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fernando canzian

 

06/02/2012 - 09h31

"Custo Brasil" ficou maior

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Em crises internacionais passadas, o Brasil sempre se estropiava rapidamente por conta de sua vulnerabilidade externa. Era nossa pior e mais aparente deficiência.

A partir do primeiro governo Lula, isso foi sendo corrigido. O país minimizou seu endividamento atrelado ao câmbio, empilhou reservas cambiais (que já ultrapassam US$ 350 bilhões) e fortaleceu o consumo interno via crédito e aumento da massa de rendimentos e mais empregos.

Foi o que protegeu o Brasil relativamente da Grande Recessão global iniciada em 2008.

Mas agora, infelizmente, a economia brasileira dá sinais cada vez maiores de estar sendo atingida com mais força do que muitos previam.

A movimentação do Ministério da Fazenda contra entrada de automóveis mexicanos e outras medidas protecionistas são o principal sintoma disso.

A crise global de hoje está sendo combatida pelos EUA e União Europeia por meio de uma oferta sem precedentes de dinheiro barato pelos seus Bancos Centrais. Isso faz com que outras moedas, como o real, acabem se valorizando, trazendo uma série de problemas.

No caso do Brasil, os efeitos da valorização do real são amplificados por um conjunto de deficiências que, ao contrário da vulnerabilidade externa, não foi atacado nos últimos anos.

É o velho "custo Brasil": burocracia e impostos muito altos e infraestrutura ruim que acabam refletidos nos preços que pagamos no dia a dia.

Já é lugar-comum comentarmos que o Brasil está caro. O recorde de gastos de brasileiros com compras no exterior em 2011 é o lado mais pitoresco disso.

Mas há movimentos "subterrâneos" muito mais graves. E que expõem, neste momento, o quão atrasado e deficiente o Brasil ainda segue.

Por conta do "custo Brasil", quem pode busca alternativas mais baratas. Como os brasileiros que infestam as lojas de Miami e Nova York ou os que, internamente, acabam preferindo produtos importados.

No ano passado, enquanto as vendas do comércio subiram 6,5% acima da inflação, a produção da indústria nacional cresceu só 0,3%. E a produção industrial de bens de consumo caiu 0,7%.

Isso mostra que comércio, consumidores e mesmo a indústria estão recorrendo cada vez mais a importados baratos para satisfazer suas necessidades.

O país não vai longe assim.

O governo brasileiro gosta de apontar para os EUA e Europa como grandes responsáveis por isso, por desvalorizarem suas moedas e, por tabela, fortalecerem o real.

Mas isso não tem nenhuma relação com impostos, juros e "spreads" bancários altos, infraestrutura ruim e governos ineficientes e corruptos.

Com a crise, o "custo Brasil", que já era grande, só ficou maior.

Fernando Canzian

Fernando Canzian é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de "Brasil" e do "Painel" e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006. É autor do livro "Desastre Global - Um ano na pior crise desde 1929". Escreve às segundas-feiras na Folha.com.

 

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