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Em entrevista exclusiva, Silvio Santos diz que a TV Record joga "dinheiro fora"

Silvio Santos não dá entrevistas. Diz que tem uma profissão "como outra qualquer", que define como "vendedor de bugiganga". E, portanto, não merece "regalias".

*

Por três semanas, Joelmir Tavares tentou furar a barreira. Esperou Silvio na porta do cabeleireiro Jassa, nos Jardins, onde ele arruma os cabelos antes de gravar seu programa dominical. Puxou papo sobre muitos assuntos.

O dono do SBT acabou respondendo a diversas questões. "Você está gravando?", perguntou, no primeiro dos três encontros. "Pode publicar. Eu não ligo para isso." A primeira conversa foi às 9h da manhã de 4 de junho.

Folha - Nós queremos fazer uma reportagem sobre os 50 anos do programa do sr.
Silvio Santos - Ah, mas eu não faço isso. Não faço matéria, não me preocupo com isso, não. É uma filosofia minha. Não vejo nada de extraordinário na minha profissão. É como outra qualquer, não tem essas fidalguias.

Mas o sr. é mais do que um apresentador.
Não importa.

Segundo pesquisa do Datafolha, o sr. é "a cara de SP".
Eu não vou dizer a você que não. Mas o tratamento que eu gosto que me deem é o mesmo dado a um médico, a um advogado, à pessoa que tem uma profissão comum.

O sr. é um artista.
Não, eu sempre me vi como produto, um produto meu. Sou um bom vendedor. Agora, eu não mereço... Tenho de ter um tratamento como outro vendedor que vende geladeira ou aparelho de TV. Sou um vendedor que usa a eletrônica para vender seus produtos, artistas, programas. Artista é quem dança, canta, sapateia, conta piada.

O sr. faz um pouco disso tudo.
Não, não, não... Isso aí é impressão sua.

O sr. está feliz?
Claro que eu estou feliz. Você acha que eu sendo um vendedor dos meus produtos... Quando você anuncia o artista, está anunciando um produto. Quando anuncia um comercial, é um produto. Tudo é produto. Certo? Se você apresenta bem, tem condições de vendê-lo bem. Para você ter uma ideia, eu acho que eu devo ter batido o recorde de vendagem: 3 milhões de perfumes [da Jequiti] eu revendi agora.

É verdade que a Avon quer comprar a empresa?
Não. Que eu saiba, não.

A Jequiti virou o novo Baú da Felicidade?
Não, virou um negócio. O Baú foram 50 anos, só terminou porque o crediário está muito barato. E, em vez de se pagar, como se pagava, R$ 25 por mês para receber depois, você hoje vai numa Casas Bahia, paga R$ 18, R$ 15 e leva [produtos] para casa. Agora, a Jequiti, se continuar progredindo, ela vai chegar a ser uma boa empresa.

O sr. vai deixar o diretor Guga de Oliveira fazer o filme sobre a sua vida que ele vem preparando?
Não. Eu não vou deixar.

Por quê?
Por que eu não dou entrevista, não concordo com livro sobre mim, com filme? Se nenhum advogado, nenhum médico ou professor é cercado de todas essas... é... regalias, eu também não devo ser.

Pensa em aposentadoria?
Eu, não. Vou ter que me aposentar. Não sei quando.

Se depender do sr., o programa faz 60, 70 anos?
Não, não tem nem condições físicas.

Mas o sr. está bem.
Muito bem. Muito bem. [Sorrindo] Quando você chega aos 82 anos e te falam "muito bem", cuidado, porque com 83 você pode estar no buraco já. Rá-rá-rá.

O sr. sente falta do banco PanAmericano?
Não. Infelizmente, não deu certo.

Dizem que o sr. fez uma jogada de mestre, usou o talento de vendedor para sair do negócio sem prejuízo.
Não, não. Eu ia esperar para poder ver se pagava, mas apareceu uma oferta e eu... [pausa] 'Vamo' embora! Deixa eu ir embora! Tem 200 pessoas me esperando.

*

Um novo encontro ocorreu no domingo, 16 de junho, no mesmo local. O repórter se aproximou e mostrou a ele uma foto da filha Patricia Abravanel, apresentadora do SBT, publicada na coluna.

Silvio Santos - A Patricia tá toda hora saindo agora [em fotos de jornais].

Ela diz que é a que mais trabalha no SBT. É verdade?
É, trabalha bem, sim.

A Patricia está sendo preparada para sucedê-lo?
[risos] Ela está indo. Tá melhor do que eu esperava.

Como está a situação financeira do SBT? Está bem?
Claro, muito bem. Dentro daquilo que a gente quer. Nós vamos acompanhando: se o mercado evolui 5%, a gente tenta conseguir 5%. Se dez, é dez. [bate palma] Agora, a Record faz milagre, né? A Record está faturando os tubos.

