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Governo deve usar rede social para entender reivindicações, diz cientista política

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Em vez de apenas reagirem aos movimentos políticos criados pelas redes sociais, os governos e instituições devem usar essas novas tecnologias para colher a enorme quantidade de dados que elas disponibilizam, melhor compreender os desejos latentes da população e antecipar reformas.

A opinião é da cientista política Helen Margetts, diretora do Instituto de Internet da universidade britânica Oxford, um dos principais centros do mundo no estudo das interações entre política e tecnologia, que emprega métodos científicos para mensurar e explicar as recentes mudanças nessa relação.

"Eles [governos] devem entender que esses movimentos estão demonstrando importantes correntes e preferências políticas, e devem agir de acordo com isso. Eles próprios deveriam usar a mídia social para entender melhor as necessidades, preocupações e comportamento de seus cidadãos, e a legitimidade (ou não) de suas políticas, serviços e instituições, usando as redes sociais como um "barômetro" do Estado", disse à Folha logo após a proposição pela presidente Dilma Rousseff de uma reforma política via um plebiscito --que acabou por ser abortada.

Margetts reconhece a dimensão autorepresentativa das redes, mas não acredita num futuro sem políticos: "Se eles desaparecessem, seriam reinventados em uma outra forma. Isso é democracia representativa, e a disponibilidade de plataformas de mídias sociais não provê automaticamente um modelo alternativo. Movimentos como esses estão se formando sem instituições ou organizações. Mas elas (no sentido mais abrangente da palavra, e talvez em uma forma muito diferente) são partes vitais da evolução dessa mudança política."

Leia abaixo a entrevista, feita por e-mail:

FOLHA - Os protestos no Brasil, os atos do "Occupy", o que ocorreu na Turquia, no Egito, toda a "Primavera Árabe". Todos usaram redes sociais, como o Facebook e o Twitter. É possível traçar um modelo comum a todos eles, em relação ao papel da mídia social?

HELEN MARGETTS - A questão em relação à mídia social é que ela permite pequenos atos de participação política --como um tuíte, "curtir" algo, baixar um vídeo no Youtube e assim por diante. Uma vez que as pessoas começaram a realizar esses pequenos atos, microdoações de recursos políticos, elas ficam mais propensas a fazer mais. Todos esses pequenos atos se agregam em mobilizações de larga escala as quais, uma vez que elas tenham ganho ímpeto, encorajam as pessoas a contribuir mais e empreender atos de participação maiores, como ir a uma passeata. Nós chamamos esse modelo de "pluralismo caótico".

Como é possível reunir tantas pessoas sem líderes?
Esses movimentos [criados pela internet] não precisam de líderes para decolar --eles funcionam no que é chamado de "modelo de barreira". As pessoas têm diferentes "barreiras" para participarem. Algumas delas estão dispostas a participar logo no início [da criação do ato na internet], quando há poucos outros participantes. Essas têm uma "barreira" baixa e podem ser chamadas de pioneiros. Parte delas entrará no fim --essas têm uma "barreira" alta. E a maioria está no meio, com "barreiras" médias. Então, alguns poucos pioneiros encorajam pessoas com "barreiras" ligeiramente mais altas a participar e assim por diante, até que em um dado momento entra o maior grupo, o de pessoas com "barreiras" médias, e ocorre um ponto de inflexão. [Essa conclusão consta de um estudo recém-publicado por Margetts e colegas]. Isso significa que, apesar muitas mobilizações não conseguirem alcançar esse ponto de inflexão e fracassarem, muitas o alcançam e obtém um sucesso dramático. É por isso que esse modelo de pluralismo é "caótico" e difícil de entender e prever. Lembre-se que a maioria desses movimentos falham. Por exemplo: dos milhares de petições virtuais no Reino Unido, 95% não conseguem nem sequer alcançar 500 assinaturas e apenas alguns (0,1%) chegam às 100 mil assinaturas que elas precisam para serem consideradas no debate parlamentar. Os custos para iniciar esses movimentos são baixos --mais são criados, mais falham, e os poucos que dão certo podem ser muito bem sucedidos (uma das petições virtuais conseguiu 1,8 milhão de assinaturas e alcançou mudanças reais).

É possível a qualquer instituição tradicional controlar movimentos como esses?
Com esses novos tipos de mobilização, a questão é que as instituições não são mais necessárias para fazer essas mobilizações decolarem --na verdade, essas instituições são normalmente rejeitadas. Mas o perigo vem quando a mobilização alcançou algum tipo de sucesso, ocorre um vazio institucional e uma organização tradicional assume --como ocorreu com a Irmandade Muçulmana no Egito [da qual já foi derrubada por um golpe] e na Tunísia.

A senhora acredita que qualquer uma dessas chamadas "revoluções" teriam ocorrido sem as redes sociais?
Para ser realista, é muito difícil imaginar como eles teriam conseguido se coordenar e decolar sem redes sociais. É verdade que revoluções como as de 1989 no leste Europeu [que derrubou o comunismo real] funcionaram perfeitamente bem sem mídia social (ou qualquer tipo de tecnologia baseada em internet). Mas em certo sentido elas eram de uma natureza diferente, foram iniciadas por mudanças nas cúpulas e não foram começadas de baixo para cima, como no Brasil, Turquia.

