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Armas, EUA e Américas

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Pouco depois de um adolescente massacrar 27 crianças e professores em Connecticut no ano passado, um estudante brasileiro me perguntou se eu achava que os EUA tinham uma "cultura de violência".

Truísmo: os americanos gostam de armas. E alguns deles vivem segundo uma máxima de individualismo à moda dos pioneiros, muitas vezes ligada a uma paixão fervorosa pela 2ª emenda da Constituição.

Mas a razão para um mercado pouco regulado de armas está ligada mais à política que a uma cultura mitológica: a indústria de armas tem poder demais, simplesmente.

Os latino-americanos, especialmente os mexicanos e centro-americanos, sentem os efeitos secundários de leis permissivas dos EUA. Em 2010, o índice de homicídios ligados a armas de fogo na região superou a média global em 30%.

O Banco Mundial estima que a violência custe à América Central quase 8% de seu PIB. O Brasil, com sua própria indústria de armas, tem o mais alto número anual de homicídios cometidos por armas de fogo no mundo, seguido por Colômbia, México e Venezuela.

Mas não são somente as armas e munições que fluem do norte para o sul. É também a política.
Em 2005, a NRA (Associação Nacional dos Rifles) ajudou a derrotar um referendo no Brasil que teria proibido a venda de armas e munições a cidadãos particulares.

Após os massacres no Texas, no Arizona, no Colorado e em Connecticut em sua administração, Barack Obama e Joe Biden, juntamente com grupos que defendem o controle de armas, começaram a contestar as táticas da NRA. Não obstante o impasse no Congresso americano, alguns Estados, como Califórnia, Connecticut e Maryland, aprovaram leis mais rígidas de controle de armas.

A indústria americana de armas de fogo para civis continua a fornecer armas às redes criminosas transnacionais da região.

Neste ano, o Senado americano rejeitou medidas para ampliar as verificações de antecedentes dos compradores de armas, restaurar a proibição federal das armas de assalto e converter em crime federal a compra de armas de fogo para outros que não poderiam adquiri-las.

A política americana em relação às armas levará algum tempo para mudar. Em sua política externa, porém, Washington tem algumas opções para concretizar seu discurso sobre "responsabilidade compartilhada", com ações executivas para reduzir o tráfico de armas e munições de assalto nas Américas.

Você pode ler sobre o assunto no cfr.org no artigo "A Strategy to Reduce Gun Trafficking and Violence in the Americas", publicado nesta semana.

O Brasil tem a segunda maior indústria de armas nas Américas. Isso significa que EUA e Brasil compartilham uma "cultura de violência"? Não sei. Mas compartilham a responsabilidade de limitar o fluxo de armas leves na região.

Eis minha resposta ao estudante: quando Dilma for a Washington, em outubro, que tal os dois presidentes lançarem uma estratégia EUA-Brasil para reduzir os estoques de armas ilegais na região?

JULIA SWEIG dirige os programas América Latina e Brasil do Council on Foreign Relations

@JuliaSweig

julia sweig

Julia Sweig é diretora do programa de América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations, centro de estudos da política internacional dos EUA. Escreve às quartas-feiras, a cada duas semanas.

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