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Polícia de SP prende suspeito de matar menino Arthur com tiro no Ano-Novo

Crédito: Arquivo Pessoal Arthur Aparecido Bencid Silva, de cinco anos, morreu após ser ferido por bala durante queima de fogos
Arthur Aparecido Bencid Silva, de cinco anos, morreu após ser ferido por bala durante queima de fogos

WILLIAM CARDOSO
DO "AGORA"

A Polícia Civil prendeu, na noite desta terça-feira (2), um suspeito de matar o menino Arthur Aparecido Bencid Silva, 5, que foi baleado na cabeça durante a virada do ano, na Vila Sônia, zona oeste da capital paulista.

A polícia também requisitou à Justiça a prisão temporária do homem por 30 dias. Segundo as investigações, o suspeito, que não teve a identidade revelada, deu seis tiros para cima com um revólver calibre 38 em horário próximo ao do crime. A bala que acertou o garoto é de um revólver com o mesmo calibre, diz a polícia.

O homem havia sido preso no dia em que Arthur foi baleado por porte ilegal de arma e foi solto no dia 1º após audiência de custódia —ele pagou fiança de R$ 500.

Em sua defesa, o acusado afirmou que estava no Jardim das Imbuias, em Parelheiros (zona sul), muito longe do garoto —pela distância, seria impossível atingi-lo.

A Polícia Civil diz suspeitar que os tiros tenham sido dados mais próximos à casa onde estava o menino.

A polícia diz, ainda, que, em uma interceptação telefônica em outra investigação, duas pessoas disseram que o suspeito estava preocupado com a repercussão do caso.

O delegado titular do 89º DP (Portal do Morumbi), Antônio Sucupira Neto, diz que chamou a atenção, ainda, contradição do suspeito sobre o momento em que foi abordado por PMs quando foi detido por porte ilegal. "Ele diz que a arma estava debaixo do banco, mas os policiais afirmaram no dia que ele jogou pela janela para se livrar", afirmou.

Segundo o delegado, será solicitado confronto balístico com o projétil retirado da cabeça do menino, para saber se saiu daquela arma. "Caso dê negativo, ele será colocado em liberdade imediatamente. As investigações continuam", disse.

INOCENTE

Eu sou inocente", disse o suspeito, à 0h07 desta quarta-feira (3), no 89º DP. Ele disse em depoimento, segundo a polícia, que atirou para cima perto de onde mora, no Jardim das Imbuias, em Parelheiros (zona sul). Por isso, seria impossível acertar o garoto de lá —a distância entre essa região e a Vila Sônia (zona oeste), onde o garoto foi atingido, é de aproximadamente 20 km, segundo o Google Maps.

O suspeito afirmou ainda que três amigos estavam com ele e poderão confirmar todas as informações repassadas por ele em depoimento.

BALEADO NO QUINTAL

Arthur foi atingido quando brincava com bolinhas de sabão no quintal da casa de seus familiares, disse a mãe, a professora Valéria Aparecido, 34.

O desespero tomou conta dos pais da criança ao perceberem uma poça de sangue se formar debaixo da cabeça do menino, que continuava inerte. "Disseram que ele arregalou os olhos e caiu duro. Imaginei que tinha ferido a cabeça na queda", afirma a mãe. A família estava na casa de um primo de Valéria para comemorar o Ano-Novo.

O pai contou que o deixou deitado no chão e chamou a ambulância, mas o desespero diante da gravidade da situação o fez correr com o filho para o hospital Family, o mais próximo. "Não sabia o que era. Só pedia para ninguém mexer nele", disse o eletricista David Santos da Silva, 33. Um exame de tomografia realizado no setor de emergência apontou a presença de uma bala alojada na cabeça, bem próximo da nuca. Foi então que a família descobriu que o filho tinha sido vítima de bala perdida.

Uma das hipóteses ainda a ser investigada é que criminosos comemoravam o Ano-Novo com tiros para cima e um dos disparos teria atingido Arthur. "Estava dentro de casa comemorando o Ano-Novo. Era uma criança, estava brincando. Foi uma vítima inocente da violência", disse a mãe.

BUSCA

Segundo nota enviada pelo hospital Family, do grupo NotreDame Intermédica, Arthur já chegou ao atendimento com dano neurológico importante. Por não dispor de uma UTI pediátrica, o hospital e a família iniciaram a busca por uma vaga de internação na rede pública e em instituições privadas. A procura só foi acabar cerca de quatro horas depois, quando ele foi levado para o Hospital Geral de Pirajussara, onde deu entrada em "estado gravíssimo" às 6h20 de segunda-feira (1º).

"A criança passou pela avaliação da equipe de neurocirurgia e por procedimento cirúrgico, foi internada na UTI pediátrica e faleceu devido à gravidade clínica", informou a Secretaria Estadual de Saúde, que administra o Hospital Geral de Pirajussara.

A família diz que teve dificuldade com o transporte do menino para o hospital estadual. "Como era feriado, tinha ambulância, mas não tinha médico", disse a mãe de Arthur. Segundo o hospital Family, profissionais que estavam de plantão foram deslocados para acompanhá-lo até a internação na UTI em outro endereço.

Segundo a mãe, foi feito contato em alguns hospitais particulares, que dispunham de vaga de internação, mas não aceitaram a transferência de Arthur. "Isso eu achei negligência. Às vezes, dava tempo de socorrer, mas perdemos a pessoa porque o que manda nesse país é o dinheiro."

O caso será investigado pelo DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa). Policiais ainda aguardam a perícia do corpo para avaliar a velocidade e o ângulo com que o projétil provocou o ferimento na cabeça do menino e dar sequência à apuração. De acordo com a mãe, a bala entrou de cima para baixo no crânio de Arthur. "É difícil saber de onde veio [a bala]", disse a professora, ao ser indagada se a família irá cobrar da polícia a autoria do disparo. Para o pai, o filho foi vítima da "guerra civil velada em que vivemos".

SUPER-HERÓI

O casal, que tem mais uma filha, descreveu Arthur como uma criança amorosa e "inteligentíssima". Segundo homenagem de uma tia em uma rede social, o menino gostava de se passar por um super-herói diferente por dia. "Ele chegou nesse mundo de surpresa, não foi nada planejado", escreveu Eliane Carrilho.

O relato segue e conta que gravidez, apesar de inesperada, foi muito comemorada pela família, que organizou o chá de bebê duas vezes. O menino tinha se tornado ainda mais falante e sociável recentemente, após começar a frequentar uma escola infantil.

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