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Ocupar reitoria foi iniciativa da minoria, diz diretor do DCE da USP
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CRISTINA MORENO DE CASTRO
DE SÃO PAULO
Após o DCE (Diretório Central dos Estudantes) da USP divulgar nota criticando a invasão do prédio da reitoria da universidade e também o reitor João Grandino Rodas, o diretor da entidade e aluno do 5º ano de Ciências Sociais, Thiago Aguiar conversou a Folha sobre a situação no campus.
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Thiago critica a invasão da reitoria por um grupo minoritário, que ele diz que pode colocar a opinião pública contra o movimento estudantil que reivindica a saída da PM no campus. Ele também fala que Rodas é o reitor mais impopular dos últimos anos. Veja a íntegra da entrevista:
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Folha - Como o DCE vê a ocupação feita agora na reitoria?
Thiago Aguiar - Essa ocupação da reitoria não foi uma deliberação coletiva do movimento, ou seja, não passou por uma discussão ampla dos estudantes. Por isso ela é uma ferramenta que tem dificuldades de organizar os estudantes para debater a questão da segurança no campus. A maneira como ela foi encaminhada fez com que fosse uma iniciativa minoritária e não do conjunto de estudantes.
Ela pode prejudicar o movimento de vocês contra a presença da PM no campus?
Pode haver um deslocamento: em vez de discutir os problemas de segurança no campus e a saída fácil que a reitoria escolheu, que é simplesmente colocar a polícia, o conjunto da universidade discutir se é favor ou contra uma ocupação. Isso é muito ruim, porque a grande questão que hoje movimenta os estudantes é qual é a melhor alternativa que o campus pode ter para resolver o problema da segurança, tendo em vista que muitas pessoas não concordam com a presença da polícia como saída pra essa questão. A ocupação pode polarizar o conjunto da universidade pra uma questão que não é a real questão. Isso é o que a reitoria pretende: deslocar a reflexão da sociedade e da imprensa pra uma falsa questão.
Pode colocar a opinião pública e a da comunidade da USP contra ao movimento por terem invadido a reitoria sem o apoio dos estudantes?
Claro, isso é um risco que pode acontecer sim.
O DCE apoiou a ocupação da FFLCH quando ela foi votada pela maioria, após o confronto?
Naquele momento existia uma grande comoção frente ao que aconteceu na quinta-feira. Esse impasse todo não se deve ao movimento estudantil, mas ao reitor. Quando o reitor decidiu optar por simplesmente colocar a polícia e não debater um plano de segurança real, aberto, democraticamente com a comunidade, ele construiu esse impasse. Na quinta-feira acabou ficando claro o que significa a polícia no campus: conflito, não a resolução de um problema grave de segurança. Na quinta-feira existia uma grande comoção frente ao absurdo que foi a truculência com que a polícia agiu. Os estudantes que foram pra assembleia, 500 pessoas, também queriam uma resposta. Nossa posição era de que existia outras respostas possíveis, não só a ocupação. É legítima, mas para o DCE não era a melhor resposta. Mas como ela foi deliberada, por maioria, coletivamente, nós acompanhamos a decisão da assembleia.
Na assembleia de anteontem vocês decidiram fazer um calendário com atividades. Será mantido paralelamente à invasão na reitoria?
Não é nem paralelamente: este é o calendário do movimento. No dia 8, na reunião do Conselho Universitário (CO), vamos fazer um ato para exigir algumas coisas: 1) que o CO se debruce sobre a questão de segurança. Não é aceitável que o reitor coloque a questão da segurança como atribuição simplesmente do Conselho Gestor. É um argumento burocrático para se eximir da responsabilidade de fazer o debate. O espaço que deveria se debruçar sobre essa questão é o CO. 2) Que a reunião seja aberta à comunidade universitária, que essas discussões não sejam feitas por um colegiado restrito, mas pelo conjunto da universidade, que é quem sofre com essas questões. 3) Que o CO se posicione pela saída da PM do campus. A reunião a princípio é na sala do CO, na reitoria. Com a ocupação, imagino que devam trocar o local, então estamos esperando uma posição, para organizar nossa manifestação.
A reitoria invadida pode afetar a vida da USP?
