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marcelo leite

 

27/10/2010 - 07h03

Nanodiamantes no gelo imemorial

"Diamantes no gelo" poderia ser o título de um poema que se estendesse sobre as artes da camuflagem e da dissimulação. Como aqui se trata de prosa dura e fria, a que convém à apresentação da ciência, que o leitor se conforme com o enigmático "Nanodiamantes no gelo imemorial".

Mesmo retendo no núcleo um eco esquálido do original sonoro, o título desta coluna descreve bem o trabalho que a equipe de Andrei Kurbatov e Paul Mayewski, da Universidade do Maine, acaba de publicar no periódico especializado "Journal of Glaciology". (Agradeço a Jefferson Cardia Simões, companheiro de jornada antártica e pesquisador visitante do Instituto de Mudança Climática daquela universidade, por chamar a atenção para o artigo.)

O grupo encontrou em amostras de gelo com 13 mil anos, na Groenlândia, uma nítida camada pontilhada de diamantes de tamanho nanoscópico. Cada um tem 2 a 40 nanômetros de diâmetro (um nanômetro corresponde a um bilionésimo de metro, ou milionésimo de milímetro --medidas muito pequenas, enfim).

É a primeira vez na história da glaciologia que esse tipo de diamante aparece no gelo. E a melhor explicação para sua presença ali está no impacto de um grande cometa ou asteroide com a Terra.

Esse tipo de diamante, que já foi encontrado em vários pontos da América do Norte, mas só em terra, normalmente não se forma pelos processos conhecidos na face da Terra. Não aparecem em minas e jazidas, por exemplo.

Só em laboratório, sob temperaturas na faixa de 1.000-1.700ºC e alta pressão, foi possível obtê-los. São condições como as que se acredita terem sido produzidas no impacto de um grande objeto sideral contra a Terra.

Uma variedade desses nanodiamantes recebe o bonito nome de "lonsdaleíta". É uma homenagem a Kathleen Lonsdale (1903-1971), cristalógrafa britânica que estudou diamantes artificiais nos anos 1940. O "seu" diamante, de estrutura hexagonal, é encontrado em sítios de queda de meteoritos no Arizona.

A descoberta desses nanodiamantes em outros locais da América do Norte, nem sempre associados com pontos de impacto, mas sempre em camadas datadas de aproximadamente 13 mil anos atrás, levou à hipótese testada pelo pessoal do Maine: se essa camada é uma assinatura em terra do choque de um grande objeto, não deveria estar presente também nas profundezas do gelo?

A verificação da tese foi possível graças a um truque, que teve a função de contornar a dificuldade de obter grandes amostras de gelo glacial, em geral reservadas para o estudo de mudanças passadas do clima planetário. O estratagema empregado foi recorrer a geleiras da borda da Groenlândia, cujo desgaste expõe gelo formado pela progressiva compressão da neve precipitada há milhares de anos.

A datação de 13 mil anos da camada "nanodiamântica" e do provável impacto pode ser muito significativa. Não só porque ela marca o fim da Idade do Gelo e o início da nossa época geológica, o Holoceno, mas porque nesse período coisas importantes estavam ocorrendo na América do Norte.

Por exemplo, o desaparecimento da chamada cultura Clóvis, até pouco tempo atrás dada como a mais antiga em solo americano. Mais ou menos por aí também sumiram da América grandes animais que a povoavam, entre os quais havia até mamutes.

Além disso, há indicações de que o continente experimentou gigantescos incêndios naturais e, ao mesmo tempo, um resfriamento do clima. Ambos os fenômenos podem ser desencadeados pelo impacto de cometas e asteroides, que liberam grande quantidade de energia e depois levantam uma camada de poeira capaz de bloquear a luz do sol.

Os nanodiamantes são prováveis testemunhas mudas e insignificantes desse cataclismo. Dormiam esquecidos no gelo imemorial da Groenlândia. Voltaram a brilhar, agora sob a luz do conhecimento.

marcelo leite

Marcelo Leite é repórter especial da Folha, autor dos livros 'Folha Explica Darwin' (Publifolha) e 'Ciência - Use com Cuidado' (Unicamp). Escreve aos domingos.

 

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