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Vamos ver se a gente se vê

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Repeti mais uma vez a frase ao despedir-me de minha amiga na calçada. Nos esbarramos na rua e ficamos ali mesmo, entre abraços e beijos, lembrando o quanto gostamos uma da outra.

Mas não havia tempo nem para um café. Ela corria pro trabalho, e eu, pra uma reunião.

"Vamos ver se a gente se vê?" Frase esquisita. A instabilidade da concretização do encontro aparece na própria construção gramatical.

É ridículo. Minha lista de amigos a encontrar só cresce na agenda. Sim, ainda uso agenda de papel, e é nela que meus compromissos de trabalho costumam ganhar dos de lazer.

É natural que priorizemos o que precisamos ao que desejamos, mas inventamos uma vida tão louca que a velocidade dos dias aumentou descontroladamente o número de coisas que achamos que precisamos fazer.

Ilustração Zé Vicente/Revista sãopaulo

Tenho a sensação de que nossas escolhas estão sendo cada vez mais guiadas pela funcionalidade.

Já deve ter muita gente trocando festinhas de aniversário por aulas de pilates. Adoro uma mesa com amigos, mas sinto que os que mais consigo encontrar são aqueles com quem estou trabalhando no momento.

Não tomamos cuidado, e o capital vai metendo sorrateiramente o bedelho até em nosso ciclo de amizades. É a força caudalosa dos dias.

Está todo mundo muito ocupado. Equalizar a agenda com um amigo para marcar um mero café já quase precisa de planilha.

E aí nos é oferecido um pacote milagroso para encontrar amigos por atacado: o famigerado Facebook. Venci a resistência e abri uma conta. Fiquei três dias e fechei.

Não aguentei rever tanta gente com quem tenho vontade de sentar para tomar uma cerveja. Imagina terminar cada conversa de cinco linhas com um "vamos ver se a gente se vê?". Não dou conta.

Como vou ter 400 amigos se mal consigo encontrar minha melhor amiga, com quem passo horas conversando sem olhar uma vez sequer no visor do celular?

Melhor continuar lutando por brechas de uma hora no ciclone dos dias para sentar numa mesa em gargalhadas cúmplices, nas quais o tempo pode parecer infinito.

denise fraga

Denise Fraga é atriz e autora de 'Travessuras de Mãe' (ed. Globo) e 'Retrato Falado' (ed. Globo). Escreve a cada duas semanas.

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