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julia sweig
A revolução de Santos
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Que diferença um presidente pode fazer! Em apenas dois anos, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, redirecionou a política externa colombiana para a América do Sul. Ele forjou um modus vivendi com sua maior parceira comercial, a Venezuela, e uma trégua de retórica política com seu presidente, Hugo Chávez. Arrumou a bagunça criada por seu predecessor com o Equador, de Rafael Correa, e moderou a deferência de "melhor amiga" da Colômbia em relação aos Estados Unidos. Forjou níveis inusitados de cooperação comercial, de investimentos, segurança e humanitária com o Brasil. E, o mais positivo e inovador de tudo, deixou a ideologia de lado, substituindo-a pelo pragmatismo que procura resolver problemas.
Com índices de crescimento e classificações de investimento respeitáveis e com um muito cobiçado acordo comercial com os Estados Unidos, Santos está agindo para encerrar o conflito com o grupo armado mais antigo da América Latina, as Farc. A desigualdade e a pobreza, a concentração das melhores terras nas mãos de financistas de cartéis e paramilitares, 3 milhões de colombianos deslocados dentro do país e a influência descarada dos paramilitares sobre o Congresso: esses problemas vão continuar presentes mesmo com a desmobilização e integração bem-sucedidas dos 8.500 soldados ainda restantes das Farc. Santos agora considera que tirar as Farc do campo de batalha e do tráfico de drogas é um passo essencial para construir a vontade política necessária para fazer frente a essas divisões profundas que ainda restam.
O presidente já pediu e aceitou ajuda de diversos atores externos. A Noruega tem um histórico de atuação nessa área --pense no processo de Oslo entre Israel e a OLP-- e vai sediar e pagar por negociações em outubro. Notavelmente, o mesmo Hugo Chávez que o governo de Uribe alegou ter dado refúgio seguro às Farc e seus negócios comerciais agora deixou claro às Farc que é chegada a hora de aproveitarem a oportunidade criada por Santos e sua "realpolitik", o mesmo Santos que, como ministro da Defesa de Uribe, impulsionou a decapitação do alto comando das Farc pelas forças armadas colombianas.
E há Cuba, país que ainda consegue guardar um segredo. Desde fevereiro de 2012, Havana sediou as discussões iniciais que prepararam o terreno para as negociações do próximo mês em Oslo e Havana. Cuba tem um histórico mais longo de facilitar negociações com as Farc e o ELN que em armá-los. Como presidente, Raul Castro vem conservando perfil relativamente baixo na política externa, que sempre foi a paixão de seu irmão Fidel. Mas, usando o capital considerável de Cuba entre a esquerda latino-americana --armada e democrática--, Raul posicionou Cuba como intermediária e "avalista" séria de negociações que possuem o potencial para encerrar o último dos conflitos armados do século 20 na região. Barack Obama vem aplaudindo o processo e guardando silêncio quanto ao papel de Cuba, dando espaço de manobra a Santos. O primeiro mandado de Obama deixa pouco em termos de um legado positivo na América Latina. Num segundo mandato, ele poderia começar por pedir a seus amigos na América Latina --Santos, Dilma-- que ajudem Washington e seu aliado acidental no processo de paz colombiano, Cuba, a estabelecer negociação entre eles próprios.
Tradução de CLARA ALLAIN
Julia Sweig é diretora do programa de América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations, centro de estudos da política internacional dos EUA. Escreve às quartas-feiras, a cada duas semanas na versão impressa do caderno de 'Mundo'.
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