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julia sweig
As cores das convenções
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Na política americana, infelizmente, apenas os democratas parecem saber capitalizar a diversidade cultural e étnica do país. Digo infelizmente porque, embora os eleitores negros, latinos, mulheres e gays provavelmente vão reeleger Obama, a polarização cultural na política nacional é negativa para a solução dos muitos problemas do país.
O contraste entre os dois partidos ficou exposto de modo gritante nas convenções nacionais republicana e democrata, nas últimas duas semanas. As convenções dos partidos acontecem a cada quatro anos. Sua finalidade formal é nomear e aprovar o candidato presidencial e a plataforma política de cada partido.
Três dias de exposição frenética à mídia nacional convertem as convenções numa montagem visual da identidade cultural do país. Na convenção republicana, em Tampa, as cores vistas na tela vieram principalmente do vermelho, branco e azul da bandeira americana, das decorações do centro de convenções e das roupas de muitos dos delegados. Romney usou uma gravata listrada vermelha e azul em seu discurso de aceitação, sua mulher usou vestido vermelho no discurso dela e azul no discurso dele, e assim por diante. E o suposto viés liberal da mídia não é responsável por uma representação inexata do contraste entre as duas convenções. De acordo com o Comitê Nacional Republicano, 2,1%, ou 47, dos 2.286 delegados que assistiram à convenção republicana foram negros; não foram divulgados números relativos aos latinos. A Fox News, de Rupert Murdoch, informou que mais de 90% dos delegados na convenção se identificaram como "brancos não hispânicos". Não há informações disponíveis sobre a representação das mulheres.
O contraste com a convenção democrata é notável e perturbador. De um total de 4.438 delegados, 1.087, ou 24,5%, eram negros; 800, ou 18,02%, latinos; 202, ou 4,6%, de origem asiática ou das ilhas do Pacífico, 486, ou 8%, eram LGBT, e mais de cem eram muçulmanos. E, segundo o Comitê Nacional Democrata, nada menos que metade dos delegados foi composta de mulheres. A apresentação destas cifras não pretende ser um exercício simbólico de correção política. A polarização extrema refletida pelos números revela diferenças profundas e cheias de consequências para a política e a governança.
Houve época em que o Partido Republicano era mais abrangente. Um exemplo: até 2004, a deputada em quem eu votava era moderada, favorável ao direito ao aborto e republicana. Talvez o Partido Republicano possa sobreviver com sua base cada vez mais radical. Mas será que pode crescer? O paradoxo de o partido se dizer guardião dos direitos e liberdades individuais, ao mesmo tempo em que promete aprovar leis limitando os direitos de mulheres e gays, parece ser uma contradição aceitável por Romney, ex-governador antes liberal. Se ele chegar à Casa Branca --ainda é possível que ele se recupere da queda desta semana nas sondagens--, Romney, como já avisaram republicanos moderados como Jeb Bush, precisará incluir um pouco mais diversidade na coalizão que eles esperam que vá conduzir os EUA para o século 21.
Tradução de CLARA ALLAIN
Julia Sweig é diretora do programa de América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations, centro de estudos da política internacional dos EUA. Escreve às quartas-feiras, a cada duas semanas na versão impressa do caderno de 'Mundo'.
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