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08/08/2011 - 03h15

É possível combater o crime sem violência, diz documentarista

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ANDRÉ CARAMANTE
AFONSO BENITES
DE SÃO PAULO

"Pude constatar que é possível combater o crime no Brasil sem violência e prender sem matar". Essa é a definição da documentarista Luciana Burlamaqui, 40, sobre os dois anos em que acompanhou as investigações da Polícia Federal sobre o furto ao Banco Central de Fortaleza.

Furto ao Banco Central só pode ser contado em ficção, diz escritor

Membro da equipe que ajudou o repórter Caco Barcellos a produzir o livro Rota 66, Burlamaqui foi a única jornalista que filmou e documentou passo a passo das apurações policiais do maior furto do país. As 170 horas de filmagens devem se tornar "uma novela policial real".

"É um bastidor sobre a segurança pública no Brasil inédito e muito importante para o país conhecer", diz.

Leia a seguir a íntegra da entrevista, concedida na última sexta-feira (5), exatamente seis anos após o crime.

*

Folha - O que mais te impressionou na investigação?

Luciana Burlamaqui - Constatar que a maior arma da Polícia Federal na investigação foi a inteligência. Enquanto os criminosos tinham milhões de reais nas mãos para se movimentar com facilidade por vários estados do país, inclusive para fora, o chefe da investigação, o delegado Antônio Celso dos Santos e o agente federal Nicodemus enfrentavam todas as dificuldades, às vezes até estruturais, com estratégia e planejamento. Corriam contra o tempo. Temiam que o dinheiro do roubo fosse usado na compra de armamentos pesados para abastecer o crime organizado no Brasil.

O que mais te impressionou no furto?

De cara a síntese da história. Um crime quase perfeito, sem testemunhas, nem violência, onde foram retiradas cerca de três toneladas de dinheiro do caixa forte do Banco Central por um túnel de cerca de 75 metros de cumprimento construído embaixo de uma movimentada avenida da famosa capital turística cearense. E saber que o túnel partiu de uma casa que vendia grama sintética, localizada a um quarteirão do banco e que a loja fora criada pelos criminosos para justificar a quantidade de terra que saía dos fundos do imóvel diariamente. Isto é um filme!

Quem são os cincos principais personagens desse capítulo incrível da segurança pública no Brasil?

A investigação foi liderada de forma brilhante pelo delegado Antônio Celso dos Santos que tinha como seu braço direito o inteligentíssimo agente federal Nicodemus. Mas a operação foi bem sucedida também pelo trabalho de equipe com muitos personagens importantes do cenário policial que serão conhecidos no seriado.

O que você conseguiu detectar de importante ao longo de suas gravações, principalmente no que diz respeito ao trabalho da Polícia Federal?

Foi a primeira vez que estive tão perto de uma investigação policial com um olhar de dentro, livre. Sempre mostrei mais o lado dos acusados. Neste meu filme pude observar, documentar, refletir tudo o que via e até escrevi um diário ao longo da gravação com minhas observações pessoais e profissionais.

Pude constatar que é possível combater o crime no Brasil sem violência e sim com inteligência. Prender sem matar. Testemunhei o método investigativo do delegado Antonio Celso Santos e fui convencida disso. Este foi o principal motivo que me fez mergulhar nesta história por dois anos de gravação sacrificando inclusive minha vida pessoal. Acredito que mostrar a inteligência policial como estratégia para combater o crime organizado no Brasil pode ser um exemplo importante de contraponto frente à prática violenta de outras polícias.

O que você pretende fazer com o material captado durante a investigação da PF?

Minha intenção é transformar as 170 horas de gravação em um seriado para televisão estilo "docsoap". Uma novela policial real sob o título provisório "Diário de Uma Investigação: Os bastidores do maior roubo a banco da história do Brasil". Escrevi um diário ao longo das gravações que pretendo incorporar ao filme com minhas reflexões sobre a violência no Brasil nos últimos 20 anos e também publicar uma versão em livro.

Quando você pretende conseguir colocar seu "docsoap" em atividade? Quando o público assistirá esse seu projeto?

Isto será decidido a partir de uma negociação com as produtoras que me convidaram para dirigir o filme. Espero que em breve. Mas certamente levará um longo tempo de edição e também gostaria de atualizar a história. Tudo é histórico: a investigação, o furto. Tem que ficar bem feito, completo. Terá entretenimento, ação e muita reflexão sobre a violência no Brasil e os bastidores da segurança pública do nosso país.

