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evgeny morozov

 

01/10/2012 - 03h00

Crowdfunding: motivo para otimismo, mas é preciso cautela

O Kickstarter é o filho modelo da revolução do crowdfunding. Para quem precisa de um exemplo quanto ao que o mundo altamente descentralizado da mídia social poderia causar com relação à hegemonia daqueles que ditam tendências em amplo espectro de setores criativos --da música ao design, passando pela moda--, o Kickstarter cumpre o papel perfeitamente.

O que a Wikipédia conseguiu no campo da produção de enciclopédias, explorando o espírito do crowdsourcing, o Kickstarter poderia conseguir para a produção de seu próximo filme ou engenhoca eletrônica, explorando as vantagens do crowdfunding. Dessa forma, dizem os fãs do Kickstarter e outros entusiastas digitais, em lugar de ameaçar o ganha-pão de músicos e cineastas independentes que sobrevivem precariamente, o serviço poderia prenunciar uma espécie de renascimento cultural, abalando o consenso.

A promessa do Kickstarter é enganosamente simples: qualquer pessoa pode postar a descrição de um projeto que gostaria de realizar --em geral acompanhada por um vídeo engraçadinho--, estabelecer sua meta e cronograma de financiamento, oferecer um conjunto de recompensas vinculadas a diferentes níveis de contribuição (por exemplo, por US$ 5 você receberia uma cópia do CD; por US$ 5.000 você jantaria com o músico), e difundir informações sobre a campanha.

Caso o proponente cumpra a meta de financiamento, o Kickstarter recebe sua comissão de 5% e o projeto segue; se não, nenhum dinheiro troca de mãos. A plataforma está desfrutando de imenso sucesso; no começo do ano, um de seus fundadores proclamou --causando certa controvérsia-- que em 2012 o Kickstarter talvez distribuísse mais dinheiro (US$ 150 milhões) do que o National Endowment for the Arts, uma organização federal norte-americana de financiamento às artes cujo orçamento é de US$ 146 milhões este ano.

Um sucesso tão fenomenal atraiu consideráveis críticas. Há quem ataque o Kickstarter por ser um tanto opaco quanto ao que acontece com projetos que arrecadam os fundos solicitados mas oferecem informações limitadas (ou questionáveis) sobre o seu desenrolar, ou jamais são concluídos, ou estouram consideravelmente o prazo previsto. E o número desses casos não é pequeno. Um recente estudo sobre 47 mil projetos do Kickstarter conduzido pela Universidade da Pensilvânia constatou que mais de 75% deles sofrem atrasos --um destino especialmente comum para os projetos que ganham prestígio viral e arrecadam muito mais dinheiro do que planejavam originalmente.

O Kickstarter não tem grande motivo para proteger esses projetos contra o sucesso viral; afinal, a empresa recebe comissão sobre o montante total arrecadado. E embora o Kickstarter tenha a expectativa de que os projetos que não são concluídos em tempo venham no futuro a cumprir o prometido aos seus patrocinadores, não há mecanismos para que force os recipientes de capital a fazê-lo.

Agora que os projetos propostos no Kickstarter não estão mais confinados ao entretenimento e começam a lidar com problemas como o urbanismo e projetos que facilitam a vida nas cidades, outra forma de crítica começa a se fazer ouvir. Por exemplo, Alexandra Lange, crítica de arquitetura e design, objeta à abordagem estreita, relacionada ao desenvolvimento de engenhocas, que o Kickstarter encoraja, para a solução de problemas urbanos.

"Não se pode usar o Kickstarter para criar uma linha de ônibus nova em Brooklyn, mas é possível usá-lo para financiar um aplicativo que informará o horário de um ônibus em outra linha, menos conveniente. Não se pode usar o Kickstarter para financiar moradias de preço acessível, mas se pode usá-lo para financiar a produção de uma barraca bacana para a reunião na qual a moradia barata será discutida", escreveu Lange na revista "Design Observer".

Quando saímos do mundo do entretenimento e dos bens eletrônicos de consumo, os projetos propostos via Kickstarter não podem mais ser avaliados apenas sob critérios estéticos e funcionais. Uma comunidade que esteja canalizando sua energia ao financiamento de um novo parque urbano via crowdfunding pode se inclinar menos a participar das tediosas, mas importantes, reuniões de planejamento urbano da prefeitura local.

Todas essas críticas procedem e têm substância, e a companhia tentou responder a pelo menos algumas delas. Mas uma das suposições sobre o serviço que não foi submetida a teste sério é a de que o Kickstarter, com seu potencial para libertar os artistas dos grilhões da indústria do entretenimento, poderia revitalizar nossa cultura, torná-la mais diversa e menos dependente dos guardiões da cultura, conservadores e cobiçosos.

