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joão pereira coutinho

 

19/05/2011 - 07h13

Ponto de ordem

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O meu primeiro editor avisou-me um dia, mais de 12 anos atrás, que o mais perigoso em jornalismo não eram os fatos errados. Era o uso da ironia. "Em 99% dos casos, o leitor é literal."

Doze anos depois, continuo sem aprender a lição. E arrisco: o meu texto, "Mamonas Celestinas", despertou indignações, insultos e até ameaças de morte (não brinco). Tudo porque a esmagadora maioria dos leitores leu o que o texto não dizia.

Seria ridículo da minha parte estabelecer comparações com os grandes mestres da sátira, com os quais tento aprender alguma coisa.

Mas desconfio que se os mesmos leitores que perderam a cabeça comigo tivessem lido, por exemplo, a "Modesta Proposta" de Jonathan Swift (1667 - 1745) para que os pobres vendessem os seus filhos no açougue, o pobre Swift teria sido crucificado como "reacionário", "desumano", "canibal". Ah, é claro: e "fascista". Como, na verdade, foi. Por outras palavras, trezentos anos atrás.

Ponto de ordem: no texto, em nenhum momento se afirma que a amamentação é errada (o que seria, no mínimo, absurdo); em nenhum momento se afirma que a amamentação é como a masturbação (o que seria, no mínimo, mentecapto).

O objetivo era outro --e custa até ter que o explicar: partindo da manifestação promovida em São Paulo sob o título (grotesco) de "mamaço", pretendia dizer-se que a amamentação em público não é uma questão de "direito"; é uma questão de bom senso. E o bom senso indica que a amamentação de uma criança deve ser um ato reservado entre a mãe e o bebê, por mais "natural" que ele seja (e é).

Porém, o argumento da "naturalidade" de um ato não basta para diluir as fronteiras entre o público e o privado. Porque se esse argumento bastasse, então sim, não haveria nenhum motivo para que os mais variados atos "naturais" do nosso quotidiano ficassem dentro de quatro paredes.

*

Resta-me agradecer aos leitores minoritários que, concordando ou não com as premissas do argumento, souberam reconhecer o "reductio ad absurdum" em que ele evoluiu. Inteligência, humor, "fair play": o meu leitor ideal é também, não tenho dúvidas, o pai ou a mãe ideal.

João Pereira Coutinho

João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do "Correio da Manhã", o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve às terças na versão impressa de "Ilustrada" e a cada duas semanas, às segundas, no site.

 

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