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sérgio malbergier
O Brasil em todas as línguas
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Durante os 15 segundos de fama mundial de Michel Teló, fui ver no cinema "A Música Segundo Tom Jobim", o documentário de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim sobre nosso maior compositor.
Se Michel Teló é o melhor exemplo de como o novo mundo criado pelo novo mundo da comunicação oferece oportunidades infinitas de exposição global, Tom Jobim é o melhor exemplo de como o Brasil é capaz de produzir cultura inovadora de alto nível para alimentar esse mercado.
A Bossa Nova é tão carioca e pela batuta do Tom tornou-se tão global. Ela é a essência do nosso "soft power", e põe "soft" nisso. Mensageira da brasilidade, tornou-se plataforma internacional para criação e desenvolvimento artístico nos quatro cantos do mundo. Apreciada como os filmes de Hollywood que vendiam o "american way of life", ela vende o "brazilian way of life" em seu melhor ângulo, alegre, suave, sensual, solar.
No filme de Nelson Pereira dos Santos, astros de todo o mundo, mas principalmente dos EUA e do Brasil (a Bossa Nova é outra prova das enormes possibilidades entre os dois países), interpretam a grande obra de Tom Jobim com dedicação e emoção, rodando software brasileiro para criar arte americana, francesa, japonesa etc.
É um filme para quem tem ouvido musical.
Baseado na frase de Tom "a linguagem musical basta", são 90 minutos de clipes musicais colados um no outro, sem entrevistas, narração, nada além da música pura, nem legendas identificando os artistas (serão todos identificados só ao final do filme).
Tom, com ajuda eventual de grandes letristas, superou com sua música as barreiras e limitações do português e colocou o Brasil em todas as línguas e em suas melhores vozes.
Os rostos de felicidade de deuses do jazz como Dizzy Gillespie e Erroll Garner a divas da canção como Judy Gardland e a estonteante Jane Monheit cantando as músicas de Tom deixam claro como ela é tão sentida globalmente.
O respeito e a admiração no olhar do generoso Frank Sinatra acompanhando um Tom Jobim lindo, jovem, de terninho preto e camisa branca, elegante e cool, confiante, naqueles duetos inesquecíveis, Adriana Calcanhoto matadora com sua versão voz e violão de "Ela é Carioca", os improvisos de Sammy Davis Jr., as imagens de Tom e Elis cantando "Águas de Março", letra e música de Tom, de uma brejeirice definidora do Brasil, são momentos de orgulhar a nação e emocionar o espectador.
É um filme que mostra como Tom mostra o caminho que o Brasil deve seguir para falar com o mundo.
E estamos no momento "big bang" do Brasil na vitrine global. Nunca fomos tão citados, vistos, investidos e elogiados por platéia e imprensa internacionais, cheias de boa vontade com o gigante emergente que se mostra democrático, capitalista, pacifista e ambientalista. Precisos ou não, são atributos muito positivos que adicionam profundidade e complexidade aos tradicionais (e positivos) futebol, música, praias e mulheres.
Precisamos agora fomentar a nova bossa nova que transmita essa nova brasilidade ao mundo. Precisamos do Tom Jobim do século 21. E ele não é Michel Teló.
Sérgio Malbergier é jornalista. Foi editor dos cadernos "Dinheiro" (2004-2010) e "Mundo" (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial da Folha a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha.com às quintas.
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