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evgeny morozov

 

23/04/2012 - 07h04

Liberdade na internet: uma ideia ambígua

É difícil negar a ambiguidade intelectual da ideia de "liberdade na internet" quando dois de seus mais fervorosos defensores são os ativistas idealistas do grupo de hackers Anonymous e os pragmáticos diplomatas do Departamento de Estado norte-americano --dois grupos que discordam quanto a quase tudo mais. Ironicamente, ambos podem terminar prejudicando a nobre causa que buscam promover.

Os problemas dos diplomatas são bem conhecidos, a essa altura. Embora Hillary Clinton goste de fazer discursos nos quais se retrata como a maior defensora da "liberdade na internet", a dura realidade é que ela representa um governo que se tornou o maior inimigo dessa causa. Dada a corrente infindável de leis draconianas de direitos autorais e segurança cibernética que surgem em Washington, é cada vez mais difícil ocultar o fato do público mundial, que começa a questionar por que os diplomatas norte-americanos continuam criticando a Rússia e a China sem nada dizer sobre as imensas operações de espionagem on-line que a Agência Nacional de Segurança (NSA) norte-americana vem conduzindo de suas instalações no Utah. E o Departamento de Estado tampouco objeta quando os aliados dos Estados Unidos pressionam por leis de vigilância mais severas; o Reino Unido, com seu projeto de lei de vigilância, serve como exemplo perfeito. A "agenda da liberdade na internet" promovida pelos Estados Unidos é impotente, na melhor das hipóteses, e pode até ser contraproducente, porque, ao enfatizar de forma exagerada a promessa libertadora da mídia social nas nações autoritárias, oculta diversas ameaças internas emergentes que nada têm a ver com ditadores --e tudo com vigilância agressiva, privacidade em recuo e a espantosa cobiça do Vale do Silício.

O caso do Anonymous, de sua parte, tampouco é tão simples quanto poderia parecer. O movimento é disperso, fluido e ocasionalmente desorganizado, e portanto esforços para retratá-lo como uma doutrina ideológica coerente são um desperdício de tempo. Mas a escolha recente de alvos do Anonymous fala por si só: de empresas de segurança na computação a sites do governo chinês, os alvos são escolhidos pelo desejo de defender a "liberdade na internet" --quanto a isso, as agendas do Anonymous e do Departamento de Estado se sobrepõem.

Por que esses alvos específicos? Previsivelmente, o Anonymous atribui às empresas de segurança na computação a intensificação da vigilância sobre os internautas, enquanto o governo chinês atrai ódio (justificado) por ser o mais poderoso censor da internet mundial.

Porque ataques como os do grupo propiciam excelentes espetáculos, sempre atraem a atenção da mídia, o que, ao menos no que tange aos projetos de lei de segurança na computação agora em debate, pode ter consequências importantes, já que uma maior cobertura de mídia pode ajudar a propiciar maior conscientização sobre as leis propostas. Mas espetáculos como esses sempre terminam por entediar; e chega inevitavelmente o dia em que a mídia perde o interesse. O espetáculo, em outras palavras, não é uma estratégia política sustentável. E o Anonymous ainda não propôs nada além do espetáculo; os ataques que a rede executa são baratos, fáceis e podem atrair milhares de participantes sem exigir demais deles. Ou seja, eles talvez constituam uma forma de "ativismo indolente", que faz com que os participantes se sintam bem mas não necessariamente avança as causas que pretendem promover.

Além disso --o que representa novo paralelo com o Departamento de Estado-, as campanhas do Anonymous podem se provar não só impotentes como contraproducentes. Por exemplo, é improvável que o setor de segurança na computação deixe de explorar o imenso interesse e o medo gerados pelos ataques do Anonymous. Cada novo ataque do Anonymous deve ser recebido como ótima notícia nos escritórios das companhias de segurança na computação que prestam serviços para o setor público e privado. Agora que o Anonymous revelou que até mesmo as empresas privadas de investigação não estão seguras --meses atrás, o grupo divulgou e-mails de uma delas-, o momento não poderia ser mais propício para os fornecedores de serviços de segurança na computação.

