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julia sweig

 

10/04/2013 - 03h00

Cristo versus mudança na Venezuela

Dois anúncios de campanha contam a história toda do porquê de a eleição deste fim de semana na Venezuela ser um "fait accompli".

Conforme divulgado pelo "New York Times", o anúncio criado pelo grande marqueteiro político brasileiro João Santana "Ele nascerá de novo" compara Hugo Chávez a Jesus Cristo, numa montagem de imagens cafonas evocando paz e harmonia e de devotos de Chávez rezando.

O nome de Nicolás Maduro não é mencionado, mas para que se dar ao trabalho? Juntamente com o slogan lançado nos dias finais do presidente morto, "Eu sou Chávez", o anúncio deixa subentendido que, ao votar em seu sucessor escolhido, até os venezuelanos mortais têm uma chance de alcançar a vida eterna.

O outro anúncio, postado pelo blog "Caracas Chronicles", faz uma nobre tentativa de focar o voto sobre a pobreza e a má administração econômica. Usando animações simples e muitas estatísticas --sabe-se lá se são precisas--, o anúncio argumenta que, não obstante os US$ 620 bi obtidos em receita petrolífera em sua Presidência, Chávez não reduziu a pobreza tanto quanto o fizeram seus vizinhos no mesmo período.

Em vez disso, comprou o amor dos eleitores, usando a receita para incentivar o consumo, elevando a conta das importações ao invés de investir em empregos e produtividade. O anúncio conclui: se você quer progresso e políticas que reduzam a pobreza, vote na mudança. E então vemos uma foto de Capriles, mas seu nome não chega a ser mencionado.

Na eleição de outubro, 44% dos venezuelanos de fato votaram em Capriles e pela mudança. Com o índice de comparecimento às urnas previsto para ser muito menor agora, é difícil prever a diferença entre os candidatos. Mas, comparando as mensagens dos anúncios --Cristo versus mudança--, fica claro quão difícil será derrotar a inevitabilidade.

O único ator político venezuelano em situação pior que o perdedor predeterminado é o vencedor, Maduro.

Depois deste fim de semana, Capriles poderá tirar férias, escrever sua autobiografia, possivelmente polir suas credenciais no setor privado e traçar planos para 2020.

Maduro, porém, será obrigado em algum momento a enfrentar as consequências políticas da inflação, carestia, dos homicídios, da corrupção e da tarefa nada invejável de servir de intermediário entre vertentes concorrentes de chavismo.

Sem os conselhos do mentor (passarinhos não contam) e sem uma equipe experiente para reconstruir a economia, por quanto tempo Maduro poderá razoavelmente sobreviver à custa do legado de Chávez?

Sim, o chavismo chegou para ficar. E, sim, Chávez continuará a ser adorado e reverenciado, porque ajudou milhões de pessoas a passarem da invisibilidade para a visibilidade.

Mas sua Presidência também produziu o que um analista descreveu como, ao mesmo tempo, uma "cultura cívica vibrante" e uma "cultura política impiedosa". A analogia é imperfeita, mas, nesse ponto e em outras questões de Estado, Maduro faria bem em estudar a destreza com que Raúl Castro substituiu o carisma do irmão por mudanças políticas.

JULIA SWEIG dirige os programas América Latina e Brasil do Council on Foreign Relations

julia sweig

Julia Sweig é diretora do programa de América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations, centro de estudos da política internacional dos EUA. Escreve às quartas-feiras, a cada duas semanas.

 

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