Saltar para o conteúdo principal

Publicidade

Publicidade

 
 

evgeny morozov

 

29/10/2012 - 03h36

Na vida digital, cada vez mais intermediários

Publicidade

 

A "desintermediação" costuma ser louvada como traço definidor da era digital. Graças a inovações tecnológicas, os intermediários de toda ordem estariam supostamente a caminho da extinção. E quando os editores, as organizações editoriais e as livrarias desaparecerem, assim propõe a teoria, nossa vida pública estará livre de suas distorções, ineficiências e agendas ocultas. Para citar Jeff Bezos, da Amazon - o maior dos matadores de intermediários -, "até mesmo os mais bem intencionados desses controladores de acesso retardam a inovação.

Quando uma plataforma funciona como self-service, até mesmo as ideias mais improváveis serão testadas, porque não existe um especialista controlando o acesso e dizendo que 'isso jamais funcionará'". Mesmo que Bezos esteja certo, ele desconsidera um aspecto importante dessa história: a digitalização de nossa vida pública também está criando muitos novos intermediários, a maioria dos quais da variedade invisível -e portanto suspeita.

Considere os blogs. Quando a primeira geração de blogs surgiu na Internet, no final dos anos 90, os únicos intermediários que seus autores tinham de usar eram a companhia de hospedagem do blog e o provedor de acesso à Internet. Uma pessoa que crie um blog em 2012 provavelmente vai terminar em uma plataforma comercial como o Tumblr ou o WordPress, e todos os comentários do blog serão administrados por meio de um provedor terceirizado como a Disqus. E os intermediários não ficam por aí: a Disqus coopera com uma empresa chamada Impermium, que utiliza diversos sistemas de aprendizado mecânico para determinar se os comentários postados são ou não spam. Foi a proliferação - não a eliminação - de intermediários que tornou os blogs tão onipresentes; portanto, o termo correto nesse caso seria "hiperintermediação", e não "desintermediação".

A Impermium também alega ter desenvolvido tecnologia para identificar não só spam e links nocivos mas toda espécie de conteúdo prejudicial - a exemplo de violência, racismo, linguagem chula e expressões verbais de hostilidade -, e permite que os proprietários de sites ajam em tempo real para bloquear essas comunicações antes que cheguem aos leitores. A companhia diz ter 300 mil sites como clientes. É, isso mesmo: uma única companhia sediada na Califórnia decide o que é linguagem agressiva e chula para 300 mil sites, sem que ninguém avalie se os algoritmos que ela emprega para tanto são distorcidos ou excessivamente conservadores.

O modelo da Impermium é interessante por acrescentar um aspecto "big data" ao processo de rotular alguma coisa como spam ou agressão verbal. No passado, alguém que mencionasse a palavra "Viagra" em um post ou comentário de blog seria bloqueado de imediato; a Impermium alega que, ao aproveitar os dados de usuários obtidos junto aos seus 300 mil sites clientes, ela é capaz de distinguir entre piadas sobre Viagra e spam sobre Viagra.

Isso pode parecer libertador: tomar decisões moderadoras que levem em conta o contexto pode salvar algumas piadas de censura. Mas em outras circunstâncias, esse casamento entre o uso maciço de dados e a moderação automatizada de conteúdo poderia ter um lado mais sombrio, especialmente em regimes não democráticos, para os quais os quais uma guerra contra o spam - travada com a ajuda de empresas nacionais de tecnologia - seria apenas pretexto para suprimir as opiniões dissidentes. Nas mãos desses regimes, uma solução como a da Impermium permitiria sintonia fina da censura, eliminando as lacunas que afligem os sistemas "burros" que censuram em massa.

Os blogs da China, por exemplo, costumam empregar eufemismos e alusões para contornar os algoritmos de censura. Uma expressão aparentemente inócua como "caranguejo de rio" pode ser usada para substituir "censura à Internet", e "terapia de férias" já foi empregado para descrever a detenção de funcionários do governo. Sem censura - porque os blogs não empregam termos nobres como "direitos humanos" ou "democracia" - essas expressões logo se tornam tema de debate sobre a política chinesa.

Com a ajuda da análise maciça de dados, o software de moderação de conteúdo pode verificar a frequência relativa de uso dessas expressões em outros sites populares, e os comentaristas que as empregam - quem são seus amigos? Que outros artigos eles comentaram? -, a fim de identificar eufemismos suspeitos. Ou podem identificar a origem geográfica de alguns desses posts; imaginem as novas possibilidades de censura abertas quando as decisões de moderação puderem incorporar dados de localização geográfica (o que alguns pesquisadores já definem como "big data espacial"). Por que não bloquear os comentários, vídeos e fotos subidos por usuários localizados, digamos, na praça Tahrir ou outro local politicamente explosivo?

Ou os autocratas poderiam se provar ainda mais astutos e tomar o controle de conteúdo que considerem ameaçador, em lugar de bloqueá-lo. Depois dos levantes da Primavera Árabe, pessoas que postassem comentários críticos sobre o Bahrein ou Síria no Twitter logo recebiam réplicas zangadas de pessoais leais ao governo - ou, mais provavelmente, de bots programados para isso. Da mesma forma, ativistas tibetanos lamentam que diversos hashtags relacionados à causa do Tibete, no Twitter - especialmente #tibet e #freetibet - tenham passado a atrair tanto spam criado por bots que deixaram de ser úteis.