Quem está afetando a vida da universidade é a reitoria e não a ocupação da reitoria. O professor Rodas é que afeta o cotidiano da universidade quando toma as decisões que toma, como, por exemplo, optar pela saída fácil de militarizar o campus. Tudo o que aconteceu posteriormente a essa decisão é consequência desse ato infeliz do reitor.
Quais são as alternativas de segurança?
Uma reivindicação histórica do movimento estudantil é a ampliação do efetivo da Guarda Universitária, o fim da terceirização da Guarda Universitária (tem uma rotatividade grande na segurança na USP), que ela tenha um papel preventivo e não repressivo, que receba treinamento em direitos humanos e criação de efetivo feminino pra lidar com os casos de assédio sexual e estupro, que ocorrem as dezenas e são abafados. Também melhora no sistema de iluminação (promessa que não sai do papel), ampliação da circulação no campus através dos ônibus circulares que têm em número restrito (por exemplo, não existe ônibus que vá do campus até a estação de metrô, como prometido), a ampliação do número de vagas de moradia no campus, pq ajuda a dinamizar a vida universitária, e o fim das restrições da circulação, porque o que aumenta os casos de violência é o fato de o campus ser um lugar ermo.
A guarda deveria ser armada para atuar contra o crime?
Não. Mas, de qualquer modo, a proposta é que a regulação da Guarda Universitária seja feita pela comunidade universitária, professores, funcionários e estudantes. Significa um esforço de debate democrático para resolver essa questão. O problema é que a reitoria escolheu uma saída fácil, midiática e equivocada, que é igualar segurança à presença da polícia.
Quais outras reivindicações vocês têm em pauta?
Reivindicações existem às centenas. Os processos administrativos sem dúvida são uma questão. Tem havido tendência da reitoria a punir qualquer tipo de posição crítica. Alguns diretores do Sintusp estão sendo processados por terem organizado um dia de paralisação para participar de uma audiência pública na Assembleia Legislativa sobre 300 funcionários demitidos. Há três semanas a reitoria decidiu abrir processos administrativos contra diretores do sindicato por exercerem sua função legal. A reitoria busca punir qualquer tipo de coisa, mesmo que esteja em contrariedade com a lei. E o movimento rechaça isso.
O que o DCE acha dos processos abertos contra quem invadiu a reitoria em 2007 e possibilidade de abrir contra esses que ocuparam agora?
O DCE acha que isso são tentativas de intimidação do movimento social organizado na universidade. Independentemente da avaliação que se faça sobre qualquer questão, punições àqueles indivíduos em atos políticos na universidade são perseguição política.
E qual a avaliação sobre a reintegração de posse?
Independentemente da nossa avaliação sobre essa ocupação em particular, nós achamos que a reintegração de posse só vai ampliar e acirrar esse ciclo de violência. Vai demonstrar mais uma vez qual é a disposição do reitor Rodas, que não é de achar uma saída negociada e coletiva pros problemas que a universidade enfrenta, mas de impor suas decisões e pela força impedir que qualquer contestação exista. Somos contrários a essa reintegração de posse e fazemos um chamado para que o reitor não opte por essa saída, porque ela vai significar o acirramento do conflito. Somos radicalmente contra essa reintegração de posse.
Como a comunidade uspiana avalia a gestão de Rodas?
É o reitor mais impopular dos últimos anos. Ganhou notoriedade por não ter sido eleito nem sequer pelo processo restrito de eleição. Ele ficou em segundo lugar e foi indicado pelo governador Serra. Quando era diretor da Faculdade de Direito chamou a tropa de choque para acabar com uma manifestação pacífica de estudantes e do movimento sem-terra, em 2007. Quando também diretor da Faculdade de Direito ficou conhecido por impor acordo com escritórios de advocacia para que eles nomeassem a sala de aula. Por isso tudo foi inclusive declarado persona non grata na própria faculdade de origem dele. Somada a essa trajetória errante, o reitor decidiu gastar R$ 240 milhões de dinheiro público para construir obras de interesse duvidoso. Outros tantos gastos para alugar imóveis nas áreas nobres da cidade. Propôs fechar 300 vagas na USP Leste. Tem um currículo invejável entre os piores reitores da USP. Por isso que não tem uma audiência muito privilegiada junto com a comunidade universitária.
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