Em outras palavras, os "hacktivistas" continuam oferecendo ao setor fortes exemplos quanto ao motivo para que ainda mais verbas públicas sejam dedicadas ao reforço da vigilância da internet e à eliminação do anonimato dos usuários. Um exemplo são os ataques recentes do Anonymous aos sites da USTelecom e da Tech America, duas organizações setoriais de tecnologia que expressaram apoio à Lei de Compartilhamento e Proteção de Informações Cibernéticas (Cispa), o controvertido projeto de lei de segurança na computação que está em debate no Congresso norte-americano. Não é preciso ser um gênio para compreender que os ataques on-line a grupos que promovem leis de repressão a ataques on-line só reforçam sua causa. É como disparar uma bazuca durante uma sessão legislativa sobre controle de armas. Esse fator não escapou à atenção das organizações setoriais, e elas exploraram ao máximo o presente recebido do Anonymous. Assim, o presidente da USTelecom alegou que "por suas ações, os hacktivistas do Anonymous sublinham a importância da aprovação acelerada do projeto de lei bipartidário [Cispa], para garantir que a internet continue a ser um fórum aberto e seguro para todos". Não importa que destino venha a ter esse projeto de lei específico, é provável que os legisladores sofram crescente pressão para fazer alguma coisa quanto aos ataques do Anonymous --e essa "alguma coisa" não seria conducente a qualquer forma de "liberdade na internet".

Podemos esperar que algo semelhante aconteça na China. Os danos causados pelos ataques do Anonymous aos sites do governo chinês são mínimos, e o valor simbólico de expor a audiências internacionais a censura chinesa à internet podem ser definidos como insignificantes, porque o problema já é bem conhecido. Mas os ataques do Anonymous dão ao governo chinês bons motivos para investir na vigilância on-line, e talvez fazê-lo com apoio popular: o Anonymous não hesita em expor os detalhes de cartões de crédito de vítimas inocentes --e a classe média ascendente da China é perfeitamente capaz de discernir as implicações da insegurança on-line. Se os ataques continuarem, o Anonymous pode fornecer à China um "momento Stuxnet", mas sem impor qualquer dos paralisantes custos do Stuxnet --basta ver o atual flerte iraniano com a ideia de uma "internet nacional", nascido da grande ansiedade do país quanto aos ataques cibernéticos.

Será que o Anonymous não percebe nada disso? Por que não procura maneiras mais efetivas de realizar seu ativismo cibernético? É quanto a isso que a estrutura descentralizada do Anonymous deixa de ser vantagem e se torna problema. O movimento alega não ter líderes --bem, excetuados os "líderes" que estão colaborando com o Serviço Federal de Investigações (FBI)-- e, sem alguém que exerça a liderança, não é incomum que metas fáceis e de curto prazo (muitas das quais pouco mais que travessuras) ganhem precedência sobre os objetivos estratégicos de longo prazo.

Mas uma campanha on-line para defender a "liberdade na internet" não é como uma campanha on-line para arrecadar fundos para uma candidatura presidencial ou para as vítimas de um desastre natural. É preciso mais que alguns cliques ou doações. Além disso, os objetivos e prioridades de uma campanha como essa provavelmente mudarão o tempo todo, a depender do contexto político. Enquanto arrecadar US$ 1 milhão representa um dos mais claros objetivos imagináveis, defender a "liberdade na internet" requer constante interpretação, deliberação e discriminação entre diferentes cursos de ação.

As hierarquias não têm monopólio sobre o acerto, quanto a esse tipo de coisa, mas na ausência de uma maior burocratização e de uma aceitação clara de mecanismos decisórios formais e, acima de tudo, de disposição para aceitar a culpa quando as decisões acarretam consequências infortunadas, o Anonymous pode se provar ameaça tão grande à liberdade na internet quanto o maior inimigo do movimento, o governo dos Estados Unidos.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

evgeny morozov

Evgeny Morozov é pesquisador-visitante da Universidade Stanford e analista da New America Foundation. É autor de 'The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom' (a ilusão da rede: o lado sombrio da liberdade na internet). Tem artigos publicados em jornais e revistas como 'The New York Times', 'The Wall Street Journal', 'Financial Times' e 'The Economist'. Lançará em 2012 o livro 'Silicon Democracy' (a democracia do silício). Escreve às segundas-feiras, a cada quatro semanas.

 

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