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clóvis rossi

janela para o mundo

19/07/2010 - 14h06

Conectados mas fechados em si

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Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP, pôs evidência científica em uma sensação empírica que sempre tive: a internet, ao contrário de abrir um espaço para debate, é um imenso clube de gente conectada mas que fala para a sua própria tribo - e, pior, ouve apenas o que a tribo tem a dizer.

O estudo de Safatle, em parceria com Marcelo Coutinho, professor da FGV e especialista em internet e política, concluiu, segundo reportagem de Uirá Machado para a Folha de segunda-feira, que "a internet está mais para grande espaço fragmentado de posições, onde cada território está ocupado por opiniões muito bem definidas e que não entram em contato com ideias diferentes. Manifestações dissonantes são reprimidas ou ignoradas".

Bingo.

Por pura coincidência, no domingo, Soledad Gallego-Díaz, uma das grandes jornalistas espanholas, hoje correspondente de "El País" em Buenos Aires, mostrava que essa tendência a fechar-se em si mesmo é antiga, precede a internet e é universal. Trata-se de um fenômeno que o jargão acadêmico batiza de "confirmation bias", viés de confirmação.

Soledad explica assim o tal viés: "É a tendência que o tem o cérebro humano de aceitar a informação que confirma aquilo em que já acredita, independentemente de que seja verdade ou não, e de rejeitar aquilo que põe em dúvida [a sua crença]".

É claro que a internet tornou exponencial essa tendência natural. Continua Soledad: "A realidade, dizem os peritos, é que, afogados por um fluxo de informação que não cessa, os cidadãos elegem automaticamente os dados que melhor se acomodam ao que já pensam e rechaçam, sem a menor vergonha, o resto".

Não importa se são dados falsos ou comprovados; importa que reafirmem cada um em na sua própria crença".

Soledad cita estudos do jornalista Joe Keohane, que demonstram que mesmo dados verdadeiros são incapazes de mudar determinadas mentes. "Ao contrário, quando pessoas desinformadas recebem os dados corretos, não só não mudam de opinião ou modificam sua crença, como se aferram ainda mais a ela".

Outro estudioso citado pela jornalista espanhola é Brendan Nyhan, que vasculhou particularmente o caso de militantes de partidos políticos.

Escreve Soledad: "A evidência acumulada nos estudos realizados por Nyhan [...] é a de que as pessoas mais desinformadas são as que têm as opiniões políticas mais fortes. E quanto mais essa pessoa se preocupa por um assunto concreto, mais duro é o efeito 'tiro pela culatra' do dado certo que deveria levá-la a corrigir sua posição".

Constato quase diariamente essa impossibilidade de fazer alguns leitores pensarem. Cansei de receber correspondência de petistas, por exemplo, que dizem mais ou menos o seguinte: "Antigamente [no governo anterior], eu gostava muito do que você escrevia, mas agora, acho que você é (aí entra uma porção de asneiras)".

Ou seja, quando eu criticava o governo anterior - e, portanto, reforçava a crença do petista - era bacana. Mas quando passo a criticar o governo do PT, aí o leitor tapa o ouvido, fecha os olhos e se recusa a ver sua crença cega desafiada.

Tucanos não têm comportamento diferente, não, assim como militantes de qualquer outro partido. É por isso que a internet é um poderoso instrumento de informação mas como eixo de debate político não passa de um clube de "nós com nós mesmos". Pena.

Clóvis Rossi

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno "Mundo". É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".

 

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