Aliás, faz sentido usar a a expressão "revolução" nesses casos?
No Egito e na Tunísia foram revoluções, em qualquer sentido, certo? Ao menos no sentido que os presidentes caíram. Isso não aconteceu no Brasil e nem parece provável que aconteça.

No Brasil, as pessoas demandaram uma miríade de coisas --de melhor serviço público a ferramentas mais eficientes contra a corrupção e cortes nas tarifas de ônibus. Isso levou algumas pessoas a dizer que, se um protesto é contra tudo, ele na verdade é contra nada, e que isso seria um obstáculo para que qualquer vitória seja alcançada. Concorda?
Bem, a preocupação original em relação à participação política feita pela internet era a de que ela seria baseada em problemas pontuais, sem objetivos mais abrangentes ou interesses comuns, então em certo sentido essa natureza de "múltiplos-alvos" dos protestos antiglobalização, dos "indignados" [na Espanha], do movimento Occupy, do movimento da Turquia e do Brasil é surpreendente. Parece sintomático de outros movimentos originados de políticas de pressão --como a política verde e os movimentos pró-meio ambiente--, os quais tendem a ter um grupo bem articulado de coisas contra as quais eles se insurgem, mas muito menos coerência do que eles querem. Acho que isso tem mais a ver com a origem da resistência, protesto e pressão do com que as redes sociais.

Uma característica que parece unir todas as demandas no Brasil é uma aparente frustração com todos seus tradicionais representantes (políticos, partidos etc) É correto dizer que, uma vez que as pessoas passam a se autorrepresentar nas redes sociais, elas percebem que não precisam de intermediários?
Sim, a mídia social que permite aos usuários gerar conteúdo tem, até um certo ponto, democratizado a liberdade de expressão e a produção e disseminação de conteúdo (ainda que pequenos pedaços). Eles facilitam essa mudança.

As multidões que têm tomado as ruas nesses últimos anos se parecem com àquelas do século do 20? Digo, elas entendem a si mesmas como "multidões"? Alguns estudiosos criaram o termo "individualismo conectado".
Sim, é uma forma mais individual de ação coletiva do que a dinâmica grupal do que o antigo pluralismo, o modelo normativo proposto por Robert Dahl, David Truman [acadêmicos norte-americanos de ciência política]. Mas ainda assim é uma participação com objetivos comuns --logo com ação coletiva no sentido tradicional. Eles querem melhoras públicas, não privadas.

No Brasil, a principal resposta da presidente Dilma Rousseff foi propor uma forma de democracia mais direta. Quão realista é a implementação efetiva de um tipo de democracia direta usando a internet? Na sua opinião, é possível visualizar um futuro sem políticos ou com um número muito reduzidos deles?
Eu não vejo um futuro sem políticos --ou mesmo partidos políticos. Se eles desaparecessem, seriam reinventados em uma outra forma. A disponibilidade de plataformas de mídias sociais não provê automaticamente um modelo alternativo. Como eu disse, movimentos como esses estão se formando sem instituições ou organizações. Mas elas (no sentido mais abrangente da palavra, e talvez em uma forma muito diferente) são partes vitais da evolução dessa mudança política. Eu não acho que existam modelos viáveis de democracia pela internet, ainda que existam muitos modelos possíveis para suprir as necessidades, pedidos e preferências a serem expressadas em mídias sociais e levadas à frente, tendo, no período entre as eleições, uma maior entrada no processo de formulação de políticas.

Como os governo e as instituições devem reagir à esses movimentos? Algum direito fundamental pode entrar em perigo, mesmo em democracias como o Brasil?
Eles devem entender que esses movimentos estão demonstrando importantes correntes subjacentes e preferências políticas, e devem agir de acordo com isso. Eu não quero dizer que eles deveriam fazer tudo o que os cidadãos estão pedindo, ou empregar algum tipo de democracia direta. Em vez disso, eles próprios deveriam usar a mídia social para entender melhor as necessidades, preocupações e comportamento de seus cidadãos, e a legitimidade (ou não) de suas políticas, serviços e instituições (incluindo, por exemplo, a corrupção política), usando as redes sociais como um "barômetro" do Estado. Mídias sociais podem ser usadas para prover dados e informações valiosas, o que se chama de "big data" (a análise massiva de informações individuais contidas nas redes). Os governos podem usar isso para uma automelhoria e conduzir uma autoanálise.

Estamos testemunhando uma nova era do ativismo político? Você arrisca prever qual será a próxima "revolução"?
Estamos testemunhando uma nova era do ativismo político, que tem como um lado positivo o fato de que alguns grupos (gente mais jovem e mais pobre) parecem estar mais engajados politicamente do que estavam antes. Mídias sociais estão aqui para ficar, elas são o "clima da democracia". Eu não sei onde ocorrerá a próxima revolução, mas muitos governos, tanto democracias liberais quanto Estados autoritários, estão preocupados. Olhe um recente editorial do jornal [britânico] "The Observer", que disse que "uma crise de legitimidade pode atingir a Grã-Bretanha também", observando que o "a política moderna não é fluente no vocabulário do poder em transição e dos cidadãos empoderados".

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