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humberto luiz peron

futebol na rede

24/01/2012 - 19h30

A origem de nossa decadência

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O futebol brasileiro vive um momento de baixa. A seleção está longe de estar entre as melhores do mundo atualmente e nossos clubes não conseguem competir com os da Europa e sofrem para bater times medianos nas competições continentais. Também não conseguimos mais formar grandes jogadores como sempre fizemos.

É muito fácil apontar o momento preciso em que nosso futebol tomou o caminho da decadência.

Foi em 1989, quando o técnico Sebastião Lazaroni adotou o esquema 3-5-2 na nossa seleção, que venceu a Copa América daquele ano.

Dar o crédito total ao treinador seria demais, já que muitos o apoiaram integralmente em sua decisão, que, como se pode ver hoje, foi uma autêntica tragédia.

É preciso dizer que aqui não foi implantado o 3-5-2 e sim uma cópia retranqueira que é na verdade o 5-3-2.

Tirando o Mogi Mirim, treinado por Vadão no início da década de 1990 --o famoso "Carrossel Caipira"--, e o Grêmio, comandado por Tite em 2001 , que usaram o esquema da maneira correta, os demais treinadores sempre montaram o time com cinco zagueiros e da pior maneira possível: com os três zagueiros centrais jogando em linha, sem sobra e protegidos por no mínimo dois volantes marcadores, os laterais se transformando em jogadores de meio-campistas, sem armadores e com os dois atacantes correndo atrás dos chutões dados pelos defensores.

A cópia muito mal feita do 3-5-2 fez com que a maioria das equipes se dividisse em dois blocos, oito na defesa e dois no ataque, que sempre atuam distantes um do outro.

Sentimos muito esse reflexo negativo hoje. Os nossos times só atuam na base do chutão, não existe um time que consiga trocar três ou quatro passes na mesma jogada. Também não há um time que consiga jogar de maneira compacta. Hoje, a distância entre um zagueiro e um atacante é muito grande, o que deixa espaços enormes para o adversário. Quando você está no campo, essa visão é muita nítida.

Nem vou falar do jogo entre Santos e Barcelona, mas a diferença do posicionamento dos times no gramado foi também bem nítida no recente amistoso entre o Ajax --que hoje é um time de segunda linha no futebol do Velho Continente-- e o Palmeiras.

Enquanto o time holandês sempre muito compacto não deu um chutão, tocava sempre a bola no chão e os jogadores não precisavam se deslocar tanto para marcar os adversários, os jogadores do time brasileiro dificilmente tinham um jogador perto para fazer o passe e precisavam correr com a bola ou tentavam o lançamento longo.

O modelo adotado em 1989 também é responsável pelo problema na formação de jogadores.

Não formamos mais laterais nos últimos anos, apenas atletas que jogam pelo lado do campo, que só sabem correr com a bola e não têm a mínima noção de posicionamento defensivo.

Não temos também nenhum zagueiro rápido, que consiga fazer a antecipação e consiga enfrentar o atacante no mano a mano longe da grande área. Isso acontece porque já faz duas décadas que nossos defensores se acostumaram a jogar na sobra e a dar chutões para o lado que o nariz aponta.

Perdemos a capacidade de formar volantes e meias técnicos, pois nos últimos anos só foi pedido a eles que marcassem e dessem proteção aos zagueiros e que os meias que jogam mais avançados tenham força para carregar a bola. Faz tempo que não se exige que os jogadores de meio tenham visão de jogo para dar um passe mais difícil ou tentem controlar o ritmo de jogo.

Graças ao 3-5-2 de Lazaroni não há mais atacantes técnicos que saibam criar espaços e tenham um pouco de habilidade para fazer uma tabela. Nos últimos 20 anos só produzimos atacantes velocistas e centroavantes trombadores.

Temos que nos livrar da herança do 3-5-2, que mutilou e enfraqueceu nosso futebol. É preciso que o Brasil recupere sua essência de ter um futebol ofensivo e técnico --aquele estilo que inspirou o atual Barcelona, que, boquiabertos, não paramos de aplaudir.

Até a próxima.

Mais pitacos em: www.twitter.com/humbertoperon

DESTAQUE
Passou da hora de os times brasileiros pararem de acreditar em previsões muito otimistas de que um craque pode gerar vários milhões de reais. Os clubes contraem dívidas antevendo o quanto irão faturar e o que eles recebem é um valor muito inferior. O pior é que sempre sobra para os clubes o prejuízo, já que são eles responsáveis pelos contratos com os atletas e não as agências e os investidores.

ERA PARA SER DESTAQUE
Uma pena, mas não há mais espaço para os campeonatos estaduais. Os times de maior tradição não dão a mínima para esse tipo de torneio, enquanto os times menores não investem para jogar um campeonato que dura apenas três meses. É preciso achar uma maneira mais inteligente para que os clubes possam lucrar no início da temporada e possam se preparar para torneios mais importantes como o Campeonato Brasileiro e a Libertadores.

Humberto Luiz Peron

Humberto Luiz Peron é jornalista esportivo, especializado na cobertura de futebol, editor da revista "Monet" e colaborador do diário "Lance". Escreve para a Folha.com às terças-feiras.

 

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