Ao longo de sua documentação, como você se sentia ao saber que era a única jornalista com acesso irrestrito a um dos casos policiais mais instigantes da história do Brasil?

Foi um furo que em outro momento entrarei em detalhes como ocorreu. Mas a oportunidade de mergulhar no submundo da criminalidade do meu país como uma documentarista mulher reacendeu em mim uma característica que me acompanha nos trabalhos ligados a violência que realizo: a marca de uma certa "fragilidade forte". Ao longo de dois anos minha rotina tornou-se lidar com dezenas de homens armados à procura de foragidos. Ao mesmo tempo como jornalista e integrada intimamente a uma equipe policial, volta e meia via-me em situações éticas questionáveis onde precisava tomar decisões difíceis sobre meu grau de envolvimento na cobertura das histórias.

Como a minha versão da história será a realidade e não uma ficção, isto me obriga como jornalista e documentarista ter extrema responsabilidade tanto para apurar as informações como para editar este seriado.

Na maior parte do tempo, para onde sua câmera estava apontada?

Eu fiquei literalmente na cola do chefe da investigação e do agente federal que trabalhava diretamente com ele. No começo estranharam um pouco, mas rapidamente se adaptaram com a minha presença. Houve uma boa sinergia entre a gente. Eu sempre estava no mesmo carro e avião que eles e os acompanhava em todos os seus passos a partir daí. Em algumas situações os encontrava no local da diligência como aconteceu algumas vezes no Ceará.

Em Fortaleza cheguei a ter como "equipe" um jovem e corajoso motorista que me acompanhava em algumas missões de risco onde eu não podia ir junto com o delegado e precisava estar em outro carro. Tem um trecho no meu diário onde conto esse momento:

"Boa Viagem era nosso destino. A cidade onde Antônio Jussivan Alves dos Santos, o Alemão, o chefe do braço nordestino da quadrilha, nasceu. A ordem era que nos dirigíssemos a cidade, hospedássemo-nos em algum lugar e aguardássemos um contato. Descobrimos que escolhemos o mesmo hotel que a equipe liderada por nosso personagem agente federal estava, mas fomos avisados que não poderíamos falar com ele para não chamar a atenção. A operação era de alto-risco com armamento pesado por todos os lados." (trecho do diário que será incorporado na narração do filme)

Muitos detalhes da investigação serão revelados a partir do próprio processo e bastidor de documentar uma investigação policial deste porte. Para que isso desse certo foram estabelecidas uma série de acordos e regras que irão trazem detalhes da própria investigação.

Como os policiais federais tratavam a ação de inteligência dos criminosos?

Com respeito. Me parecia que nunca os subestimavam.

Você acompanhou o momento que os policiais recuperaram o dinheiro que estava nos veículos sobre o caminhão cegonha? O filme passou a impressão de que foram os próprios ladrões que denunciaram que o dinheiro estava sendo levado para SP. Até onde você sabe foi isso mesmo que aconteceu?

Não acompanhei o primeiro flagrante, mas o delegado conta como foi no documentário. Eu comecei a gravar a partir do segundo flagrante quando entrei no caso com acesso exclusivo aos bastidores após a prisão de cinco integrantes da quadrilha no bairro de Modubim na periferia de Fortaleza onde foram encontrados R$ 12.250.000 em notas de R$ 50. O dinheiro foi escondido por vários cômodos da residência e o restante guardado em sacos de nylon, em uma caixa de isopor e depositados num buraco cavado em um dos quartos.

Como você gravava seu documentário sobre a investigação do maior furto a banco da história do Brasil?

Gravava sozinha, que é o formato que aprendi no início da década de 90 quando fui para Nova York trabalhar com um documentarista muito conhecido por fazer isso Jon Alpert. Dirijo, gravo, faço som, produzo e entrevisto. Este é o meu jeito de trabalhar. Gosto de entrar fundo, conviver por um bom tempo com os personagens para então traduzir minhas percepções e contar a história.

É bom estar sozinha com o entrevistado ou personagem. Você ganha mais intimidade e menos interferência de olhares. As histórias que testemunhei da investigação atrás dos movimentos da quadrilha são extraordinárias e dignas de um filme. Mas tudo é real, nada foi dramatizado e sim gravado enquanto acontecia. É um bastidor sobre a segurança pública no Brasil inédito e muito importante para o país conhecer.

Qual era a sua rotina de trabalho, se é que ela existia?