Tecnologias novas do segmento de big data podem tornar mais precisas essas formas de propaganda. Para os governos, a próxima fronteira é aprender como identificar, esvaziar e distorcer os novos temas de debate público antes ainda que eles sejam aglutinados em torno de um hashtag chamativo - é quanto a isso que as ferramentas analíticas do big data são mais úteis. Assim, uma das agências russas de segurança recentemente abriu concorrência para a criação de bots que acompanhem a ascensão de temas de debate e os combatam em tempo real, por meio da "distribuição em massa de mensagens em redes sociais, com o objetivo de influenciar a opinião pública". Moscou está aprendendo com Washington, onde no ano passado o Pentágono concedeu a uma companhia de San Diego um contrato de US$ 2,7 milhões para criar software que permita criar múltiplas identidades falsas online e "combater a propaganda inimiga extremista e violenta fora dos Estados Unidos". Os recursos analíticos acionados pelos serviços de big data tornam muito mais fácil detectar essa "propaganda inimiga".

Por que alguém se incomodaria em desenvolver essas táticas dada a dificuldade que um bot - que dispõe de poucos contatos e um histórico irrelevante de tweets - encontraria para convencer seres humanos? Para começar, persuasão pode não ser o objetivo. Alguns bots existem apenas para dificultar a descoberta de informação fatual oportuna sobre, digamos, protestos políticos em curso. Todo esse investimento em bots talvez tenha funcionado para o Kremlin: nos protestos que se seguiram às contestadas eleições legislativas de dezembro de 2011, o Twitter estava repleto de contas falsas que tentavam soterrar os hashtags mais populares com informações irrelevantes. Um estudo recente alega que das 48.646 contas de Twitter que participaram de discussões sobre as eleições russas contestadas, 25.860 - mais de metade! - eram bots, que postaram 440.793 tweets sobre o tema.

Segundo, os bots podem acrescentar lastro numérico a temas de debate que já vem sendo promovidos por pessoas conhecidas, a fim de conduzi-los ao topo da tabela viral. Na campanha eleitoral mexicana deste ano, o Partido Revolucionário Institucional (PRI), cujo candidato venceu, foi acusado de programar milhares de bots para enviar tweets de palavras e frases específicas com o objetivo de conduzir os temas que interessavam à agremiação à lista de "trending topics" do Twitter. Mas o PRI também fez um bom trabalho ao convencer seus membros a escrever sobre essas temas. Uma de suas campanhas propunha que todos escrevessem sobre um determinado hashtag ao mesmo tempo. É por meio dessas combinações de esforço humano e bots que os temas de debate se estabelecem;

Terceiro, os mais inteligentes dos bots podem servir a outra função interessante: podem apresentar pessoas umas às outras, por exemplo ao mencionar os nomes de usuário de duas delas no mesmo Tweet. Uma experiência conduzida em 2011 pela PacSocial, uma companhia de ferramentas analíticas cujo foco são os bots, revelou que bots podem criar conexões reais entre usuários. Na experiência da empresa, o índice de conexão cresceu em 43% (ante o período de base, no qual os bots estavam inativos). Assim, com a dose correta de manipulação, um bot pode convencer alguém a seguir a pessoa "certa" - e seria essa pessoa, e não o bot, que influenciaria seu pensamento.

A digitalização aumentará, e não reduzirá, o número de intermediários em nossa vida pública. Não há nada de inerentemente malévolo nesses intermediários, se recordamos que é preciso mantê-los sob controle. Assim, em lugar de celebrar o mítico nirvana da desintermediação, deveríamos estudar as caixas pretas dos algoritmos de spam e dos bots de propaganda. O nível do debate público talvez seja determinado pelos temas de debate, mas não devemos esquecer que nem todos os temas de debate foram criados naturalmente - alguns surgem naturalmente, e outros são resultado de um planejamento inteligente e insidioso.

Tradução de Paulo Migliacci

Evgeny Morozov

Evgeny Morozov é pesquisador-visitante da Universidade Stanford e analista da New America Foundation. É autor de "The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom" (a ilusão da rede: o lado sombrio da liberdade na internet). Tem artigos publicados em jornais e revistas como "The New York Times", "The Wall Street Journal", " Financial Times" e "The Economist". Lançará em 2012 o livro "Silicon Democracy" (a democracia do silício). Escreve às segundas-feiras, a cada quatro semanas, no site da Folha.

 

As Últimas que Você não Leu

  1.  

Publicidade

Livraria da Folha

A Informação

A Informação

James Gleick

Comprar
Malcolm X

Malcolm X

Manning Marable

Comprar
Os Limites do Possível

Os Limites do Possível

André Lara Resende

Comprar
O Grande Gatsby

O Grande Gatsby

F. Scott Fitzgerald

Comprar
Truque ou Tratamento

Truque ou Tratamento

Dr. Edzard Ernst, Simon Singh

Comprar

Publicidade

Publicidade

Publicidade


 

Auto DVD Player Auto DVD Player Equipe seu carro a partir de 12x de R$ 20,18

Perfumes Perfumes Importados a partir de R$ 39

Câmera Digital | Tênis | Mais...

Voltar ao topo da página