Um novo artigo da acadêmica dinamarquesa Inge Ejbye Sørensen para a mais recente edição da revista "Media, Culture, and Society", contesta essa suposição e narra uma história mais complexa sobre o impacto de sites como o Kickstarter. Sørensen estudou a influência do crowdfunding sobre a produção de documentários no Reino Unido. No que tange a documentários, a Grã-Bretanha se distingue dos demais países por a maioria de seus documentários serem produzidos e bancados integralmente por alguma das quatro principais redes de TV (BBC, ITV, Channel 4 e Five), que ditam termos aos cineastas. Nesse contexto, o crowdfunding parece libertador, e até revolucionário.

Mas como aponta Sørensen, essa revolução envolve certas circunstâncias atenuantes. Primeiro, são tipos específicos de documentários que tendem a obter financiamento via Kickstarter e sites semelhantes (indiegogo.com, crowdfunder.co.uk, pledgie.com são apenas alguns exemplos de organizações desse tipo). Essas campanhas em geral beneficiam projetos que tratam de causas, como "Super Size Me" ou "Uma Verdade Inconveniente"; filmes que buscam promover mudanças sociais e atingir o público online que compartilhe da agenda ativista dos realizadores do documentário. Um documentário que estude as causas da Primeira Guerra Mundial provavelmente receberia menos verba que um documentário que estude as causas da mudança no clima.

Segundo, alguns filmes requerem custo inicial significativo (documentários dramatizados e filmes históricos servem como exemplo) ou envolvem consideráveis riscos judiciais, cujos custos podem ser difíceis de avaliar financeiramente e contabilizar. Digamos que você esteja fazendo um filme que envolva investigação clandestina do setor de petróleo. Se você conta com o apoio dos advogados da BBC, provavelmente poderá assumir muito mais riscos do que se depender do crowdfunding. O mais provável, se o Kickstarter for a plataforma de sua escolha, será que você evite envolvimento com questões legais espinhosas.

O mais interessante, argumenta Sørensen, é que existem poucos motivos para acreditar que o Kickstarter e sites semelhantes seriam capazes de enfraquecer a hegemonia das redes de TV ou festivais de cinema - os guardiões da cultura cuja influência o crowdfunding supostamente ajudaria a evitar. Os documentários que se saem melhor online são aqueles que aprendem a aproveitar --não a renunciar a-- a sua posição no setor: ressaltam o fato de que seu diretor ganhou um Oscar, ou o currículo de seu produtor, ou o fato de que certas redes de TV já expressaram interesse pelo filme.

Se pensarmos bem, isso faz perfeito sentido: para avaliar as perspectivas de sucesso de um filme, um potencial financiador gostaria de saber o que as pessoas "informadas" --que sejam parte da "indústria", de uma ou de outra maneira-- pensam a respeito. Esse é um ponto ignorado por muitos daqueles que consideram o Kickstarter como um projeto revolucionário que poderia emancipar os artistas: aquilo que define o potencial "sucesso" de seu filme continua a ser em larga medido definido pelos pesos pesados do setor.

Uma recente iniciativa do Kickstarter para arrecadar fundos destinados à produção de "Hotel Noir", um filme independente, serve como exemplo. O projeto obteve sucesso em obter sua meta de US$ 50 mil em financiamento. Mas para que o dinheiro era necessário? Para distribuir o filme ao velho modo - nas salas de cinema. Nas palavras do diretor: "Precisamos exibir esse filme nos cinemas de Nova York e Los Angeles porque, idealmente, queremos que ele não seja exibido apenas via Internet e em plataformas digitais, mas TAMBÉM nos velhos cinemas, com suas grandes telas, pipocas... acreditamos que uma temporada nas telas de Nova York e LA - embora FANTÁSTICA - possa servir como começo de algo maior". Obviamente, a suposição no caso é a de que "algo maior" simplesmente não aconteceria de forma natural na iTunes ou YouTube.

Como aponta Sørensen, "ainda que crowdfunding e empreendimentos com financiamento coletivo sejam percebidos como campos de jogo justos, com obstáculos mínimos ou inexistentes à entrada, não é apenas o capital material, mas o capital cultural que um projeto é capaz de acumular, que determina se um filme recebe financiamento, para começar, e depois atinge uma audiência significativa".

Dessa perspectiva, a hegemonia dos guardiões da cultura pode se reforçar ainda mais - ainda que passe a funcionar de maneira muito mais invisível e descentralizada. A indústria ainda levaria os cineastas a fazer aquilo que ela deseja - mas agora todos acreditariam que na verdade eles tomaram o controle de suas carreiras, como Oprah aconselha. Não é um motivo para combater o crowdfunding, mas apenas um lembrete de que devemos apoiá-lo de maneira crítica, ou até mesmo cética.

Tradução de Paulo Migliacci

evgeny morozov

Evgeny Morozov é pesquisador-visitante da Universidade Stanford e analista da New America Foundation. É autor de 'The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom' (a ilusão da rede: o lado sombrio da liberdade na internet). Tem artigos publicados em jornais e revistas como 'The New York Times', 'The Wall Street Journal', 'Financial Times' e 'The Economist'. Lançará em 2012 o livro 'Silicon Democracy' (a democracia do silício). Escreve às segundas-feiras, a cada quatro semanas.

 

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