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kennedy alencar

 

27/05/2011 - 12h28

Lula, o escudo

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Quando ainda era presidente, Luiz Inácio Lula da Silva cometeu um erro estratégico em relação ao próprio futuro. Deu corda em excesso à versão de que não daria palpites no governo Dilma, de que precisaria "desencarnar" da Presidência, de que se dedicaria a retiros de pescaria.

Era uma forma de amenizar críticas a uma eventual tutela sobre o futuro governo. O jornalista João Santana, marqueteiro da campanha petista, insistia na tese de que era preciso eleitoralmente aproveitar a proximidade com Lula, mas também começar a construção do que seria o governo Dilma --aquela ideia meio esquisita de ocupar o espaço de rainha no imaginário dos brasileiros.

Os elogios ao estilo Dilma (administrativo, sereno, pouco loquaz) duraram até a primeira crise do governo, evento que acontece com todos os governos. De repente, as qualidades viraram defeitos. A política é como ela é. E a imprensa também. Por isso, Lula entrou em campo

Crises precisam ser enfrentadas politicamente. A primeira crise de Dilma veio logo, no seu quinto mês. A primeira de Lula apareceu 14 meses depois, em fevereiro de 2004 (caso Waldomiro).

Registro: Lula e Dilma mantêm encontros frequentes desde quando ela foi eleita. A presidente nunca escondeu que se aconselharia com o antecessor. Daí ser mais do que natural uma parceria.

Dilma chegou ao Palácio do Planalto graças a Lula. Ele continuará forte se ela fizer um bom governo. É equivocada a ideia de que um desastre de Dilma pavimentaria a volta de Lula em 2014. Não seria tão simples assim.

Sempre esteve combinado entre os dois que Lula funcionaria com um escudo político da presidente. Só se surpreende com isso quem apostou erradamente numa rebelião de criatura contra criador. O ex-presidente não veio a Brasília porque quis. Foi chamado. Isso é informação.

Até a semana passada, lia-se que Lula não abrira a boca para defender Palocci, que indicara para chefiar a campanha de Dilma e, depois, ocupar a Casa Civil. Mais uns dias, Lula apareceria no noticiário como suspeito da ingênua tese de fogo amigo. Pior: seria retratado como alguém que estaria adorando ver Dilma arder em fogo.

Ora, Lula veio a Brasília para fazer articulações que a presidente não pode fazer e dizer coisas que a presidente não pode dizer.

Há uma avaliação na praça de que ele enfraqueceu Dilma. Existe outra, mais consistente, que aponta que Lula apagou um incêndio de proporções maiores do que se imaginava.

Para o bem e para o mal, os destinos de Dilma e Lula estão atados um ao outro. O mais provável é que, em vez de sumir, o antecessor apareça mais vezes ao lado da sucessora.

Pagando língua

Como Lula reclamava, sem razão, das críticas de Fernando Henrique Cardoso ao seu governo, o petista ficou prisioneiro dessa ideia de que ex-presidentes deveriam se exilar como demonstração de boa conduta em relação aos antecessores.

FHC fez bem ao criticar Lula. Itamar Franco tem sido um senador excelente, o mais articulado da oposição. Sarney nunca abandonou a política profissional. Fernando Collor de Mello cumpriu sua pena e voltou ao palco por voto direto. Animal político, Lula tem o direito de fazer o mesmo.

É salutar que os ex-presidentes façam política, cada qual com suas forças e armas. No caso de Lula, ele acumulou um capital que lhe dá legitimidade para agir como líder político no PT e no país.

Kennedy Alencar

Kennedy Alencar escreve na Folha.com às sextas. Na rádio CBN, é titular da coluna "A Política Como Ela É", no "Jornal da CBN", às 8h55 de terças e quintas. Na RedeTV!, apresenta o "É Notícia", programa dominical de entrevista, e o "Tema Quente", atração diária com debate sobre assuntos da atualidade.

 

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