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clóvis rossi

janela para o mundo

20/07/2010 - 17h02

PT, Farc, meia verdade e ambiguidade

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O candidato José Serra não deixa de ter alguma razão em sua afirmação de que o PT tem, sim, laços com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

O laço, que Serra não especificou, chama-se Foro de São Paulo, conglomerado de partidos de esquerda criado em 1990 por iniciativa do PT. As Farc fazem parte do Foro. Logo, o laço existe e é facilmente encontrável em documentos oficiais tanto do PT como do Foro.

O que Serra não explicitou é que o PT cortou tais laços depois que chegou ao poder. Ou, pelo menos, a parte mais importante do partido. Devem ter sobrado alguns nostálgicos do tempo em que o PT era de esquerda que ainda acham que as Farc são revolucionárias e não um grupo narco-terrorista.

Já em 2005, a Folha informava que o PT vetara a participação do grupo colombiano na reunião que marcaria o 15º aniversário do Foro, realizado em São Paulo --e com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Eis o que dizia então a Folha: "A tentativa frustrada [de participação no encontro de São Paulo] está registrada em e-mail atribuído a Raúl Reyes, obtido pela Folha, e foi confirmada pelo advogado colombiano Pietro Lora Alarcón. Professor da PUC-SP. Lora disse que foi procurado pelo padre Olivério Medina, então embaixador das Farc no Brasil. Porém, o pedido de Medina foi rejeitado pela secretaria executiva do Foro, que era dominada pelo PT".

Entre parêntesis: Raúl Reyes foi um dos principais líderes das Farc, morto há dois anos em ataque do Exército colombiano a seu acampamento no Equador, junto à fronteira com a Colômbia. Os militares colombianos ficaram com os computadores de Reyes e dele extraíram uma coleção de informações preciosas.

Fecha parêntesis, voltemos ao futuro.

Dois anos depois do veto, as Farc voltaram a ser marginalizadas no encontro realizado em San Salvador.

Declararam à época: "Cremos ser oportuno manifestar nossa inquietação e desagrado pela posição de alguns companheiros que, em forma e sob responsabilidade pessoal, publicamente dizem que as Farc não podem participar no Foro, por ser uma organização alçada em armas. A luta armada não se criou por decreto e tampouco se acaba por decisão similar; é a expressão de um povo que sofreu a devastação de sua população em mais de um milhão de pessoas que, nestes 60 anos, foram assassinadas, é a expressão dos milhares de militantes que foram assassinados do Partido Comunista e da União Patriótica, é a expressão de milhares de sindicalistas que foram assassinados nestes últimos anos".

A manifestação serve de demonstração cabal de como o poder transforma os partidos e os políticos. Quando o Foro de São Paulo foi criado, em 1990, só um dos partidos nele representados estava no poder (o Partido Comunista Cubano, que, aliás, continua até hoje). No encontro de San Salvador, já eram oito os países governados por partidos do Foro: além de Cuba, Venezuela, Bolívia, Nicarágua, Equador, Brasil, Uruguai e Argentina.

Ou seja, em vez de o poder abrir portas para um sócio como as Farc, elas se fecharam.

O problema é que se fecharam dessa forma indireta. Ninguém teve a coragem de propor a expulsão das Farc, por, como elas próprias dizem, ser "uma organização alçada em armas".

É essa ambiguidade que o PT tem agora a obrigação de esclarecer de uma boa vez. As Farc são ou não um companheiro de viagem aceitável?

Se precisarem de ajuda para se definir, sugiro a leitura de "As Farc, uma guerrilha sem fins?", de Daniel Pécaut, diretor de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. Acaba de sair pela "Paz e Terra".

Trata-se de um relato tão objetivo quanto possível, cuja conclusão adianto: "A impopularidade da guerrilha tornara-se [nos últimos anos] quase unânime, mais ainda depois que perderam a oportunidade política oferecida pelas negociações [iniciadas no governo Andrés Pastrana, antecessor de Álvaro Uribe]. Definitivamente, o fracasso de sua estratégia é militar apenas em parte; o fracasso é, acima de tudo, político".

Clóvis Rossi

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno "Mundo". É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".

 

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