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Democracia em crise

Na semana passada, dois dias após o início da paralisação do governo americano, fui por acaso à cidade de Oxford, em Butler County, Ohio. Uma universidade pública de lá tinha me convidado para fazer uma palestra.

Acontece que Butler County fica no distrito representado pelo republicano John Boehner, o presidente da Câmara dos Deputados.

Percorrendo o local de carro, bati um longo papo com uma eleitora de sua base, mãe solteira e avó que ganha a vida conduzindo estudantes, professores e outros entre Oxford e o aeroporto de Cincinnati, Ohio.

Angela e eu tivemos uma hora inteira para conversar. Não perguntei se ela tinha votado em Boehner --por mais que a NSA possa se comportar de forma diferente, nos EUA é considerado falta de educação e invasão de privacidade perguntar às pessoas em quem votaram.

Mas, enquanto passávamos de carro pelos campos de soja e pelo cinturão industrial ao longo do rio Ohio, falamos da paralisação do governo, da possível moratória e da próxima eleição.

Angela me disse que há muitas coisas do presidente Obama de que não gosta. Pedi detalhes mais específicos, mas ela riu de si mesma por não conseguir citar nenhum. Então ficou muito séria. Desacelerou o carro até quase parar e voltou-se para mim.

"Tenho uma pergunta. Você acha que o Tea Party e os republicanos estão fazendo isso a Obama porque ele é negro?"

Ela mesma respondeu antes que eu conseguisse fazê-lo. Disse que, para ela, a partir do segundo em que Obama foi eleito pela primeira vez, o Tea Party não tem sido motivado primordialmente por uma preferência por menos gastos públicos.

Em vez disso, Angela falou que tinha observado uma raiva racista muito mais fundamental diante da perspectiva de um negro dizer a americanos brancos o que fazer. E acrescentou: "Se estão fazendo isso a Obama, imagine o que não farão a Hillary Clinton em 2016".

Seja qual for o subtexto racista em ação ou a estratégia eleitoral que o Partido Republicano espera realizar com a paralisação do governo e possível moratória, estamos vivendo uma crise existencial muito mais grave da democracia dos EUA.

Quando crianças, aprendemos nos livros didáticos que a essência da democracia é a proteção das minorias contra a tirania da maioria.

Contudo, meros 30 congressistas associados ao Tea Party, representando apenas 6,4% de um total de 313 milhões de americanos, juntamente com os líderes do Partido Republicano que deram vazão a esses radicais, perverteram a premissa básica da democracia.

Eles puseram em risco o sistema político americano de freios e contrapesos, jogaram por terra o conceito de uma oposição leal e criaram uma crise de governança que coloca em risco o bem-estar econômico nacional e global.

Como a eleitora do distrito de Boehner, acho difícil acreditar que o radicalismo deles tenha nascido de uma simples disputa filosófica sobre política fiscal.

julia sweig

Julia Sweig é diretora do programa de América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations, centro de estudos da política internacional dos EUA. Escreve às quartas-feiras, a cada duas semanas.

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