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raul juste lores

 

19/12/2012 - 13h51

O mito da paz dos subúrbios

A lista de culpados pela tragédia na escola de Sandy Hook, nos EUA, é controversa. Os republicanos acusam os filmes e os games violentos; os democratas acusam a cultura armamentista e a Associação Nacional do Rifle; gente dos dois lados fala da deficiência no diagnóstico e tratamento de transtornos mentais no país.

Mas, da CNN à imprensa japonesa, todo mundo destacou a "união" da comunidade de Newtown e o cenário de "vilarejo perfeito", onde praticamente todos são ricos, brancos e têm casas parecidas. "Este é o lugar mais pacato e seguro do mundo" era a frase que eu mais ouvia nos dias em que estive ali. Aliás, sempre que viajo pelo interior do país, alguém me pergunta "se não é muito perigoso morar em Nova York". A cidade grande, mesmo nos EUA, ainda tem essa má fama.

Mas quem analisar todas as chacinas ao estilo de Newtown, desde a histórica Columbine, em 1999, vai ver que quase todos os atentados aconteceram em cidades pequenas, em subúrbios ou em campi universitários no meio do nada. Neste ano, do cinema em Aurora à escola de Newtown, os atiradores moravam nesses supostos oásis de tranquilidade de famílias perfeitas.

E quem não se encaixa no molde da família perfeita nesses subúrbios? Quem esteticamente, intelectualmente, sexualmente ou religiosamente é muito diferente e é deixado à margem? Em cidades grandes, como Nova York, pode até haver um 'louco' em cada esquina, mas quase todo mundo acaba achando a sua turma. E ser diferente não é motivo de chacota ou ostracismo. É parte da paisagem.

Tanto Newtown, quanto Aurora (onde aconteceu o massacre dentro do cinema, em julho) não têm praças. Aliás, praticamente não tem calçadas. Até para se entrar em um supermercado, é preciso estar de carro. Os pontos de encontro espontâneos são escassos _ ou estão ligados diretamente ao consumo. Chega, compra e vai embora.

O que acontece nos subúrbios americanos, com essas existências invisíveis, solitárias e muitas vezes sofridas, e o tipo de neuroses que ele provoca interessam a todos _ meio mundo imita esses 'paraísos' de casinhas iguais, batizando-os com nomes bucólicos. O marketing diz que são ótimos lugares "para criar os filhos", longe de tudo. Será?

raul juste lores

O jornalista Raul Juste Lores é correspondente da Folha em Washington,
ex-correspondente em Nova York, Pequim e Buenos Aires e ex-editor
do caderno 'Mercado', e bolsista da fundação Eisenhower Fellowships. Escreve às quartas-feiras no site. Siga: @rauljustelores

 

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