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antonio prata

 

02/01/2013 - 03h00

Eco...eco...eco

Dois de janeiro: êta diazinho mequetrefe. Mesmo que hoje seja quarta, é segunda-feira, a maior segunda-feira do ano, oprimindo-nos com suas mesquinhas demandas desde as últimas brisas de Iemanjá até o bafo entorpecente de Baco, que nos aguarda ali adiante, na sexta-feira de Carnaval. O Carnaval, contudo, ainda está longe: Baco agora é uma garrafa vazia na área de serviço, são os lixos abarrotados na casa de praia: hoje é dois de janeiro, diazinho mequetrefe, Quarta-Feira de Cinzas, ou melhor: de lamas.

Dia primeiro, de certa forma, ainda pertence ao ano anterior. A ressaca, pelo menos, veio de lá. Os restos da ceia que você traçou já no café da manhã, também. Dia primeiro é o domingo do ano passado. Dia dois não dá mais pra se enganar: pernil, protetor e frescobol são memórias quase tão distantes quanto os amores da adolescência.

Dois de janeiro não é um dia, é uma passagem, um viaduto entre o Atlântico e o Microsoft Office. Deve ter gente que morre de choque térmico em dois de janeiro, de choque anafilático ou de trombose, como mergulhadores que sobem rápido demais do Éden das profundezas ao marasmo da terra firme. Sugiro riscar este dia xexelento do calendário como os americanos riscam o décimo terceiro andar de seus prédios. Enquanto isso não acontece, no entanto, aqui estou eu, preso neste andar vazio, falando com as paredes.

Com as paredes: ou você acha que alguém lê uma crônica no dia dois de janeiro? (Este "você", claro, é retórico, pois o jornal está deserto como um hangar abandonado). Posso gritar o que quiser que não surtirá nenhum efeito.

Um, dois, três, pum, caraminholas, espanholas, choripan, Floripa, moro num Patropi, tem alguém aí? Não tem. Cinquenta por cento tão na estrada, cinquenta por cento já tão na labuta, fingindo que trabalham enquanto buscam consolo xeretando as fotos de Réveillons alheios, no Facebook.

Pensando bem, não sei do que estou reclamando. Devia aproveitar a liberdade para escrever o que sempre quis, mas não tive coragem. O que? Certamente não é "um, dois, três, pum". Embora preze piadas com pum. (Tenho o baixo em alta conta). As comédias de Shakespeare estão cheias de piadas com pum. Sterne, Rabelais, Cervantes, tem tanto pum por ali que, ao acabar seus livros, você até fica com a mão amarela.

Um leitor mais atento (caso houvesse algum leitor, dia dois de janeiro) veria um erro lógico no parágrafo acima. A mão amarela é só do autor do pum, não do leitor. É verdade. Às vezes, em busca de uma piada, a gente passa por cima da lógica. Como na coluna passada, por exemplo, em que afirmei sem checar, só para fazer uma gracinha, que a velocidade de um avião de carreira era maior do que a velocidade de rotação da Terra. Agora sei, graças aos e-mails de 127.763 leitores, que só jatos supersônicos voam mais rápido do que o mundo. Peço perdão. Mil desculpas. Também não é pra tanto, Antonio. É, é sim: mais respeito com o leitor. Ué, e eu não respeito? Escrevo pra ele até quando ele não vem. Verdade, verdade. Então tá tudo bem? Tá.

Feliz ano novo, ausentes! Que tudo se realize no ano que vai nascer. Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender.
Um, dois, três, pum.

antonioprata.folha@uol.com.br

@antonioprata

antonio prata

Antonio Prata é escritor. Publicou livros de contos e crônicas, entre eles 'Meio Intelectual, Meio de Esquerda' (editora 34). Escreve aos domingos.

 

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