O download é fácil.

Quando foi publicado em russo, as duas livrarias que vendiam o livro pegaram fogo, uma delas por um coquetel molotov dos convencionais.

Os protestos na Tunísia e no Egito não foram espontâneos, sem líderes e sem planejamento. Embora ninguém esperasse um final tão rápido, foram muito bem coordenados, e sem Facebook e Twitter teriam fracassado.

Numa longa e minuciosa matéria, o "New York Times" revela as conexões dos jovens nas ruas e praças árabes com ativistas sérvios ligados ao Otpor, o movimento de resistência pacífica decisivo na queda de Milosevic que se orientou pelo manual de Gene Sharp e colaborou com tunisianos e egípcios.

Quando Ahmadinejad e Hugo Chávez se queixam que os protestos são inspirados e ensinados por agitadores internacionais, eles estão certos. Chávez já se referiu a ele em público e Ahmadinejad mandou fazer um filme de propaganda antiamericana rodado na TV estatal onde o personagem malvadop é inspirado em Gene Sharp, um suposto agente da CIA.

Este agitador tem 83 anos, está frágil, caminha com uma bengala e mora numa casa modesta perto do aeroporto de Boston com estantes de livros cheias até no banheiro. No teto há uma estufa onde cultiva orquídeas, um antigo relaxante. No perfil de onde vieram algumas destas informações, Philip Shiskin conta que Sharp, nascido em Ohio, é extremamente tímido, nunca se casou nem teve filhos e, desde a infância, teve poucos amigos, porque o pai, um pastor, não parava em lugar algum.

Sharp foi bem educado, com doutorado em Oxford. Durante uma longa temporada em Harvard, criou a Albert Einstein Institution, dedicada à pesquisa e promoção de resistência pacífica a ditaduras. O nome é uma homenagem ao genial cientista pacifista, mas seu modelo de estudo e inspiração é Gandhi, não o Mahatma, o sonhador, e sim o Mohandas, que, além de guru maior da resistência pacifica que expulsou os ingleses da Índia, era "um político calculista".

Afiado e conciso, Sharp explica: "As ditaduras existem porque o povo consente". No livro ele dá uma receita com 198 táticas de resistência pacífica. "O importante é parar a máquina do governo. Se os soldados não dispararem, se houver um curto circuito nas comunicações e o sistema de transporte parar, os ditadores poderão dar ordens, mas não acontecerá nada".

Numa entrevista em 2002, Sharp disse que os estudantes na Praça Celestial da Paz em Pequim quase derrubaram o governo chinês, mas faltou estratégia. "Os funcionários públicos jogavam dinheiro em cima dos estudantes, mas não entraram em greve e ninguém planejou parar o sistema de transportes."

Sharp perdeu a verba que financiava seu Instituto Einstein e raramente sai de seu refúgio em Boston. O nome dele é destaque nos jornais, mas não tem dado entrevistas. Alimenta a subversão pacífica pelos livros e pela internet, mas em 1992, conta Shishkin, Sharp saiu de barco da Tailândia e entrou às escondidas em Mianmar para convencer os guerrilheiros a trocar a luta armada pela sua cartilha sem violência.

Para entender a explosão de protestos no mundo árabe não é preciso ler os livros de Sharp. Eles enriquecem a informação, mas o essencial já está nos jornais, como os movimentos egípcio, tunisiano e outros estão conectados há muito tempo pelo Facebook. Sharp, o inspirador dos protestos, não sabe se esta explosão vai desaguar em regimes livres e simpáticos ao Ocidente.

Vamos descobrir com ele se o gene da democracia está no DNA do mundo árabe.

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