ANGELA PINHO
ENVIADA ESPECIAL A ILHABELA (SP)

Seu perfil tem milhares de seguidores. Fãs param para tirar foto na rua. Recebe cachê para anunciar produtos em sua página e, recentemente, envolveu-se em uma polêmica que movimentou o mundo virtual.

Podia ser um blogueiro da moda, mas é Douglas Fraga, 22, que trabalha como gari em Ilhabela. Em 2012, ele criou uma das primeiras páginas sobre a cidade nas redes sociais. Cinco anos depois, tinha mais de 100 mil seguidores, quase o dobro do perfil da prefeitura.

A página e o séquito renderam a Douglas fama e dinheiro extra de anunciantes locais, como donos de lojas e de restaurantes. Nada perto, é claro, dos milhares recebidos pelas blogueiras da moda. Mas os R$ 70 por postagem ajudavam a complementar o salário –de R$ 750, mais vale-refeição de R$ 270.

No início de dezembro, porém, ele perdeu essa fonte de renda, numa trama que envolve um hacker e a polícia.

O INÍCIO

Nativo de Ilhabela, Douglas é filho de um garçom, já morto, e de uma diarista. Vive com mais oito pessoas da família em uma casa de três quartos na ilha.

Abandonou a escola após completar o primeiro ano do ensino médio. "Meio por preguiça e meio porque precisava trabalhar para ajudar em casa", diz. No início, seguiu os passos do pai. Foi ajudante de garçom em um quiosque e, depois, barman em uma pizzaria.

Foi nessa época que decidiu postar suas fotos sobre a ilha em uma página no Facebook, com o nome de Ilhabela e o tradicional desenho de barco à vela, símbolo da cidade. O endereço era facebook.com/ilhabela.oficial.sp –"foi o que me veio na cabeça", diz –mas era ele quem mantinha a página, de casa ou pelo celular.

Convidou amigos e começou a pagar pequenas quantias para "impulsionar" a página –ou seja, colocá-la no topo das buscas.

Postava fotos de seus passeios pela ilha e pedia para usuários enviarem suas imagens. Até que recebeu um vídeo de um surfista mostrando golfinhos na praia do Bonete. "Aí bombou muito", lembra.

Começou a fazer vídeos ao vivo em praias e cachoeiras e, no meio do ano, contou também na página seu novo trabalho: varrição e limpeza de ruas em Ilhabela. Aí bombou bem mais.
Aprendeu os horários que rendiam mais audiência e investiu no que resultava em mais visualizações. "O que mais faz sucesso é pôr do sol, depois golfinho e tartaruga."

No início de dezembro, quando a reportagem acessou sua página, tinha 112 mil seguidores. No dia 6 do mesmo mês, porém, postagens estranhas, com memes de humor e publicações sobre o mundo árabe começaram a aparecer por ali.

O GOLPE

"Voltei da Ilha das Cabras e, quando fui postar a foto na página, veio uma mensagem para eu redefinir minha senha. Fiz isso e nunca mais consegui acessar", diz.

Douglas registrou boletim de ocorrência, mas, até o final do mês, não havia conseguido recuperar o domínio da página, que saiu do ar. Não tinha também nem pista do suposto hacker, mas desconfia que seja alguém de Ilhabela. "Sou uma pessoa muito simples com mais seguidores que muitos poderosos."

Enquanto tentava recuperar a antiga página, chegou a investir em outra, com cerca de 1.000 seguidores em um mês, e em um canal do YouTube com vídeos da ilha. No dia dia 19 de janeiro, após a publicação do caso na Folha, a equipe do Facebook entrou em contato com Douglas e ele conseguiu ter de volta a página.

Não gosta de parecer vaidoso. No último dia 13, quando falou à reportagem, repetiu pelo menos três vezes que era uma pessoa "simples e humilde".

Ao fim da conversa, foi parado por uma jovem. "Ei, você que é o dono da página de Ilhabela? Sigo faz um tempão, parabéns", disse Miria Alves de Souza, 18, que diz acessar a página para se informar sobre a cidade.

Tímido, Douglas agradeceu e, por um instante, deixou a modéstia de lado. "Não é por nada não, mas acho que sou o servidor público mais conhecido de Ilhabela", disse.

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