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luli radfahrer

 

01/04/2013 - 03h00

HAL voltou. Ele é bonzinho (por enquanto)

HAL é personagem de ficção científica. Criado em um livro de Arthur C. Clarke e adaptado para o cinema por Stanley Kubrick em 2001 - uma odisseia no espaço, o computador de Heurística ALgorítmica (daí o nome) era um sistema de inteligência artificial em uma espaçonave. Distribuído por boa parte dos equipamentos, ele não tinha uma "cara". Sua interação com os tripulantes se dava através de uma câmara e uma voz suave e ponderada. Tudo ia bem até que um conjunto de informações contraditórias deixou a máquina sem saber o que fazer. Para resolver o conflito sua lógica fria chegou à conclusão que o melhor era matar todos a bordo.

O fantasma de uma inteligência superior desprovida de moral ou escrúpulos é antigo. Mas nos últimos tempos ele deixou o reino sobrenatural para habitar o tecnológico. Chame-o de Viki em "Eu, Robô", de Mother em "Alien" ou de Auto em "Wall-E", o Cérebro Eletrônico é cada vez mais real, mesmo que seja difícil materializá-lo. Há 35 anos HAL assombrava a imaginação do cinema com sua capacidade de falar, reconhecer voz, identificar faces, computar linguagem natural, jogar xadrez, interpretar emoções, raciocinar e apreciar arte. Desses talentos, só os dois últimos ainda não se transformaram em realidade.

Travestido de Siri, Watson ou Google Now, HAL está de volta e sua espaçonave é a Terra. Ele não é mais um computador que pode ser desligado, mas uma rede de servidores distribuídos pelo mundo, resiliente e descentralizada como a própria Internet.

Tecnologias nascem grandes, vão diminuindo até se tornarem invisíveis. À medida que aumentam as capacidades da conexão sem fio, do reconhecimento de voz, da computação em nuvem e dos dispositivos móveis, a ideia de assistentes virtuais torna-se cada vez mais prática, ajudando seus usuários confusos e sobrecarregados face à complexidade da tecnologia a saber o que fazer e como decidir.

Apesar de pouco popular no Brasil por depender de aparelhos ainda sofisticados e não falar português, a tecnologia por trás desses serviços é espantosa. Sua maior vantagem está em uma interpretação diferente do reconhecimento de voz. Enquanto os sistemas tradicionais trabalhavam com estruturas sintáticas, os novos agem como um estrangeiro que não fala bem a língua, identificando determinadas palavras e, através delas, deduzindo seu contexto.

Identificado o desejo de seu amo, o assistente busca a informação desejada em bases de dados espalhadas pela rede, bastando para isso o acesso a suas APIs. A informação é analisada por servidores remotos, que transcrevem a pergunta, buscam seu significado e vão atrás da resposta que pareça mais provável. Sua "intuição" é baseada nas relações que os conceitos descobertos estabelecem com o contexto enfrentado. A resposta é convertida para voz, que sugere a ação mais provável. Os fãs do gênero talvez se lembrem desta cena do filme "O Exterminador do Futuro". É mais ou menos o espírito, só que politicamente correto.

Para se dar uma ideia do tamanho e utilidade do projeto basta fazer uma busca simples na rede. No fechamento desta coluna, a busca por "chocolate" resultava em aproximadamente um bilhão e cem milhões de respostas no Google, 387 milhões no Yahoo e 113 milhões no Bing. Cabe a quem pesquise identificar e selecionar a melhor de acordo com seu contexto - e não reclamar. Para as máquinas, pouco importa quem pesquisa, onde pesquisa, como pesquisa: as respostas são uniformes. Encarregado da mesma tarefa, um assistente não traria milhões de respostas, mas pouquíssimas opções. Como um corretor ortográfico ao sugerir palavras quando identifica um erro.

Esses serviços não são mais mecanismos de busca, mas de ação. Em vez de trazer listas de links eles conversam, decidem e agem. Dos três maiores projetos em andamento hoje, Siri é o mais abrangente. Sua tecnologia é tão impressionante que foi adquirida pela Apple por cerca de 200 milhões de dólares para se tornar exclusividade em seus novos aparelhos. Antes que o empreendedor em você se anime, vale dizer que a empresa comprada não surgiu em uma garagem. Ela é fruto do maior projeto em Inteligência Artificial dos Estados Unidos: uma iniciativa militar que buscava construir um assistente virtual capaz de aprender e raciocinar, em busca de uma única resposta a partir de um cenário complexo de informação.

