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hélio schwartsman

 

05/08/2010 - 00h03

Os ateus e o mal

A pedidos, comento a guerra que o apresentador da TV Bandeirantes José Luís Datena declarou aos ateus do Brasil.

Tudo começou no último dia 27, quando o âncora, a pretexto de comentar um par de crimes hediondos, resolveu criar um enquete na qual as pessoas deveriam entrar em contato com o programa e responder se acreditavam ou não em Deus.

Quando o número de "nãos" superou suas expectativas, Datena resolveu intervir, incentivando os fiéis a votar a favor do Todo-Poderoso. A seguir, alguns dos melhores momentos:

"--Como? Nós temos mais de mil ateus? Aposto que muitos desses estão ligando da cadeia."

"--Ateus são pessoas sem limites, por isso matam, cometem essas atrocidades. Pois elas acham que são seu próprio Deus."

"--É só perguntar para esses bandidos que cometem essas barbaridades pra ver que eles não acreditam em Deus."

O apresentador disse ainda que só quem não acredita em Deus é capaz de cometer crimes. Afirmou que ateus são "pessoas do mal", "bandidos", "estupradores", "assassinos". Chegou bem perto de declarar que a culpa da violência e da corrupção no Brasil é dos ateus.

Ao final da diatribe, provavelmente alertado pela produção de que havia protestos, tentou contemporizar. Reconheceu a possibilidade lógica de existir pessoas que não acreditam em Deus e não cometem crimes. E emendou:

"--Mas a maioria de quem (sic) mata, de quem estupra, de quem violenta, de quem comete crimes bárbaros, já esqueceu de deus há muito tempo. Há muito tempo."

A blogsfera dos ateus está em polvorosa. Meu amigo Daniel Sottomaior, da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), já quer processar o apresentador.

Pessoalmente, não acho que seja o caso. Acredito em liberdade de expressão em sua forma forte. O Datena é livre para dizer o que pensa de ateus, e, nós para afirmar o que quisermos de suas declarações, da religião e da própria ideia de Deus. O debate tende a ficar veemente, mas, enquanto ninguém substituir palavras por fogueiras, estamos num jogo razoavelmente civilizado. Se só pudermos dizer o que as pessoas estão dispostas a ouvir sem ofender-se, a liberdade de expressão nem precisaria estar inscrita na Constituição.

Isto posto, analisemos o mérito das acusações do apresentador. Bem ao modo dos religiosos, valho-me de uma parábola.

Como mostrou reportagem de minha autoria publicada há poucos dias na Folha e na Folha.com, a Cúria Metropolitana de São Paulo foi condenada por litigância de má-fé, mais especificamente, por violar o inciso II do artigo 17 do Código de Processo Civil ao "alterar a verdade dos fatos" nos autos do processo --ou seja, por mentir.

Tal prática não contraria só a justiça dos homens mas também o oitavo mandamento, que reza: "Não levantarás falso testemunho contra teu próximo" (Êx. 20,16).

Consultada, a cúria preferiu não comentar o caso. Disse apenas que já interpôs recurso contra a decisão no Tribunal Superior do Trabalho, em Brasília.

A condenação saiu por unanimidade pela 12ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Ela veio no curso da ação movida pelo economista Paulo Roberto Arvate, professor da PUC que havia sido demitido em 2006, no meio de uma ampla reformulação da universidade, que enfrentava séria crise econômica.

O advogado de Arvate, Nelson Rothstein Barreto Parente, acionou não apenas a Fundação São Paulo, mantenedora da PUC, mas também a cúria, por entender que a segunda controla a primeira.

Os defensores da cúria contra-argumentaram, afirmando que a relação entre seu cliente e a fundação se limitava à escolha do reitor, não havendo, portanto, nenhuma possibilidade de ingerência. Com isso, a inclusão da cúria como parte na ação seria despropositada.

Foi aí que a igreja entrou em apuros. Tais declarações contrariavam não apenas os estatutos da PUC, que atribuem ao arcebispo de São Paulo o posto de grão-chanceler e diversos poderes na universidade, como também entrevistas de dom Cláudio Hummes (arcebispo até 2007) e de dom Odilo Scherer (arcebispo a partir de 2007) dadas à Folha em que ambos diziam explicitamente que a reestruturação da PUC foi ordenada pela igreja.

Com isso, Barreto Parente pediu a condenação da cúria por litigância de má-fé, e a Justiça lhe deu razão em dezembro passado. O professor demitido venceu a ação.

O que essa historieta mostra? Ela sugere que é complicado ligar de forma forte virtude a religião. Embora diversas crenças se apresentem como fonte da moral, esse é um vínculo que não resiste às evidências empíricas disponíveis nem à análise da incipiente ciência moral.

Se é da religião que vem a moral, deveríamos, como vivamente prognosticou Datena, encontrar nas prisões um grupo desproporcionalmente grande de ateus e menor de religiosos. Não é isso, porém, o que sugerem os dados. Estatísticas reveladas por uma funcionária do Birô Federal de Prisões dos EUA de 1997 mostraram que a proporção de cristãos era de 80%, mesmo valor da população geral. Muçulmanos, que correspondem a algo entre 1% e 3% dos norte-americanos, eram 7,2% dos presidiários.

Já os ateus declarados, que se contam em 0,4% na população geral, eram 0,2% dos apenados.

É claro que esses dados precisam ser apreciados criticamente. Para começar, é preciso lembrar que especialmente na cadeia as pessoas mudam de religião. É provavelmente isso o que explica a concentração de muçulmanos, que já há vários desenvolvem um forte trabalho de conversão de presidiários.

Outro ponto polêmico é o da confusão entre "ateus" e "sem religião". É bastante razoável supor que, devido ao preconceito, muitos ateus "se escondam" na categoria "sem religião" ou dos que se recusam a revelar sua crença. Daí que a medida mais prudente é considerar apenas os que se declaram abertamente ateus. Aí, é claro, a base fica pequena demais para elucubrações mais sofisticadas.

Seja como for, esses dados servem para mostrar que a religião não oferece efeitos protetores sobre o crime. E, se é verdade que há menos ateus, isso provavelmente se deve ao fato de que essa é uma população mais instruída e, consequentemente, rica. A pobreza é um fator preditivo de criminalidade bem mais poderoso que a religião.

A ausência de vínculo entre religião e "bom comportamento" também foi verificada nos EUA em relação a divórcios (vistos como pecado ou falha moral por várias igrejas) e trabalho voluntário de médicos. Na verdade, médicos ateus e agnósticos se mostraram um pouquinho mais generosos para com os necessitados do que seus colegas religiosos, de acordo com um trabalho citado por Darrel Rey em "The God Virus".

No Brasil, temos pelo menos os dados das separações. Como procurei mostrar numa reportagem publicada (só para assinantes da Folha e do UOL) há algumas semanas, as religiões não bastam para segurar os casamentos.

Esses resultados talvez sejam surpreendentes para o Datena, mas não à luz da biologia. Numa leitura darwinista, a moral nada mais é do que uma coleção de sentimentos como os de justiça, culpa, raiva, lealdade que evoluíram para possibilitar e aprimorar a vida em sociedade. O advento da linguagem permitiu relações muito mais sofisticadas de altruísmo recíproco. É basicamente essa complexidade que nos diferencia de outros primatas.

Evidentemente, tudo isso teve de ocorrer dezenas de milhares de anos antes de o primeiro padre rezar a primeira missa --ou nossa espécie não teria chegado até aqui.

hélio schwartsman

Hélio Schwartsman é bacharel em filosofia, publicou 'Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão' em 2001. Escreve de terça a domingo.

 

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