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matias spektor

 

23/01/2012 - 07h07

A cúpula dos Brics

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A criação dos Brics foi um excelente negócio para o Brasil: projetou a imagem de um país em ascensão, abriu espaço inédito para tratar de temas globais e institucionalizou nosso diálogo com China, Índia e Rússia, três países mais poderosos que nós (África do Sul entrou para o grupo mais recentemente). Jim O'Neill, que cunhou a sigla há dez anos, merece estátua comemorativa em praça pública.

É interesse do Brasil que os Brics ganhem voz, autoridade e volume maior que a mera soma das partes. Agora, faltando apenas dois meses para a cúpula da sigla neste ano, o desafio é encontrar uma posição comum sobre o tema em que a atuação dos membros tem sido mais criticada - o Oriente Médio. A atual fluidez da região oferece duas oportunidades para os Brics.

A primeira é o risco real --e crescente-- de um conflito armado envolvendo o Irã. Embora os Brics não possam impedir um desfecho desses, poderiam jogar água na fervura, ganhando tempo até o fim da campanha presidencial americana que radicaliza as partes do conflito e reduz o espaço para a negociação. Para isso, os Brics teriam de lançar proposta capaz de chacoalhar os termos do debate. Uma forte candidata seria declaração que confirmasse o direito iraniano ao enriquecimento de urânio com fins pacíficos em território nacional, mas pedisse ao Irã, a título de medida de confiança, uma moratória voluntária no desenvolvimento de tecnologias sensíveis por tempo indeterminado. Na Casa Branca e em Teerã há suficiente medo de uma escalada para viabilizar uma iniciativa dessa natureza.

O segundo fator é a Primavera Árabe. Quando os protestos de rua eclodiram, os membros dos Brics apostaram em soluções conservadoras que não resistiram ao ritmo avassalador dos acontecimentos. Terminaram na incômoda situação de chancelar na ONU, a contragosto, uma intervenção na Líbia. Tiveram a sua imagem maculada junto à opinião pública da região e foram alvo de pressão de grandes potências.

A bola da vez é a Síria, onde o maior incomodado dentre os Brics é o Brasil, democracia de massas livre de amarras autoritárias há apenas uma geração. Por isso, Brasília é a voz mais crítica do grupo ao regime de Bashar al-Assad. É sua responsabilidade incentivar os outros membros dos Brics a aproximar-se da Liga Árabe e alentar os povos de Líbia, Egito, Tunísia e Iêmen. Da mesma forma é sua responsabilidade apresentar oficialmente ao grupo as teses da "responsabilidade ao proteger" que o governo levou à ONU em novembro passado. Se a ideia afundar, saberemos que é melhor deixá-la de lado. Se vingar, teremos uma bandeira para o futuro.

O que ganharia o Brasil fazendo isso tudo?

Uma atmosfera benigna para restaurar o ativismo diplomático no Oriente Médio depois da frustrada Declaração de Teerã (2010). Findo o governo Lula, faltou apetite e força para grandes apostas naquela região, e a diplomacia deu um passo atrás. Agora o governo Dilma tem a chance de aproveitar a cúpula dos Brics para voltar à cena.

O esforço vale a pena porque há muito em jogo. O Brasil abriu embaixadas, multiplicou o volume de comércio, participou pela primeira vez do processo de paz árabe-israelense e comandou força naval da ONU no Líbano. Aproximou-se do dínamo diplomático da região, a Turquia, e passou a prestar cooperação técnica ao povo palestino. Conseguiu isso tudo com a aceitação de Israel. Nos últimos dez anos, o chanceler brasileiro visitou a região 24 vezes. É um bom começo.

O valor dessas iniciativas está muito além dos interesses materiais que o Brasil tem ou pode vir a ter no Oriente Médio. Há interesses intangíveis de igual valor. Afinal de contas, não há espaço nas grandes mesas para países que nada têm a dizer de construtivo sobre a área mais volátil do planeta.

Matias Spektor

Matias Spektor ensina relações internacionais na FGV. É autor de "Kissinger e o Brasil e de Azeredo da Silveira: um depoimento". Trabalhou para as Nações Unidas antes de completar seu doutorado na Universidade de Oxford, no Reino Unido. Foi pesquisador visitante no Council on Foreign Relations (Estados Unidos) e assina uma coluna no "International Herald Tribune".

 

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