O projeto foi pedido para a SRI, um instituto de pesquisa independente derivado da Universidade de Stanford, responsável por tecnologias como a impressora a jato de tinta e monitores de cristal líquido. Seu orçamento era colossal: cerca de 150 milhões de dólares em 2003, o suficiente para reunir centenas de especialistas de alto nível em uma iniciativa inimaginável para laboratórios corporativos: ensinar computadores a aprender em ambientes abertos, baseados apenas na observação de comportamentos.

O protótipo desenvolvido era capaz de organizar e priorizar informações, criar documentos e mediar comunicações com pessoas. Ao participar de uma reunião, gerava a ata, determinava e acompanhava tarefas, detectava os papéis de cada participante, alocava e administrava tempo e recursos.

Em 2008, quando a pesquisa se encerrou, a SRI liberou a tecnologia. De lá surgiu uma startup chamada Siri, e o resto é conhecido. Se hoje esse serviço parece um acessório dos novos iPhones, iPads e iPods, perfumaria para quem não o utiliza, é bem possível que chegue o dia em que os tão amados gadgets eletrônicos se tornem meros acessórios para a tecnologia. Desde sua compra, advogados e políticas corporativas vem atrasando sua expansão. É preciso negociar com cada base de dados e localizar o serviço para os quase cem países que comercializam legalmente o iPhone. Mas não há dúvida que ele logo se tornará bem popular.

Outra versão dessa tecnologia é o Google Now. Não tem os recursos da Siri, mas aprende rápido. E tem uma vantagem imbatível: a memória. O histórico de uso da Internet traz mais informações a respeito de seus usuários do que aparenta. Quando interligadas, as extensas bases de dados e sistemas de recomendação podem identificar seus usuários e saber qual o melhor dia e hora para pedir uma pizza, telefonar para a mãe ou fazer ginástica. Um pesquisador da Universidade Carnegie-Mellon descobriu que a simples combinação de três dados aparentemente inocentes como gênero, CEP e data de nascimento podem identificar cerca de 87% da população dos Estados Unidos. Não é preciso ser fã de ficção científica para saber do que o Google, encarregado de e-mail, agenda, localização, busca e bookmarks é capaz.

Um terceiro participante dessa corrida para a construção do assistente é a IBM. Seu supercomputador Watson, que conquistou o mundo em 2011 ao vencer um programa de perguntas de auditório, está sendo adaptado para ajudar em diagnósticos médicos, consultando grandes volumes de informação desorganizada na forma de anotações, entrevistas, artigos acadêmicos e registros orais e gerando opções de diagnóstico a partir de conversas com o paciente e consulta a exames. E aprendendo com eles.

Esses serviços mostram o rascunho de um mundo povoado por assistentes de inteligência artificial a se ocupar das tarefas comuns ou tediosas. Sua ideia, como a do HAL, não é substituir o homem, mas torná-lo mais eficiente naquilo que já faz. Tecnologias de reconhecimento de emoções poderão ser capazes de surpreender seus usuários estressados ou deprimidos. Assistentes burocráticos podem eliminar muitas funções de balcão e secretaria. Não demorará para surgirem aplicativos conselheiros para a vida afetiva, mudando o sentido daquilo que conhecemos hoje por auto-ajuda para "ajuda automática".

Essa dependência da tecnologia, naturalmente, assusta. Ela pode facilitar o acesso a algoritmos que explorem nossas fraquezas para realizar ações que nem o mais mesquinho dos publicitários imaginaria. Mas vale considerar que aos olhos dos antigos as novas gerações sempre estarão perdidas por serem frágeis demais, mesmo que sejam capazes de feitos inimagináveis para os que os precederam.

Até a hora em que, por uma falha ou conclusão do sistema, tenhamos nos tornado empecilhos.

luli radfahrer

Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP há 19 anos. Trabalha com internet desde 1994 e já foi diretor de algumas das maiores agências de publicidade do país. Hoje é consultor em inovação digital, com clientes no Brasil, EUA, Europa e Oriente Médio. Autor do livro 'Enciclopédia da Nuvem', em que analisa 550 ferramentas e serviços digitais para empresas. Mantém o blog www.luli.com.br, em que discute e analisa as principais tendências da tecnologia. Escreve a cada duas semanas.

 

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