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patrícia campos mello
giro global
Brasil fica para trás no jogo chinês
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O Brasil está perdendo tempo precioso no jogo chinês. Enquanto empresas de todos as nacionalidades se apressam para garantir um lugar ao sol no gigantesco mercado da China, fazendo substanciais investimentos diretos no país, o Brasil tem apenas 54 empresas com presença no país asiático. Segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China, divulgado nesta semana, os investimentos do Brasil na China são pífios: apenas 0,06% dos investimentos diretos brasileiros --ou seja, US$ 6 de cada US$ 10 mil-- foram destinados para a China na última década.
Só para comparar, os investimento diretos dos EUA na China correspondem a 1,55% do estoque total, ou seja, proporcionalmente, os americanos investem 38 vezes mais no país asiático do que o Brasil.
Na seara comercial, a relação bilateral China-Brasil vai bem. A China se tornou maior parceiro comercial do Brasil, suplantando os EUA. Mas apesar da importância, o intercâmbio comercial com os chineses apresenta muitas vulnerabilidades. O Brasil é essencialmente um fornecedor de matérias-primas, sujeitas a grandes flutuações de preços.
Em vez de garantir também uma presença forte no mercado chinês e se tornar um fornecedor de longo prazo para o amplo mercado consumidor, o país tem sido tímido.
Apenas 18 das 500 maiores empresas brasileiras, segundo o ranking da revista "Exame", têm investimentos diretos na China.
E mesmo as empresas brasileiras que têm investimentos na China muitas vezes têm uma presença apenas simbólica no país. Das 54 empresas com investimento, 40,4% mantêm somente um escritório de representação no país, informa o estudo.
Em boa parte dos casos, os escritórios de representação se resumem a um representante e uma secretária. Outros 36,8% são escritórios de prestação de serviço.
Apenas 14% são unidades de produção, que exigem maior volume de investimentos e contratação de pessoal.
Está certo, é um mercado com muitos desafios. Em muitos setores ainda há enormes restrições, como exigência de sócio chinês e imposição de conteúdo local mínimo (como o governo brasileiro está fazendo agora com veículos e setor de petróleo, com grande chiadeira das montadoras chinesas). Sem mencionar o sempre presente perigo do desrespeito à propriedade intelectual --sócios chineses essencialmente "aprendendo" com o sócio brasileiro e abrindo um concorrente logo depois.
Mesmo assim, não dá pra se arriscar a ficar de fora. Desenhar uma estratégia para aumentar a presença de empresas brasileiras na China é muito mais importante do que insistir em levar a briga cambial para a Organização Mundial do Comércio, onde Pascal Lamy já deu mostras que a pendenga não vai a lugar nenhum.
Patrícia Campos Mello é repórter especial da Folha e escreve sobre política e economia internacional. Foi correspondente em Washington durante quatro anos, onde cobriu a eleição do presidente Barack Obama, a crise financeira e a guerra do Afeganistão, acompanhando as tropas americanas. Tem mestrado em Economia e Jornalismo pela New York University. É autora dos livros "O Mundo Tem Medo da China" (Mostarda, 2005) e "Índia - da Miséria à Potência" (Planeta, 2008).
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