O SBT retomou o segundo lugar em audiência?
Não. Mas estamos lutando. Tá bom, tá bom. O lugar [no ranking de audiência] é importante, mas a administração [correta da empresa] é melhor. A Record, você vê, está perdendo um dinheirão. Por quê? Porque está administrando mal. Está jogando dinheiro fora [risos]. Jogou fora, não pode ganhar, né? Mas a gente nunca sabe exatamente a situação da Record. Porque lá não tem necessidade de dinheiro.

Mas agora ela está demitindo, cortando programas.
Não sei por que estão demitindo. Isso aí deve ter sido alguma decisão na Igreja [Universal]. Deve estar havendo algum bate-boca na igreja.

O sr. controla tudo no SBT?
Eu não. Eu pago gente para controlar, né?

Por que o sr. não vende horários para igrejas no SBT?
Eu não vendo horário religioso. É contra o meu princípio. Judeu não deve alugar a televisão para os outros. Você não sabe que os judeus perderam tudo quando deixaram outras religiões entrarem em Israel? A história é essa. No dia em que os judeus começaram a deixar que outros deuses fossem homenageados em Israel, os babilônios foram lá e tiraram o templo e jogaram os judeus para fora. O judeu não pode deixar que na casa dele tenha outra religião. É por isso que não deixo nenhuma religião entrar no SBT.

A sua mulher, Íris, e suas filhas são evangélicas.
Mas onde eu mando eu não deixo nenhuma religião entrar. Nós não temos nenhum programa judaico, né? Nem católico nem evangélico nem budista. Nada disso.

Mas então o SBT...
É uma casa judaica.

O sr. está negociando com Gugu Liberato?
Não. Por enquanto, o Gugu não veio nos procurar não.

E a porta está aberta para ele?
Está. Somos uma casa de negócios. Nós não temos esse negócio de saiu, não pode voltar. Todo mundo pode entrar e todo mundo pode sair, dependendo da negociação.

Se ele voltar, será como sócio do programa?
Depende. Se ele topar, ele pode ser sócio. A gente pode fazer um outro acordo qualquer. Contanto que ele ganhe dinheiro e nós ganhemos dinheiro, não tem problema.

O sr. assiste à TV?
Ah, é muito difícil. Eu vejo muito filme. Geralmente vejo documentário, biografia.

O sr. foi candidato a presidente em 1989. Pensa em voltar para a política?
Rá-rá-rá. Aquilo foi um, foi um... Valeu a pena! Rá-rá. Foi um, uma, como é que é, foi uma... Como é que é aquilo? Uma desmunhecada, né? [faz gesto com a mão esquerda] Uma tentativa de fazer alguma coisa. Mas é dificílimo.

Em quem o sr. vai votar para presidente em 2014?
Não sei. Eu acho que a Zil... A Dilma faz um bom governo.

Ela foi vaiada na abertura da Copa das Confederações.
A inflação está aumentando. E está começando uma política para ver se ela baixa um pouco a bola, né?

A popularidade dela caiu.
Mas será que o Lula vai voltar? [entra no carro] Tchau! Eu tenho que trabalhar! Está todo mundo me esperando lá [no estúdio do SBT].

*

O terceiro e último encontro ocorreu na manhã de terça-feira, 18 de junho. O repórter mostrou reportagem da Folha sobre os protestos em SP.

O sr. viu as manifestações?
Eu vi na televisão. A Folha está lá em casa.

Se fosse jovem, participaria dos protestos?
Não. Eles não têm objetivo, né? Deviam ter um objetivo, deviam pedir alguma coisa. Dizer: "Olha, nós estamos fazendo esse protesto para poder ter uma lei contra os menores de idade [que cometem crimes]". Ou: "Estamos fazendo esse protesto para pelo menos ver se os responsáveis pelo mensalão são punidos". Ah, mas o protesto é sobre tudo. Então não é sobre nada.

É a favor de mudanças na punição de menores?
Eu acho que esse negócio de deixarem os menores fazerem os crimes porque eles são penalizados pelo tempo... Os profissionais contratam eles. Quem matou foi sempre o menor, não foi o bandido.

O sr. percebe uma tentativa da Globo de se popularizar?
Não percebi ainda não. Aconteceu alguma coisa?

Ela estaria buscado uma programação para a classe C.
Eu não percebi ainda. Agora, a Globo sempre foi popular. É a que tem mais audiência. A que tem mais audiência é a mais popular. A Globo é a principal emissora do Brasil. Ganha muito dinheiro. As outras vivem. Rá-rá-rá.

O sr. virou bisavô, de Miguel, que nasceu em maio.
É, é verdade. Com 82 anos!

Mas já estava na hora, não?
Rá-rá. Se não morrer... Rá. Se não morre, vai ser tetravô.

Como ele é?
É... Um naniquinho.

Obrigado pela entrevista.
Eu não sou muito fã desse negócio de sair em jornal, em revista. Mas... [dá de ombros e faz expressão de modéstia] Eu acho que quem deveria ter essas homenagens são médicos, são cientistas. Eles fazem alguma coisa pela humanidade. E alguns artistas que dançam, cantam. Mas apresentador de televisão? Nós não fazemos nada. Nós vendemos bugiganga! Ri-ri.

mônica bergamo

Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária com informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

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