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Bem perto da Granja Comary, o Teresópolis FC luta pela vida

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Os helicópteros zuniam no céu, sinal de que o ônibus da seleção brasileira voltava à Granja Comary depois de um dia de folga. Há sempre alguém lá em cima zelando pelo time do Felipão com bastante barulho. Lá embaixo, no estádio do Teresópolis Futebol Clube, Pretão, Lennon e William também acreditam, no domingo e a cada dia, que alguém zela por eles lá do alto, ainda que sem alarde. Nem sempre entendem bem o que o todo-poderoso planeja. Deus, como o futebol, segundo o seu entendimento, se movimenta por acasos, por sinais enigmáticos. Exibe caprichos de bola. É especialmente caprichoso com o Teresópolis: o time não ganha um jogo desde 2011.

Enquanto na Granja centenas esperavam um vislumbre dos estrelados, os jogadores do Teresópolis atacavam uma "macarronese". Dieta reforçada para o jogo em casa no campeonato da terceira divisão do Rio de Janeiro. O cozinheiro é também o técnico, Giovani Ferreira, que na mestiçagem dos ingredientes decidiu reforçar mais o macarrão do que a maionese, para evitar qualquer indisposição que desviasse a atenção do pé para o estômago ou para regiões ainda mais periclitantes na hora da peleja. Ali não se ganham milhões. Como milhões de brasileiros, o salário deles rodeia o mínimo.

Pretão, 34 anos, é o capitão. Era Wanderson dos Santos (com "W", ele faz questão de informar, porque dois "Vs" é mais do que um, e mais é sempre bom na vida que teima com menos). A avó inventou Pretão, apesar dos protestos da mãe, e foi como Pretão que ele domou a bola de meia, depois a dente de leite, que voava além da conta no campinho de chão batido da favela carioca do Jacarezinho. Lá pelos 15, 16 anos, Pretão se desviou, saindo pela linha de fundo, e virou avião do tráfico. Mas a bola o devolveu para o campo das possibilidades. Alcançando o ápice em 2006, quando conta ter sido chamado a "completar" no treino da seleção, orgulhoso quando Kaká dizia: "Passa a bola". Daqui a alguns parágrafos, Pretão vai entrar em campo. De chuteira emprestada, porque propriedade sua só mesmo o pé.

William do Canto Coelho, 21 anos, começou a escrever um livro. A primeira frase: "Sou um milagre de Deus". Porque nasceu doente e vingou, e isso já é bastante. Inspirava-se para o jogo lendo "Nunca desista de seus sonhos", de Augusto Cury. Resiste num pensamento: "A realidade constrange muito os nossos sonhos. Mas li que Martin Luther King e Abraham Lincoln tiveram muitas derrotas e venceram, então o mesmo pode acontecer comigo". Afinal, William foi nome escolhido pelo pai, homem de roça, "por admiração a um jogador do Cruzeiro". William dá um sentido para o cotidiano de paredes descascadas, para o quarto com cheiro de chulé que divide com outros quatro, já que quase todos moram no clube: "É porque Deus quer que a gente possa dar um testemunho depois da vitória". William abaixa a cabeça por um momento. Depois a levanta.

Lennon, 23 anos, era Gideon de Almeida, nome bíblico, de "guerreiro do filme 300", explica. Mas de novo uma avó carinhosa, chamada ela mesma de "Dona Paixão", decidiu mudar o destino com um apelido. Botou logo Lennon. Mas um Lennon com cara de Ronaldinho Gaúcho. Dizem os outros, porque ele mesmo acha que o sósia famoso é muito feio. Trocou as trancinhas do cabelo. Primeiro por um moicano. Depois, pediu para o cabeleireiro Pelé fazer algo diferente. O nome do corte, segundo Pelé, é "militar disfarçado", com um topetão mais alto do que um coturno. Lennon estava desistindo do futebol quando o passaporte que o levaria para um time do México não saiu a tempo. Entrou numa igreja, nem sabe qual, e uma mulher disse que Deus estava falando com ele. E Deus o via com muitas malas, viajando pra dentro e pra fora. Deus disse que ele ia de Minas para o Rio de Janeiro. Deus falou também: "Você vai passar na TV". Quando Lennon recebeu o convite para o Teresópolis, chorou. Era a profecia realizada. Ao desembarcar no clube, porém, quis voltar no primeiro dia. "Mas Deus nunca tinha falado tão claro comigo, então fiquei." Lennon está esperando, sem ousar apressar Deus.

Falta pouco para as 15 horas, a "macarronese" é agora só uma lembrança. Nardo (Leonardo Macedo), 31 anos, pega a palavra para animar o time: "Quem sai daqui vai trabalhar em obra, pode ficar desempregado. A terceira divisão é ruim, mas pode ser uma oportunidade". William faz a oração. Vai logo convocando Deus: "Vamos entregar ao Senhor esse jogo....". Pouco antes, Pretão refletia: "Tem religioso nos dois times. Então, vamos correr". Na véspera tinha passado um produto para cachear o cabelo. Foi para o jogo com tantos cachos quanto uma ovelha.

A bola está rolando. A vida pode mudar num segundo. Eles rezam agora com o pé. Rezam contra o União Central, de São José do Rio Preto. Na arquibancada, só dirigentes e conhecidos do clube. Segundo o presidente do clube, Frederico Menezes, o Teresópolis joga sem torcida desde 2009. Os comentários são de que o estádio está interditado. O presidente jura que esse problema já foi superado, só faltaria agora "policiamento ostensivo". Uma mulher grita: "Uma hora a favela vai descer! Todo mundo criado aqui neste campo e agora não pode entrar". Meia dúzia assiste ao jogo do barranco do outro lado do muro. É a primeira semelhança com a Granja Comary. O povo também fica de fora.

Aos 34 minutos do primeiro tempo, João Muniz, volante do União Central, dá uma cotovelada na boca de Nardo. O craque do Teresópolis reage. O juiz, Leonardo Pinto, expulsa os dois. Nardo dá um tapa na mão do juiz. O bate-boca vai pra fora do campo. É um caso raro. Nardo diz que deu um tapa na mão do juiz, sim. O juiz diz que não deu, não. No segundo tempo, gritos: "Chamem a enfermeira!". A enfermeira garante que não houve nada com o número 6 do União Central: "O menino só cortou a boca".

O final se aproxima, com enorme drama e escassas testemunhas. Zero a zero é número sem soma. Não se fala mais em Deus. O invocado agora é o "caralho".

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