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sérgio malbergier
Cuba é uma grande oportunidade
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DE SÃO PAULO
Não há dúvida de que o regime comunista cubano está falido, acabado. É uma versão tropicalizada e esclerosada do comunismo dinástico norte-coreano, ambos farsas da história rumando lentamente para o fim.
O Brasil na Era PT se aproximou muito da Ditadura Castro, com quem dirigentes do partido governista têm laços afetivos e agora efetivos via financiamentos do BNDES para investimentos na ilha.
Dilma tenta justificar ditadura cubana, afirma leitor
E por mais que revire o estômago ver uma presidente torturada pela ditadura brasileira abraçar tiranos estrangeiros, o Brasil pode ganhar muito com essa aproximação política e econômica.
Muito mais do que nas questões do Oriente Médio, na qual gasta esforços desproporcionais, deslocados e desdentados, é na questão cubana que a diplomacia brasileira conseguirá de fato o protagonismo relevante que tanto buscamos e precisamos para projetar nosso novo poder.
O embargo econômico dos EUA contra Cuba é tão anacrônico quanto a ditadura comunista, e o Brasil tornou-se o ator mais apto a patrocinar uma distensão entre os dois países.
Mas será que o Brasil está fazendo isso?
Não é o que parece. Em sua visita à ilha dos Castro nesta semana, Dilma Rousseff não mostrou equilíbrio que lhe permita uma eficaz intermediação Wasington-Havana. Questionada sobre a situação dos direitos humanos na ilha, a presidenta, para desconversar, resolveu disparar contra os direitos humanos nos EUA (!), lembrando as acusações dos prisioneiros da base americana de Guantánamo, na própria ilha caribenha.
Os EUA estão no início de uma sangrenta batalha eleitoral. Dilma deve visitar Barack Obama ainda neste semestre. Suas acusações contra o país na área de direitos humanos feitas em solo cubano podem se tornar armas dos republicanos contra o presidente democrata já que o tema Cuba ainda tem forte apelo eleitoral na estratégica comunidade cubano-americana.
Foi uma acusação gratuita aos EUA, aliado tradicional do Brasil e um dos nossos maiores parceiros comerciais, que só se justifica no campo da diplomacia emocional que privilegia ideologia em detrimento dos interesses nacionais.
A política externa tem sido o patinho feio da política brasileira. Ela tem ficado sistematicamente fora da divisão de poder e ministérios com a base, fora das grandes discussões políticas. É um grande equívoco que dá ao PT e, em menor grau, aos intelectocratas do Itamaraty um controle quase absoluto de nossas relações políticas com o exterior.
Assim, no ano em que os principais dirigentes políticos e econômicos do mundo compareceram ao Fórum Econômico Mundial em Davos para discutir o futuro do capitalismo, Dilma preferiu discutir o passado do socialismo no anacrônico Fórum Social de Porto Alegre.
Como escreveu a revista "Economist" sobre o avanço do capitalismo de Estado, por aqui chamado de neodesenvolvimentismo: "A batalha definitiva do século 21 não será entre capitalismo e socialismo, mas entre diferentes versões de capitalismo".
Essa discussão foi travada em Davos, e o Brasil se ausentou.
Só quem apareceu do primeiro escalão foi o chanceler Antonio Patriota, que sofreu tentando defender a posição brasileira de não interferência na matança promovida pela ditadura síria diante dos duros questionamentos de Kenneth Roth, diretor-executivo da respeitada Human Rights Watch.
Roth escreveu recentemente sobre a frustração de ver a inação das democracias do Sul como Brasil, Índia e África do Sul diante das aspirações de liberdade dos povos árabes: "Eles (Brasil, Índia e África do Sul) parecem guiados menos pelas aspirações dos povos árabes do que por seu compromisso com visões ultrapassadas de soberania nacional, mesmo quando isso significa proteger regimes repressores da pressão internacional urgente".
Democrático, capitalista, multiétnico, ocidental e do Sul, rico e pobre, o Brasil optou por reduzir sua complexa força num simplório terceiro-mundismo 2.0. Mas pense bem: temos mais semelhanças com os EUA ou com a China e a Índia?
Nossa emergência econômica e política e a sucessão dos dois maiores eventos globais em solo brasileiro no espaço de dois anos fazem destes anos o momento perfeito para o Brasil se posicionar no imaginário global.
Essa imagem só pode ser a de um país democrático, capitalista, em paz com todas as nações, a melhor ponte entre o Norte e o Sul na nova divisão de poder mundial. É uma posição, um papel, que só nós podemos exercer. Devemos começar por Cuba, uma grande oportunidade.
Para isso, nossa presidenta terá de fazer uma gestão melhor da política externa. Afinal, o bom gerente não defende ideologias, defende resultados.
Sérgio Malbergier é jornalista. Foi editor dos cadernos "Dinheiro" (2004-2010) e "Mundo" (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial da Folha a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha.com às quintas.
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