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clóvis rossi
janela para o mundo
Governo, para que governo?
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A Bélgica está batendo o recorde mundial de dias sem governo. Nesta quinta-feira, empatou com o Iraque (249 dias). Mas, como não há a mais leve perspectiva de acordo hoje ou amanhã para a formação de um novo governo, na sexta-feira passará a ser a recordista mundial isolada.
Não parece que o país tenha ficado pior por isso. Quase ia escrever que ninguém notou que falta governo quando li o noticiário sobre os protestos, especialmente de jovens, pela incapacidade de as lideranças políticas se porem de acordo.
O que divide as lideranças são divergências em torno do grau de autonomia e de poder para as duas grandes tribos do país, os flamengos do Norte e os francófonos do Sul. Além de uma tecnicalidade em torno do status da região em torno da capital, Bruxelas, que tem habitantes das duas tribos.
Mas os protestos são bem humorados. Um deles promoveu a distribuição de batatas fritas, um item essencial do cardápio belga. Aliás, recomendo a quem for à Bélgica que não perca em hipótese alguma mergulhar nas "moules et frites", mariscos com batatas fritas. É o prato típico, sensacional, com ou sem governo, qualquer governo.
Tão sensacional que o restaurante Léon de Bruxelles, cuja primeira casa data de 1893, conseguiu instalar-se com todo êxito em plena Paris, essa cidade tão orgulhosa de sua gastronomia e com tanta empáfia em relação aos vizinhos belgas, tidos como bárbaros. Só em Paris, são três endereços, um deles em plena Champs-Elysées, com mesinhas na calçada.
Ah, outro monumento imperdível em Bruxelas é a Grand Place, a praça mais bonita do mundo para o meu gosto. Mas leve a sugestão com calma porque sou um fã de Bruxelas, ao contrário de 101% das pessoas que conheço. Dizem - e deve ser verdade - que chove 300 dos 365 dias do ano, mas, como chovem informações também, por ser a capital da Europa, eu me divirto assim mesmo.
Outro protesto bem-humorado é o movimento para que as mulheres dos políticos façam greve do sexo até que se forme um governo.
O bom humor indica que tantos dias sem governo não chegaram a causar problemas dramáticos na Bélgica. Aliás, o recorde europeu anterior era da Holanda (208 dias sem governo em 1977). Nem por isso, a Holanda quebrou ou deixou de ser um país delicioso.
De todo modo, os protestos indicam que também no coração da Europa, a sociedade está cansada dos joguinhos políticos. "Já tivemos jogos políticos demais", disse à agência France Presse Kliment Kostadinov, um dos organizadores dos protestos. Completou: "Precisamos ter rapidamente um governo e uma reforma institucional que beneficie todos os belgas".
Fico imaginando o que aconteceria no Brasil se, 250 dias depois de ganhar as eleições, Dilma Rousseff não tivesse ainda formado o seu governo. O que você acha? O país ficaria melhor, pior ou igual?
Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno "Mundo". É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".
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