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31/10/2011 - 14h53

Pesquisa revela perfil dos negócios sociais no Brasil

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SIMONE TAVARES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Mais rentável e com impacto direto nas classes baixas, os negócios sociais apontam o seu foco para a educação e se concentram, principalmente, na região Sudeste. Esses são alguns dos principais resultados publicados pela pesquisa inédita sobre a atuação dos públicos que movimentam o crescimento dos negócios sociais no Brasil.

A avaliação do Polo Brasil da Ande (Aspen Network of Development Entrepreneurs) em parceria com a Fundação Avina e a Potencia Ventures baseou-se no mapeamento e na definição dos perfis das empresas, acompanhado de rodadas de entrevistas com 40 desenvolvedores e 14 investidores selecionados pela Plano CDE --consultoria e instituto de pesquisa especializada no universo das classes C, D e E.

"Em agosto do ano passado sentimos a necessidade de ter uma visão mais abrangente do campo no Brasil, a fim de atrair mais negócios para o país. Foi preciso entender a demanda das organizações e identificar os buracos no mercado, para que as empresas possam adequar a sua situação e desenvolver melhor os negócios", esclarece Rob Parkinson, coordenador da Ande.

São considerados negócios sociais os empreendimentos que utilizam mecanismos de mercado com a finalidade de minimizar desigualdades socioeconômicas, ou seja, contabilizam um impacto social positivo. Para critério de análise, foram considerados dentro do plano de negócios sociais os desenvolvedores e os investidores.

As organizações que buscam apoiar micro e pequenas empresas a crescer por meio de um conjunto de serviços de impacto social são os desenvolvedores, entre eles as incubadoras, as aceleradoras e as ONGs geradoras de renda ou atuantes no ramo de impacto estrutural. Elas criam o cenário para o crescimento do negócio e apoiam por um determinado período de tempo.

Segundo mapeamento, no Brasil os desenvolvedores estão concentrados na região Sudeste (75%), seguida pelas regiões Nordeste (10%) e Sul (8%). Sendo que 45% desses desenvolvedores apoiaram até dez empresas ou organizações com foco na base da pirâmide, no ano de 2010.

"O movimento solidário é antigo no país, já os negócios sociais começaram em 2007. Hoje o Brasil tem cada vez mais demanda, isso porque as organizações, principalmente do terceiro setor, estão em busca de alternativas de funcionamento com maior significado para a sociedade", explica Renato Kiyama, acelerador de negócios sociais da Artemisia, empresa participante da pesquisa.

De acordo com o estudo, a educação está entre os negócios mais apoiados (75%). Artesanato e ambiente seguem empatados vêm em segundo e terceiro lugares. "A educação tem impacto social estruturante. Segue o consenso comum de ser a base para as transformações. Uma empresa que investe no setor será sempre vista com bons olhos", afirma Leonardo Letelier, CEO e fundador da sitawi, uma das investidoras entrevistadas.

Como forma de suporte aos empreendimentos, as desenvolvedoras oferecem também a prestação de serviços. Palestras, cursos e treinamentos lideram a lista com 93%, orientação/consultoria estratégica e inclusão de rede de contatos aparecem com 73%, seguida da disponibilidade de suporte tecnológico, que representa 60%.

Para selecionar as iniciativas a serem apoiadas, os desenvolvedores levam em consideração primeiro a área de atuação (63%), depois o tipo de impacto social (58%) e o perfil pessoal do empreendedor (53%). "É necessário uma equipe estruturada, com líderes inteligentes e perspicazes e um modelo de negócio de comprovado impacto social", resume Kiyama sobre o processo de seleção.

Nos últimos três anos, os desenvolvedores contribuíram para a ampliação de cerca de 250 empreendimentos sociais, sendo mais de 56% autossuficientes. A principal fonte de renda vem de fundações, institutos e empresas privadas para 63% dos pesquisados, enquanto 58% são provenientes de recursos próprios.

"A formulação da pesquisa apontou pontos importantes para o desenvolvimento dos negócios sociais: a busca pelo entendimento do mercado, o interesse de investidores de fora do país e o surgimento de instituições relativamente jovens lideradas por profissionais mais novos, qualificados e que buscam no trabalho algo com mais sentido para a sociedade", diz Rob Parkinson.