Foram mais de 40 viagens por dez estados brasileiros acompanhando o delegado Antônio Celso dos Santos, chefe da investigação e outro agente federal e tudo o que encontravam pela frente. Estava 24 horas à disposição. A qualquer telefonema do delegado, largava tudo de dia, noite, madrugada, feriado e finais de semana e partia para alguma região do Brasil. O filme se tornou um "road-movie" investigativo pelos quatro cantos do país. Documentei desde o levantamento de esconderijos dos assaltantes seus amigos e familiares, como a investigação sobre sequestros de foragidos, prisões, detalhes da formação da quadrilha, o quebra-cabeça montado pouco a pouco de como o roubo foi planejado e executado, além de reuniões secretas com a cúpula da Policia Federal etc. Muitas descobertas sobre o crime e grande parte do raciocínio da investigação aconteceram na frente da minha câmera, já que raramente a desligava.

Qual era sua intenção ao ligar sua câmera?

Respirar junto com os principais personagens, gravar tudo, até seus pensamentos que eram trocados em voz alta durante todas as viagens, e conhecê-los também como pessoas por trás dos policiais. O delegado Antônio Celso e o agente federal Nicodemus, assim como a maior parte dos criminosos são de origem humilde do nordeste. Essa identificação cheia de ambiguidades sobre os valores e o contexto da criminalidade brasileira fizeram parte das longas e intermináveis conversas dos investigadores enquanto viajam por suas incursões pelo país a fora. Em voz alta bolavam novas estratégias de ação e raciocinavam juntos sobre os detalhes da investigação como se montassem um quebra-cabeça gigante.

As conversas paralelas sobre o cotidiano dos locais por onde passávamos e a interação com as pessoas da comunidade na beira das estradas e pelas várias regiões que percorremos acabaram por revelar também um pouco sobre a realidade social do Brasil.

Ao mesmo tempo foi um grande desafio dirigir e gravar um documentário, de forma discreta, sem atrapalhar o trabalho da equipe e estar sempre presente nos momentos mais importantes da investigação.

Você já viu o filme de ficção "Assalto ao Banco Central"?

Ainda não vi o filme. Em algum momento irei assisti-lo. Mas acho natural que uma história como esta inspire muitos filmes e também livros. Foi um roubo que de certa forma "cativou" o Brasil e ganhou destaque na imprensa internacional pela ousadia da quadrilha, o alto montante do furto e todos os detalhes de um crime cinematográfico executado com excelência e sem violência.

A história que eu posso contar é uma história de testemunho, de reflexões, que tem uma respiração sincronizada com os movimentos da investigação ora de sucesso, ora de fracasso.

Os produtores do filme "Assalto ao Banco Central" acreditam que o verdadeiro financiador do crime ainda está solto. Por outro lado, o delegado Antônio Celso nos disse que os principais envolvidos já foram identificados ou presos. Você acredita que quem pagou pelo esquema ainda está livre?

Prefiro abordar isso no documentário.

Você acha que ainda é possível recuperar o dinheiro que não foi encontrado?

Essa pergunta teria que ser feito ao próprio delegado hoje.

Na sua visão, qual foi a participação do PCC no furto?

O delegado Antonio Celso talvez possa falar melhor sobre isso. O que fiz foi retratar a investigação dele. Em nenhum momento fiz uma investigação pessoal, paralela.

Como a corrupção de várias polícias civis de diversos Estados brasileiros era tratada dentro da investigação da PF?

Isto será contado no documentário.

Fale um pouco sobre sua trajetória profissional.

Minha trajetória profissional como jornalista e documentarista é marcada pela cobertura da temática da violência e das desigualdades sociais. Aos 20 anos, trabalhei como repórter na investigação do livro Rota 66, do Caco Barcellos. Segui nesta linha e produzi ao longo de 14 anos documentários exibidos na BBC World sobre as injustiças sociais no Brasil.

Dirigi o documentário Entre a Luz e a Sombra ao longo de sete anos sobre o trabalho de uma atriz ativista social e uma dupla de rap formada no Carandiru para investigar a violência no Brasil a partir do ponto de vista da prevenção. O documentário foi lançado no cinema no final de 2009, exibido até o momento em 25 festivais, 14 países e recebeu quatro premiações, entre elas a de melhor documentário eleito pelo público no 17º Festival de Cinema de Biarritz (França) e melhor documentário eleito pelo júri no 25º Festival Internacional de Cinema de Guadalajara (México).

 

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