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fernando canzian

 

12/09/2011 - 09h40

Sem saída

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Editoria de Arte/Folhapress

Entre o colapso global em meados de 2008 e o início do ano passado, as três regiões mais ricas do mundo (EUA, União Europeia e Japão) perderam 17 milhões de empregos (quadro ao lado; onde 08Q2 = 2º.tri.2008).

Hoje, elas ainda mantêm um saldo negativo em torno de 14 milhões de vagas cortadas. O desemprego nos EUA atinge 9% e vai a 20% em países como a Espanha.

Isso é resultado do desaquecimento provocado pelo endividamento de famílias, bancos e governos.

Na sua origem, a irresponsabilidade dos bancos. Eles chegaram a emprestar mais de US$ 30 para apenas US$ 1 que tinham em caixa antes da crise.

Quando a inadimplência dos tomadores começou, não tiveram como suportar perdas.

Os bancos foram então socorridos com trilhões em dinheiro estatal. O objetivo era reforçar seus caixas para que voltassem a irrigar o mercado de crédito a fim de socorrer famílias e empresas endividadas.

Isso não aconteceu.

Levantamento da SEC norte-americana (equivalente à Comissão de Valores Mobiliários) revela que só nos EUA os bancos pagaram US$ 2,2 trilhões nos últimos cinco anos em salários e compensações. A remuneração dos executivos de Wall Street já voltou ao nível pré crise.

Editoria de Arte/Folhapress

Já os empréstimos dos bancos ao setor privado (quadro ao lado) estão longe de atingir os níveis de 2008.

É certo que famílias e empresas estão menos vorazes na procura por crédito. Mas sobram histórias nos EUA e Europa de pessoas físicas e pequenos e médios empresários desesperados atrás de financiamentos para se manter à tona.

É nesse contexto que autoridades norte-americanas e europeias tentam implementar novas regras para impedir, no futuro, uma crise bancária como a que vivemos atualmente.

Os bancos estão reagindo por meio de seu mais poderoso sindicato, o IIF (Instituto de Finanças Internacionais, a Febraban mundial), que reúne mais de 400 grandes instituições.

Em novo relatório sobre os rumos da regulamentação, o IIF estima que as novas restrições às suas operações poderão cortar em até 0,7% ao ano o crescimento nas economias avançadas.

Em vez de crescer 10% em cinco anos, por exemplo, o avanço seria de 6,5%. O IIF fala em 7,5 milhões de empregos que poderiam deixar de ser criados.

Pode ser chute ou terrorismo. O fato é que o mundo só crescia até 2008 por conta do avanço do crédito bancário.

Uma das exigências colocadas à mesa é que os bancos aumentem suas reservas (capital) para evitar crises de liquidez como a de 2008/2009.

Editoria de Arte/Folhapress

O quadro ao lado mostra como os bancos elevaram seu capital ao longo dos últimos anos.

Isso foi feito basicamente a partir do socorro estatal. Quando o governo dos EUA, por exemplo, se tornou sócio de bancos como o Citigroup.

Sozinhos, os bancos não têm conseguido levantar recursos. Ao contrário, suas ações estão entre as mais castigadas pela crise atual.

O que os mercados voltam a mostrar é que dificilmente os bancos conseguirão elevar seu capital, conceder mais empréstimos ou ajudar na recuperação do emprego.

A crise de 2008 só foi adiada. Ela se desenrola novamente agora, em câmera lenta.

Fernando Canzian

Fernando Canzian é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de "Brasil" e do "Painel" e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006. É autor do livro "Desastre Global - Um ano na pior crise desde 1929". Escreve às segundas-feiras na Folha.com.

 

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