PERIL DOS INVESTIDORES

No segundo momento da pesquisa, foram selecionados 14 investidores com intencionalidade de investir em negócios sociais ou que já dão a sua contribuição na forma de doações, empréstimos ou equit. Fundamentais para viabilizar os empreendimentos, também se concentram na região Sudeste (86%), assim como os desenvolvedores. São compostos principalmente por associações civis (36%) e empresas privadas (29%).

A maioria dos investidores, hoje, já tem experiência em alavancar negócios com foco na baixa renda, sendo a maioria deles voltado para a educação (64%), a agricultura, a tecnologia da informação e serviços financeiros de microcrédito (50% cada um). No entanto, mais da metade afirma não saber o limite financeiro que está disposto a investir, mas seis deles afirmam disponibilizar o volume total para beneficiar a baixa renda.

Enquanto metade dos investidores baseia-se no impacto social do empreendimento, outros 43% levam em conta não só o impacto, mas também o retorno financeiro. O levantamento mostra que 14% esperam de 20% a 30% de retorno após cinco anos.
Entre os aspectos mais importantes para decidirem investir está o impacto social, seguido da pessoa do empreendedor.

"Emprestamos dinheiro para instituições sociais independentemente de sua causa, isso quando temos certeza de que ela está fazendo mais bem do que mal ao mundo", diz Leonardo Letelier.

NEGÓCIOS SOCIAIS

Fundada em 2004, a Artemisia oferece plataformas para criação e aceleração de negócios sociais. Com uma demanda até maior do que consegue atender, a desenvolvedora segue um rigoroso processo de seleção.

Verifica-se a capacidade dos empreendedores, o impacto social que deve ser estruturante
--voltado para a educação e com impacto nas classes C, D,E-- e um modelo de negócio autossustentável.

Um dos projetos de maior visibilidade da empresa é o SaÚtil (sautil.com.br), um site construído para que pessoas de baixa renda tenham acesso aos serviços oferecidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

"Com uma linguagem simples, o sistema informa gratuitamente os serviços disponíveis para a população, como, por exemplo, o local mais próximo onde determinado remédio está disponível, além de postos de vacinação e marcações de consultas", explica Renato Kiyama.

Do lado dos investidores, a sitawi amplia o impacto das empresas envolvidas com as causas sociais, auxiliando-as por meio de empréstimos e consultoria.

"Empréstimo social é ideal para quem já tem uma empresa estruturada e quer fazer mais e melhor do mesmo. Além disso, buscamos associações sem acesso ao capital tradicional. Emprestamos para todos aqueles que têm uma equipe de gestão estruturada e, portanto, serão capazes de nos devolver", esclarece Leonardo Letelier.

A sitawi tem o seu fundo social formado por doações destinadas 100% aos empréstimos e que são administradas por um plano de negócios capaz de multiplicar o impacto social.

Um dos clientes relevantes é o Instituto Feira Preta. A organização sem fins lucrativos atua na promoção e no desenvolvimento sociocultural da comunidade negra e do empreendedorismo afro-brasileiro em nível nacional. O instituto desenvolve ações como cursos e eventos, para mais de 14 mil pessoas, com o intuito de incentivar e divulgar a cultura negra.

Apesar do grande número de visitantes ao evento, grande parte das vendas se deu no mês anterior, outro problema era a falta de recurso de caixa devido ao não recebimento de um patrocínio em 2010. A feira ocorre anualmente, em São Paulo, desde 2002. Para resolver fluxo de caixa, a sitawi concedeu, neste ano, o empréstimo de R$ 100 mil.

No caso do The Hub, uma rede colaborativa global com o propósito de apoiar e inspirar empreendedores, o presidente Pablo Handl elege o projeto Carbono Zero como um dos mais relevantes.

Semelhante ao modelo europeu, a empresa presta serviços de entrega utilizando somente bicicletas, o que diminui a emissão de poluentes. "Não focamos em setores, focamos em pessoas que querem gerar impacto socioambiental positivo, fazendo acontecer as suas ideias", conclui Handl.


 
 

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