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clóvis rossi

 

15/11/2012 - 06h59

Viagem ao desespero da Espanha

CÁDIZ - A Espanha que a presidente Dilma Rousseff visitará a partir de amanhã é um país desesperado.

Pegue-se qualquer estatística, e o desespero se explica. Tome-se, por exemplo, o desemprego, situação que é a que mais leva ao desespero: está em 25,8%, recorde na União Europeia, superior até aos 25,4% da falida Grécia.

Pior: aumentará para 26,6% em 2013, ano em que a Comissão Europeia prevê outra retração da economia, de 1,4%, idêntica à deste ano. Mas não são as estatísticas as que mais adequadamente captam o estado de espírito da Espanha.

A desilusão aparece com contundência, por exemplo, em livro que foi lançado anteontem. Chama-se "Espanha, Destino Terceiro Mundo", escrito pelo jornalista Ramón Muñoz, que, nas páginas de "El País", cansou-se de mostrar a gravidade da crise. O título é um colossal exagero. Os latino-americanos, que de Terceiro Mundo entendemos bem mais que os espanhóis, sabemos que a Espanha está a anos-luz de tão triste destino.

O livro é acima de tudo um grito de frustração ante "o brusco fim de um destino que acreditávamos eterno", como diz "El País", ao apresentar o volume.

O destino que parecia eterno foram os 16 anos ininterruptos de crescimento, de 1993 até 2009, quando se instalou a recessão global que, na Espanha, foi mais contundente pela explosão da bolha imobiliária.

E, atenção, a crise espanhola nada tem a ver com os abusos com dinheiro público que ajudaram os países do Terceiro Mundo a cavarem um buraco ainda mais fundo do que aquele em que já estavam, nos anos 1980, pedaço dos 1990.

O governo da Espanha, com conservadores ou com socialistas, dava lucro (arrecadava mais do que gastava) até a véspera da crise da construção civil --ou do "ladrillo" (tijolo), como eles preferem.

Posto de outra forma: é uma crise de Primeiro Mundo, como a norte-americana, em que a banca, irresponsavelmente, financia imóveis para quem pode e para quem não pode pagar, como se a bicicleta do crescimento nunca fosse parar de rodar. Parou, em 2008, e todo o mundo caiu do selim.

De lá para cá, 172 mil famílias perderam suas casas por não poderem pagar a hipoteca e outras 178 mil estão pendentes de "desahucio" (despejo), a palavra que Dilma mais ouvirá na Espanha, se puder ler jornais, ouvir rádio ou ver TV (pronuncia-se "deçáusio", presidente).

O que tornou exponencial o desespero foi o suicídio de Amaya Egaña, ex-vereadora de Barrakaldo, no País Basco, 53 anos, que atirou-se do quarto andar do prédio em que morava enquanto subiam para despejá-la os oficiais de Justiça e a Guarda Civil.

É uma situação dolorosa, mais ainda para um país que só fez aproximar-se de seus pares mais ricos da Europa desde que se livrou da ditadura de Francisco Franco, morto em 1975 e sepultado como regime em 1977, esta sim terceiro-mundista.

Mas, se Ramón Muñoz me perdoa, despejo não é coisa de Terceiro Mundo pela simples e boa razão de que, neste, poucos têm recursos para comprar imóvel, mesmo financiado.

crossi@uol.com.br

clóvis rossi

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. É autor de obras como 'Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo' e 'O Que é Jornalismo'. Escreve às terças, quintas, sextas e domingos.

 

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