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18/02/2011 - 09h18

PF suspeita que camelôs pagavam "caixinha" a polícia no Rio

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DIANA BRITO
HUDSON CORRÊA
DO RIO

Atualizado às 11h53.

A Operação Guilhotina da Polícia Federal aponta que a antiga cúpula da Polícia Civil do Rio se envolveu até com esquema de cobrança de "caixinha" de camelôs no centro da cidade. Essa suspeita consta em relatório encaminhado anteontem (16) pela PF ao secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.

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De acordo com o relatório, para que o funcionamento do camelódromo, onde são vendidas mercadorias piratas, "não seja alvo de repressão, mantendo-se na impunidade, existe uma "caixinha" visando pagamento de propina".

A PF diz que durante uma briga pelo controle do camelódromo, em maio de 2007, o então presidente da associação de camelôs Alexandre Farias Pereira foi assassinado a mando de um grupo rival.

Os executores seriam policiais ligados a grupos de extermínio. Poucos dias após o crime, os novos controladores do comércio contrataram, como chefe de segurança, um ex-policial ligado à Allan Turnowski, ex-chefe da Polícai Civil, diz o relatório.

O camelódromo da rua Uruguaiana tem 1.600 boxes distribuídos numa área de 3.000 metros quadrados.

Segundo a investigação da PF, a propina era paga a policiais civis e a integrantes da Seop (Secretaria Especial de Ordem Pública).

A secretaria, foi criada em 2008 pelo prefeito Eduardo Paes para combater a desordem urbana. Um de seus motes é a campanha "Choque de Ordem", que combate camelôs e outras irregularidades na cidade. Seu primeiro titular foi Rodrigo Bethlem, eleito deputado federal pelo PMDB, e que ficou conhecido como o "xerife" da cidade.

Preso na Operação Guilhotina, o delegado Carlos de Oliveira teve cargos de comando na Polícia Civil e na secretaria.

De janeiro a abril de 2009, ele foi subsecretário da Seop. Deixou o cargo para assumir a subchefia Operacional da Polícia Civil, tornando-se braço direito do então chefe da corporação, o delegado Turnowski.

Oliveira ficou na cúpula da Polícia Civil até outubro de 2009, quando foi exonerado. A PF relaciona a exoneração ao depoimento de uma testemunha da Operação Guilhotina que relatou desvios de armas e envolveu Oliveira.

O delegado voltou então à Seop e só foi demitido após ser preso.

Poucos dias antes da Operação Guilhotina, no final de janeiro, a Polícia Civil fez uma operação para apreender mercadorias no camelódromo. Para a PF, já era uma reação à operação, pois os investigados teriam informações sobre sua realização.

Rafael Andrade-11.fev.2011/Folhapress
Allan Turnowski, ex- chefe da Polícia Civil do Rio; PF suspeita que camelôs pagavam "caixinha" a polícia
Allan Turnowski, ex- chefe da Polícia Civil do Rio; PF suspeita que camelôs pagavam "caixinha" a polícia

OUTRO LADO

Turnowski nega envolvimento com a suposta caixinha. "Fui acusado ter recebido dinheiro da pirataria, mesmo tendo fechado o camelô numa ação inédita. No fim dessas investigações, nada ficou provado com relação a qualquer dinheiro recebido para mim. Nada tem contra mim", disse o ex-chefe de polícia.

A presidente da associação dos camelôs, Rosalice Rodrigues Oliveira, negou que exista um esquema de pagamento de propina.

"Somos responsáveis pela manutenção do camelódromo. Se existe [proprina], e acho que não existe, nós desconhecemos", afirmou Rosalice.

O delegado Carlos de Oliveira nega qualquer envolvimento com crimes relatados pela PF.

A Seop (Secretaria Especial da Ordem Pública) afirmou que "desconhece qualquer acusação ou relatório [da PF] a respeito [de pagamento de propina] e não vai se pronunciar sobre a Operação [Guilhotina] que trata de um problema ocorrido na Polícia Civil".

INDICIAMENTO

Turnowski, foi indiciado pela Polícia Federal na noite de ontem (17) sob suspeita de violação de sigilo funcional. Ele nega.

De acordo com o artigo 325 do Código Penal, o crime consiste em "revelar fato de que tem ciência em razão do cargo e que deva permanecer em segredo, ou facilitar-lhe a revelação".

A PF acusa Turnowski de vazar informações sobre operações policiais em andamento. Turnowski prestou depoimento por três horas ontem. Na saída, ele negou as acusações.

"Sou inocente, não recebi propina nem vazei informação. Não sabia da operação [Guilhotina]", afirmou o ex-chefe.

CRISE

A saída de Turnowski da chefia da Polícia Civil foi definida na terça-feira (15) em reunião com o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, após quatro dias de crise na instituição. Segundo nota emitida pela secretaria, os dois concluíram que a saída de Turnowski era a mais adequada para 'preservar o bom funcionamento das instituições'.

A posição de Turnowski à frente da Polícia Civil ficou desgastada após a operação Guilhotina, desencadeada pela PF (Polícia Federal), e que prendeu dezenas de policiais ligados a traficantes e milícias. O principal preso na operação, o delegado Carlos Oliveira, foi, até agosto do ano passado, subchefe de Polícia Civil. Há anos, é apontado como braço-direito de Turnowski.

Na segunda-feira (14), Turnowski decidiu fechar a Draco (Delegacia de Combate ao Crime Organizado), alegando ter recebido carta anônima com denúncias de corrupção, e que investigaria a delegacia.

A Draco é chefiada pelo delegado Cláudio Ferraz, ligado a Beltrame e desafeto de Turnowski. Ferraz admitiu que contribuiu com a PF durante a Operação Guilhotina.

Em nota, Turnowski agradeceu ao governador Sérgio Cabral (PMDB) e a Beltrame pelo tempo em que comandou a Polícia Civil. "Tenho certeza que esta é a melhor decisão para o momento", afirmou ele.

 

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