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luli radfahrer

 

29/10/2012 - 03h00

Em defesa de uma transparência radical

Toda vez que alguém defende a privacidade na rede um banco sorri. Em nome de um sigilo que não se consegue definir ao certo, os dados de bilhões de transações de débito e crédito realizadas a cada instante são armazenados em silos e calculados em sistemas privados.

Essa grande massa de operações gera resultados estatísticos de porte, marcando pessoas, negócios, hábitos, interesses e valores consumidos, identificando hábitos de consumo e padrões de comportamento valiosíssimos. A inteligência gerada por todo esse cálculo estatístico permite que empresas de cartão de crédito sejam capazes de identificar a iminência de um divórcio antes de sua manifestação. Ou da probabilidade de uma gravidez antes da não ovulação.

Toda vez que alguém defende a privacidade na rede um governo comemora. Por mais que se fale em WikiLeaks e descobertas da Imprensa, os dados de grandes transações continuam escusos em seus detalhes, os dignatários que escolhemos para nos representar podem se dar ao luxo de defender o sigilo de seus votos ou de suas atividades e as prestações de contas são realizadas em ambientes de franca camaradagem. Funcionários, bens e obras públicas, se verdadeiramente públicos, deveriam abrir suas contas, resultados, salários e impostos pagos, como o fazem com seus acionistas as empresas abertas.

Toda vez que alguém defende a privacidade na rede um plano de saúde celebra. E guarda para si os dados históricos de seus pacientes e médicos, estabelecendo faixas de cobrança genéricas para os primeiros e metas quiméricas para a produtividade dos últimos.

Pressionados e mal remunerados, profissionais de saúde acabam tendo de adivinhar o histórico de seus pacientes e receitar a pílula mais potente e genérica que estiver disponível, torcendo para que não caiam em seus colos eventuais interações medicamentosas. Abandonados, pacientes recorrem furtivamente ao Google e às redes sociais, onde recebem apoio e recomendações das pessoas mais populares e assertivas, mesmo que estas não sejam as mais adequadas ou recomendáveis.

Toda vez que alguém defende a privacidade na rede o departamento de Recursos Humanos de uma grande empresa suspira aliviado. E tritura critérios de contratação, condições de trabalho, horas úteis, argumentos de mérito, volume de promoções, motivos para bônus, promessas não cumpridas, normas ditadas, dogmas internacionais e práticas eticamente controversas. Em redes como o LinkedIn, que poderiam discutir a efetividade de suas práticas, a vigilância é intensa, ninguém é besta de se comportar mal. E em nome de uma possível contratação ou indicação futura os maus-tratos são perdoados e as perseguições, esquecidas.

Toda vez que alguém defende a privacidade na rede os cartórios e tribunais consideram aumentar suas salas de espera, pois sabem que logo estarão preenchidas pelos portadores de documentos de requerentes e de seus advogados, que tentam abrir caminho na selva burocrática de segredos, véus e cortinas, mesmo sabendo que vários de seus colegas usarão dos mesmos recursos para tentar bater-lhes as portas à cara. Os direitos de privacidade são muitas vezes enunciados em vão como subterfúgio para bloquear o acesso à informação.

Toda vez que alguém defende a privacidade na rede o comércio eletrônico fatura. E usa as informações que seus clientes forneceram voluntariamente e gratuitamente como argumento de vendas na forma de recomendações, indicações e outros argumentos de formação de manadas como o velho, mas sempre eficiente, "pessoas que compraram o que você comprou também se satisfizeram com os produtos a seguir", aproveitando-se do fato que o virtual, intangível, não sobrecarrega. E que o peso no bolso, parcelado, só será sentido depois que a transação já for história. Tentações permanentes, as lojas online nunca fecham. E inauguram um hábito que até há pouco seria bem difícil: o de comprar antes mesmo de se levantar.

Toda vez que alguém defende a privacidade na rede grandes corporações digitais como Google e Facebook choram lágrimas de crocodilo enquanto enriquecem. Sem transparência a terra é de cegos, reina quem se predispõe a enxergar. A fortuna desses conglomerados vem da comercialização publicitária de links oportunos, que se aproveitam do histórico de navegação, da rede de contatos e dos locais visitados por seus inocentes usuários, ao mesmo tempo fonte e objetivo de tantas mensagens comerciais.

Toda vez que alguém defende a privacidade na rede, agências de publicidade e departamentos de marketing contratam. Seguros que a inteligência de mercado de seus clientes continuará privativa, hermética e sujeita a interpretações. Enquanto tentam influenciar comportamentos a partir de históricos, suas campanhas continuam belas, fúteis e efêmeras, prática muito mais fácil do que investir em algo construtivo.

Toda vez que alguém defende a privacidade na rede as telefônicas gargalham. E acumulam dados de transações, consumo de banda e geolocalização de seus usuários para criar bases de dados estratégicas, fundamentais para a definição de rotas de logística, identificação de pontos de estrangulamento e definição de áreas problemáticas. Dados que poderiam ser fundamentais para melhorar o trânsito, o atendimento médico ou o transporte público. Encarcerados como estão, só servem para criar vantagens comerciais temporárias. Se é que são utilizados de alguma forma.

Vivemos em um ambiente quantificável, em que informações de que até há pouco tempo não se dava conta passaram a se tornar diferenciais estratégicos. Privacidade, como a conhecíamos, é mito: somos todos transparentes. Desinformados que malham o Facebook parecem não se dar conta de que o publicado ali é intencional, consciente. Os dados crus, que definem com precisão quem você é, o que faz, onde gasta seu tempo, estão coletados por várias outras empresas, com precisão - e previsão - que apavoraria George Orwell.

A internet, distribuída em equipamentos e sensores diversos, está se transformando na maior fonte de informação do mundo, retirando dados de atividades corriqueiras e os transformando em bens estratégicos. Como todos são responsáveis por sua produção, seus resultados devem ser acessíveis, sujeitos a uma legislação ética que beneficie a todos. Mas para isso eles não podem ficar trancados em servidores, devem se tornar parte do patrimônio e da reputação individual.

Na sociedade pós-privacidade não há lugar para segredos, senhas ou fraudes. Em rede somem as castas, médias, nichos e hierarquias. Até mesmo as teorias de Adam Smith e Karl Marx precisam ser revistas quando o grupo, livre, se comporta como um só organismo.

luli radfahrer

Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP há 19 anos. Trabalha com internet desde 1994 e já foi diretor de algumas das maiores agências de publicidade do país. Hoje é consultor em inovação digital, com clientes no Brasil, EUA, Europa e Oriente Médio. Autor do livro 'Enciclopédia da Nuvem', em que analisa 550 ferramentas e serviços digitais para empresas. Mantém o blog www.luli.com.br, em que discute e analisa as principais tendências da tecnologia. Escreve a cada duas semanas.

 

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