Saltar para o conteúdo principal

Publicidade

Publicidade

 
 

eliane cantanhêde

 

11/05/2011 - 07h05

O Brasil na arquibancada

Foi tudo esquisito na visita que o venezuelano Hugo Chávez faria ao Brasil ontem e acabou cancelando de última hora.

Primeiro, Dilma decidiu trocar o tradicional banquete do Itamaraty, com a presença da imprensa, por um almoço fechado no Palácio da Alvorada. Depois, Chávez avisou na noite da véspera que não viria mais por causa de problemas no joelho. Por fim, o relatório do IISS (Instituto Internacional de Estudos Estratégicos) foi divulgado em Londres e caiu na internet justamente quando os dois chanceleres, Antonio Patriota e Nicolás Maduro, se reuniam na terça-feira no Itamaraty.

O relatório diz coisas do arco-da-velha sobre as relações de Chávez com as Farc, o grupo narcoguerrilheiro que inferniza a vida dos governos (e das populações) na Colômbia. Diz, por exemplo, que a Venezuela prometeu pagar US$ 300 milhões para que ele treinasse milícias venezuelanas; que o acordo previa até o assassinato de adversários políticos de Chávez; que as Farc orientaram o também terrorista ETA, da Espanha, em território venezuelano.

Tudo coisa feia, tirada dos computadores de Raul Reyes, o número dois das Farc, morto numa ação armada da Colômbia em território do Equador, o que valeu aos colombianos uma condenação praticamente unânime da OEA (Organização dos Estados Americanos) em 2008.

Se a liberação do documento do IISS fosse durante o governo Lula-Amorim, o Brasil rapidamente tomaria as dores da Venezuela, arranjando um jeito de dizer que era uma ingerência inadmissível dos países ricos contra a América do Sul e de desqualificar o teor, os autores, a divulgação.

Mas, na gestão Dilma-Patriota, não funciona bem assim. Como em casos anteriores, o Brasil não condenou, não elogiou, não entrou no mérito. Patriota limitou-se a dizer que o que importa é que "o clima" entre Venezuela e Colômbia melhorou muito ultimamente (cá pra nós, depois da troca de presidentes colombianos, de Alvaro Uribe para Juan Manuel Santos).

Na verdade, o Brasil manteve a mesma posição de quando os Estados Unidos estouraram o esconderijo do Paquistão, mataram Bin Laden e jogaram o corpo no mar: se não diz respeito diretamente aos interesses brasileiros, o país não tem nada a ver com isso.

No caso da Venezuela-Colômbia, soa assim: "em briga de marido a mulher, ninguém mete a colher". Ou seja: o Brasil, via governo e Itamaraty, vai ficar na arquibancada. Se o PT quiser entrar em campo, que o faça por sua conta e risco.

A Venezuela é um parceiro importante para o Brasil. O comércio bilateral foi de US$ 4,6 bilhões no ano passado, tão francamente favorável ao Brasil que é responsável por 15% do superavit global brasileiro. E o portfólio das empresas brasileiras na Venezuela já chega a US$ 20 bilhões, uma bolada e tanto.

Se é para apostar, Dilma vai privilegiar a relação país a país com a Venezuela, sem se enroscar ideologicamente e desnecessariamente com o peculiaríssimo Hugo Chávez. Ele que se vire, explique o relatório e se entenda com Santos. Quanto melhor se entenderem, aliás, melhor para todos.

eliane cantanhêde

Eliane Cantanhêde, jornalista, é colunista da Página 2 da versão impressa da Folha, onde escreve às terças, quintas, sextas e domingos. É também comentarista do telejornal 'GloboNews em Pauta' e da Rádio Metrópole da Bahia.

 

As Últimas que Você não Leu

  1.  

Publicidade

Livraria da Folha

High Hitler

High Hitler

Norman Ohler

Comprar
Gordura Sem Medo

Gordura Sem Medo

Nina Teicholz

Comprar
A Luta Contra A Corrupção

A Luta Contra A Corrupção

Deltan Dallagnol

Comprar
Drogas: As Histórias Que Não Te Contaram

Drogas: As Histórias Que Não Te Contaram

Isabel Clemente, Ilona Szabó De Carvalho

Comprar

Publicidade

Publicidade

Publicidade


 

Voltar ao topo da página