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Paul Krugman
Cobrar responsabilidade da China
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A situação dificílima em que se encontra a economia mundial é reflexo de ações destrutivas por parte de muitos atores. Mesmo assim, o fato de tantos terem se comportado mal não deve nos impedir de cobrar a responsabilidade de maus atores individuais.
E é isso o que líderes do Senado vão fazer esta semana, quando vão analisar uma legislação que ameaça impor sanções à China e outros países que manipulam moedas.
A opinião respeitável está horrorizada. Mas a opinião respeitável vem errando constantemente nos últimos tempos, e a questão da moeda não constitui exceção.
Pergunte-se: por que está tão difícil restaurar o emprego pleno? É verdade que a bolha imobiliária estourou, e os consumidores vêm economizando mais do que economizavam alguns anos atrás. Mas houve um tempo em que a América conseguiu ter emprego pleno sem bolha imobiliária e com índices de poupança ainda mais altos do que temos agora. O que mudou?
A resposta é que antigamente nosso déficit comercial era muito menor. Um retorno à saúde econômica pareceria muito mais possível se não estivéssemos gastando por ano com bens e serviços importados US$500 bilhões mais do que estrangeiros gastaram com nossas exportações.
Para reduzir nosso déficit comercial, contudo, precisamos tornar mais competitivos os produtos americanos, o que, na prática, significa que precisamos que o valor do dólar caia em relação a outras moedas. Sim, algumas pessoas vão gritar contra o "aviltamento" do dólar. Mas políticos sensatos sabem há muito tempo que às vezes uma moeda mais fraca significa uma economia mais forte e têm agido com base nisso. A Suíça, por exemplo, interveio maciçamente recentemente para impedir o franco de ficar forte demais com relação ao euro. Israel interveio ainda mais fortemente para enfraquecer o shekel.
Em vista de seu papel global especial, os Estados Unidos não podem e não devem ser igualmente agressivos. Mas, em vista da necessidade desesperadora que nossa economia tem de mais empregos, um dólar mais fraco é de nosso interesse nacional --e podemos e devemos tomar medidas contra países que mantêm suas moedas subvalorizadas, com isso criando obstáculos à muito necessária diminuição de nosso déficit comercial. O inverso da moeda da manipulação que conserva a moeda chinesa subvalorizada é o acúmulo de reservas em dólares --e essas reservas hoje chegam a nada menos que US$3,2 trilhões.
Outros avisam sobre consequências negativas se os chineses pararem de comprar títulos governamentais americanos. Mas nosso problema neste momento é exatamente que pessoas demais querem investir seu dinheiro na compra de dívida americana, em lugar de comprar bens e serviços --e é essa a razão pela qual a taxa de juros sobre os títulos americanos de longo prazo é de apenas 2%.
Ainda outra objeção é a alegação de que os produtos chineses não competem realmente com bens produzidos nos Estados Unidos. A refutação é bastante técnica; permita-me apenas dizer que quem apresenta esse argumento tanto exagera a questão quanto deixa de levar em conta os efeitos indiretos da política de divisas chinesa.
Nos últimos dias veio à tona uma nova objeção à tomada de ação sobre a questão da China: grupos de pressão de direita, notadamente o influente Clube para o Crescimento, se manifestaram contra a imposição de tarifas a bens chineses, porque --adivinhou!-- são uma forma de taxação, e nunca, jamais devemos elevar impostos, em hipótese alguma. Só posso dizer o seguinte: os democratas devem saudar essa prova de que o fanatismo anti-impostos chegou a um ponto em que ele pesa mais que a defesa de nossos interesses nacionais.
Para sermos justos, existem alguns argumentos contra a adoção de medidas contra a China, argumentos estes que teriam algum peso se os tempos fossem diferentes. Um deles é a verdade indubitável de que a inflação na China, que vem elevando especialmente os custos da mão-de-obra, está eliminando gradualmente a subvalorização da moeda chinesa. Mas a palavra-chave aqui é "gradualmente": alguma coisa que faça o déficit comercial dos EUA cair dentro de quatro ou cinco anos não basta, quando o desemprego americano está nos patamares desastrosos de hoje.
E a realidade do desastre do desemprego também é a resposta que dou àqueles que avisam que endurecer com a China pode desencadear uma guerra comercial ou prejudicar a diplomacia comercial mundial. Esses são riscos reais, embora eu pense que são exagerados. Mas precisam ser contrapostos ao fato --não a mera possibilidade-- de que o alto índice de desemprego está causando enormes danos cumulativos neste exato momento.
Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve, expôs o problema claramente na semana passada: o desemprego é uma "crise nacional", ele disse; tantos trabalhadores já estão entre os desempregados de longo prazo que a economia corre o risco de sofrer danos não apenas no curro prazo, mas também no longo prazo.
E não podemos nos dar ao luxo de não levar em conta qualquer meio importante de aliviar a crise nacional. Cobrar responsabilidade da China não vai resolver nossos problemas econômicos por si só, mas pode contribuir para uma solução --e é essa a ação que já deveria ter sido empreendida há muito tempo.
Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do jornal "The New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos científicos publicados. Escreve às segundas.
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