Guarujá demole quiosques, sorteia novos pontos e deixa turistas confusos

Crédito: Bruno Santos/ Folhapress GUARUJA, SP, BRASIL, 11-01-2018: Folha Verão no Guaruja. Na foto, ruínas dos antigos quiosques, que foram derrubados pela prefeitura para a contrução do novo modelo, na praia da Enseada. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress) *** FSP-COTIDIANO *** EXCLUSIVO FOLHA***
Ruinas dos antigos quiosques demolidos pela prefeitura em orla de praia em Guarujá

MARIANA ZYLBERKAN
ENVIADA ESPECIAL A GUARUJÁ

O casal de aposentados Luiz Henrique Cardoso, 60, e Nilva Cardoso, 54, está acostumado a montar seu guarda-sol na praia da Enseada, em Guarujá, sempre no mesmo ponto durante a temporada de verão, quando deixam Bauru, (a 343 km de São Paulo), para descansar no litoral.

A rotina praiana incluía pedir porções de peixe e carne seca no quiosque do Severino, quando a fome apertava. Neste ano, porém, ao pisarem na areia, procuraram, mas não acharam Severino, que foi parar em outro ponto mais distante na praia.

No lugar, está funcionando um novo quiosque. Apesar do costume, o casal não quis sair a procura das porções de outros verões e decidiu pedir o tira-gosto aos novos garçons. "No começo, estranhamos", diz Nilva.

Assim como o casal, outros banhistas acostumados a frequentar a praia da Enseada se viram em meio a uma verdadeira dança dos quiosques neste verão desde que a prefeitura mandou demolir 93 pontos de comércio que funcionavam na areia para atender a um acordo estabelecido entre a Prefeitura de Guarujá e a União, que exigiu maior disciplina para a ocupação do terreno sobre o qual tem domínio, onde os comércios funcionavam, na faixa de areia.

O acordo permitiu a construção de 54 quiosques no calçadão, em vez de na areia. As permissões para ocupar as novas estruturas foram distribuídas pela prefeitura aos antigos donos de comércio na faixa de areia sob critérios que levaram em conta dívidas de impostos, tempo de licença, não possuir cargo público, entre outros pontos. As novas estruturas foram construídas sob padronização imposta pela administração.

Os pontos também foram distribuídos de forma aleatória. "Isso deixou o turista desorientado. Ele chega e não encontra mais o quiosque que estava acostumado, que serve também de ponto de encontro e referência para as crianças não se perderem dos pais", diz o ambulante Enoque Lima, 59, que perdeu o quiosque que tocava com a família há mais de 20 anos no local.

Assim como os demais ex-donos de quiosques que não foram contemplados no sorteio, Lima teve direito a uma licença para montar um carrinho na areia, onde vende petiscos e bebidas.

A estrutura é bem menor do que estava acostumado. Dos vinte funcionários que trabalhavam na cozinha e no atendimento aos clientes, restaram apenas quatro. "O faturamento caiu cerca de 70%. Foi com o quiosque que criei dois filhos e três netos", diz ele que começou a trabalhar na praia há 35 anos vendendo água de coco e milho verde cozido.

Além de reduzir o número de quiosques, a prefeitura publicou decreto em 16 de dezembro em que restringe ao máximo de 30 o número de conjuntos de praia –um guarda-sol, dois bancos e quatro cadeiras– que cada novo quiosque pode montar na areia para receber os clientes.

As novas regras exigem que os utensílios sejam montados apenas quando o cliente pede e proíbem que fiquem vazios a espera dos banhistas, como era praxe. Segundo a Prefeitura de Guarujá, dez multas foram aplicadas a donos de quiosques que desrespeitaram as regras desde a implantação do decreto.

Como a multa de até R$ 3 mil é a mesma para quem deixar um guarda-sol ou vários montados na areia, alguns comerciantes arriscam.

As novas normas foram discutidas em reuniões entre prefeitura e comerciantes, mas as negociações ainda estão longe de terminar. O decreto proíbe que donos de quiosques montem guarda-sóis com mais de três metros de diâmetro, usados por eles para receber famílias e grupos grandes, que acabam consumindo mais. Há uma pressão para que essa exigência seja revogada.

Os donos de quiosques escolhidos para ocupar as novas estruturas também têm reclamações. A principal é a distância dos clientes. Alguns chegaram a comprar radiotransmissores para que os garçons que ficam na areia possam ditar os pedidos com mais rapidez a quem está na cozinha. "Eu estou usando um apito para chamar os garçons porque ainda não temos como comprar os rádios", diz Aline Mateus, 38, gerente do quiosque Saudade.

Ela conta também que devido às novas dimensões do espaço, bem menores do que a estrutura que tinha antes, não tem conseguido atender todos os clientes. "A cozinha é menor, cabem só dois cozinheiros. Em dia de muito movimento, os pedidos demoram para ficar pronto e as pessoas desistem. No fim do ano, teve dia que de 50 pratos pedidos, foram cancelados 30", diz Aline.

Segundo a prefeitura, a construção dos novos quiosques ficaram às custas dos permissionários e que nenhum dinheiro público foi empregado nas reformas. Os comerciantes receberam cadeiras de mesas de madeira de uma marca de cerveja. Em troca, alguns se limitam a vender apenas produtos da Ambev, dona da marca.

O clima de adaptação ainda é evidente, durante o período de alta temporada, quando os comerciantes aproveitam para lucrar. Na última quarta (10), quiosques ainda terminavam últimos reparos, como a construção de rampas do calçadão até a praia.

No fim da praia da Enseada, ainda restam 11 antigos quiosques que foram lacrados, mas ainda não foram demolidos. A estrutura tem sido usada por moradores de rua e usuários de drogas, de acordo com frequentadores.

A Prefeitura de Guarujá afirmou que, por causa da alta temporada, a retirada dos quiosques antigos da areia foi paralisada para evitar acidentes já que demanda uso de maquinário pesado. "Todos os 11 quiosques que restaram na orla serão demolidos em breve", disse a administração.

Há turistas que elogiaram a retirada dos quiosques da areia. "Dá para ver a praia melhor, mas parece que foi tudo feito às pressas", diz a professora Patricia Carminati, 33, que saiu de Cascavel (PR) para passar férias em Guarujá.

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