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Transplante de até oito órgãos será feito no Brasil
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CLÁUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO
Está quase tudo pronto para que o Brasil faça seu primeiro transplante multivisceral. Dois hospitais paulistanos (Albert Einstein e Hospital das Clínicas) já receberam sinal verde do Ministério da Saúde para realizar a cirurgia em que até oito órgãos são transplantados de uma vez para o corpo do paciente.
"É como pegar um carro velho e trocar o motor inteiro." A analogia feita pelo cirurgião brasileiro Rodrigo Vianna, que dirige o maior centro de transplante multivisceral do mundo, em Indianápolis (EUA), ilustra a complexidade da operação.
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O transplante envolve "a troca" de intestinos, estômago, fígado e pâncreas --às vezes, é necessário substituir rins e baço. "Vai depender da extensão da doença."
Nos EUA, a cirurgia é feita há uma década e pode custar US$ 1 milhão. Leva de oito a 12 horas e envolve uma equipe de 25 profissionais.
O paciente fica, em média, três semanas no hospital. As chances de rejeição (não necessariamente de perda do órgão transplantado) no primeiro ano variam entre 20% e 30%. E a taxa de sobrevida chega a 90% nos melhores centros norte-americanos.
BRASIL
Estima-se que ao menos 400 brasileiros necessitem desse tipo de transplante. Nos últimos anos, ao menos cinco fizeram a cirurgia no exterior e acionaram, judicialmente, o governo ou os planos de saúde para o reembolso das despesas.
Numa primeira fase, o Ministério da Saúde autorizou 20 cirurgias experimentais, dez no HC e dez no Einstein. Para o HC foram liberados R$ 2 milhões. O Einstein fará os transplantes por meio do seu programa de filantropia.
Após esse teste, o ministério vai avaliar os resultados, os custos e decidir se o procedimento será feito como rotina. "Não temos pressa. Queremos montar um programa sério, com resultados satisfatórios para o paciente" diz Ben-Hur Ferraz Neto, coordenador da equipe de transplante de fígado do Einstein.
As equipes dos hospitais foram treinadas em centros americanos e ingleses de referência. O HC está "repatriando" um médico do centro de transplante multivisceral de Pittsburgh (EUA), o brasileiro Rui Jorge Cruz Júnior.
Luiz Carneiro, diretor do serviço de transplante de fígado do HC, afirma que a Secretaria de Estado da Saúde estabelecerá, nos próximos dias, os critérios para a realização do transplante. "A preocupação é que a cirurgia não interfira na fila de espera de outros transplantes."
À ESPERA
No Einstein, uma paciente com tumor já está internada à espera de um doador. Muitas das pessoas que precisam do transplante multivisceral tiveram o intestino retirado ou passaram por diversas cirurgias no sistema digestivo (às vezes, mais de 40). Isso deixa o abdome atrofiado e torna necessário que o doador seja menor, para que os órgãos "sirvam" no receptor.
"Quando não cabem, é um problema. Às vezes é preciso trazer a parede abdominal do doador para fechar o abdome do paciente, porque falta tecido", diz Rodrigo Vianna.
A principal indicação do transplante é para casos de falência intestinal, em que a pessoa passa a receber nutrientes por cateteres.
Essa nutrição está associada a complicações graves, como infecções e falência hepática. Nesses casos, só mesmo o transplante de intestino ou o multivisceral (quando mais órgãos estão comprometidos) pode salvar o paciente.
No passado, o Brasil fez alguns transplantes de intestino, mas sem sucesso. "A operação exige infraestrutura de ponta. É caro e a internação é longa", diz Luiz Carneiro.
Segundo Rodrigo Vianna, quando deixa o hospital, a pessoa precisa de suporte intenso de "home care", medicações caras e auxílio nutricional. O intestino demora a dar sinais de infecção. Quando dá, pode ser tarde. Para monitorar, é necessário fazer exames periódicos.
Após os três primeiros meses, os pacientes começam a voltar às atividades normais. O aposentado Noé Rolli, um dos pacientes de Vianna, "estreou" o novo intestino em uma churrascaria em Indianápolis. "Ele virou cliente VIP", brinca o médico.
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