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Eliane Brum: Zona controlada

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A zona mista é como um brete de bois. Para quem não está familiarizado com a terminologia rural, brete é um cercado para onde os animais são conduzidos, à força, para serem castrados, vacinados, descornados, marcados ou mesmo abatidos. Há uma versão desses currais dentro de cada estádio da Copa. Assim que a partida acaba, os jornalistas que têm senha para entrar na zona mista correm para lá. As senhas são distribuídas pela Fifa, sempre limitadas e disputadas. Depois do banho e das rezas, a maioria do time entra no brete, um jogador seguido do outro. Mas, ao contrário dos bois, esses touros milionários, DNA futebolístico apurado, não vão para o sacrifício. A imagem cabe mais a nós, jornalistas. Quando as estrelas da seleção despontam lá no início, há uma espécie de estouro da boiada, só que em território confinado. Cotoveladas e pisões no pé fazem parte da rotina, para que se consiga botar o gravador ou o microfone mais perto da boca do craque. Não é incomum sair dessa refrega com hematomas.

Seria apenas uma rotina curiosa e um tanto selvagem, não fosse o fato de ela revelar as entranhas de um futebol de mercado, negócio que movimenta bilhões, e por isso precisa que a informação seja rigorosamente controlada. A maior parte das notícias sobre a seleção vem dessas migalhas de comentários, obtidas mais pela supremacia física e pelo bom posicionamento dos repórteres do que por critério mais respeitável. A outra fonte de informações é a coletiva de Felipão, e às vezes também de um dos jogadores, que dão entrevista numa sala próxima, também mediante distribuição de senhas, onde de novo só falam o que querem. Repórteres experientes, e é fundamental reconhecer que eles também estão nesta Copa, precisam lutar muito para conseguir superar essa barreira e fazer uma cobertura crítica, para além do protocolar.

O nome é zona mista, mas seria mais adequado chamá-la de "zona controlada". Segundo os veteranos, foi instituída a partir de 1994, como reflexo da globalização e do crescente interesse no futebol como um negócio altamente lucrativo. "Na Copa da Itália, em 1990, ainda entrávamos no vestiário", conta Juca Kfouri, colunista desta Folha. "O acesso foi sendo restringido na medida em que as Copas se transformaram em festivais de rock, e os jogadores, em pop stars." Juca tem fotos de cenas hoje impossíveis: conversando com Sócrates e Falcão, sentados no meio-fio, na porta da concentração da seleção brasileira.

No espaço controlado da zona mista, regras elementares do bom jornalismo são suspensas. "Não é mais o repórter que escolhe com quem quer falar e o que quer perguntar", diz Vital Battaglia, 71 anos, jornalista ganhador de nove prêmios Esso, que cobriu as Copas de 1962 a 2006. Entre 1990 e 1991 trocou brevemente de lado e foi assessor de imprensa de Paulo Roberto Falcão. Battaglia acompanhou a transição do futebol, do "esporte lúdico" para o mundo dos negócios. "Hoje, para cobrir uma Copa do Mundo, não precisa entender de futebol. É mais importante ter bom ouvido, já que só vai reproduzir o que o jogador ou o técnico quiser dizer."

A maioria dos jogadores da seleção atua em times europeus e fala várias línguas. O fenômeno é que dizem nada em múltiplos idiomas, o que é constatado na zona mista. São treinados por profissionais da área para repetir platitudes e acompanhados de perto por assessores de imprensa. Talvez esta seja uma parte da explicação para tanta necessidade de mexer no cabelo, aquilo que fica sobre a cabeça, mas não dentro. Não deixa de ser uma forma de dizer alguma coisa.

Em geral, os jogadores passam primeiro pela imprensa escrita e pelos radialistas. Terminam diante das câmeras de TV, onde o curral exibe na parede as marcas dos patrocinadores. Se as perguntas são consideradas inconvenientes, aparece um assessor para mandá-los seguir adiante ou eles mesmos, bem treinados, seguem por sua própria conta. David Luiz é um dos mais simpáticos. Repete preceitos de autoajuda, que colaboram mais para a sua imagem de bom moço do que para enriquecer a narrativa do futebol. A estratégia de marketing funciona. "Intentamos hacer siempre lo mejor trabajo para nuestros equipos. Intentamos mejorar siempre", começa David Luiz em espanhol. E continua, em português: "Quem tem medo não vive. Eu sou assim na minha vida. Sentimos medo de entristecer alguém, mais do que nós próprios. Temos a oportunidade de ser exemplo, dentro e fora do campo. Tudo passa, o que fica são nossas atitudes", disse na última zona mista, após o sufocado jogo contra o Chile. "Em que é preciso melhorar?", pergunta um repórter. "Não vou te falar." Segue adiante.

Os momentos de contato com a imprensa, seja na zona mista, depois das partidas, ou nas coletivas da Granja Comary, organizadas pela CBF, são à prova de encontros nos quais há espaço para o risco. À prova, portanto, do jornalismo, que vira, em certa medida, um faz de conta para a produção do espetáculo. Espetáculo no sentido de que a vida é esvaziada para virar pastiche da vida. Nele, a TV aberta, em especial a Globo, detentora dos direitos de transmissão, tem o comando.

No final da tarde de segunda-feira (30), Felipão escolheu seis jornalistas para compartilhar suas preocupações numa conversa na Granja Comary. A quase derrota no jogo contra o Chile o levou a um movimento tático na esfera pública. A pauta do "emocional" dos jogadores tem sido reforçada, mas o quanto é psicológica, o quanto é técnica, a questão do time de Felipão? A suposta oposição "entre coração e razão" é no mínimo primária. De qualquer modo, é bastante revelador desses tempos que, quando o time passa por um aperto para se classificar, o grito seja: "Chame a psicóloga!". Se perder para a Colômbia, a questão deixaria de ser técnica para ser emocional. A disputa, neste caso, é mais narrativa do que com a bola no pé.

Ao observar os jogadores entrando na zona mista, é fácil perceber que são garotos. E garotos obedientes, na maior parte do tempo. Muitos têm histórias de vida marcadas pela dificuldade, mas, no caso deles, ocorre uma inversão: de meninos pobres, que tiveram de virar homens ainda na infância, foram convertidos em meninos milionários, mimados por assessores. Garotos que não podem falar por si mesmos, crianças que precisam ser controladas. Há pouco espaço para a transgressão. E a vida, como o futebol, se dá naquilo que escapa.

Essa transmutação explica, em parte, a choradeira no jogo contra o Chile. Não há problema em chorar, a não ser que ainda se viva no arcaísmo do "homem não chora". Mas esse choro segue uma coreografia curiosa. Neymar aninha-se no peito do "pai" Felipão, Thiago Silva senta-se sobre a bola num canto do campo, rezando. O capitão, em vez de fazer seu papel, pede para ser o último a enfrentar o goleiro. Quase um tatu-bola, a esquecida mascote da Copa. Era para dar tudo certo, o "pai" (neste caso Carlos Alberto Parreira) não tinha dito que eram os "favoritos", "já com uma mão na taça"? Como então a vida escapou do controle?

Talvez a síntese dessa seleção, até agora, seja a imagem de Neymar chorando abraçado a um paternal Felipão, em matérias jornalísticas. E, em outra cena, dando um berro de potência numa propaganda de cuecas. O bom jornalismo deve se apartar da publicidade. Mas é preciso fundir as duas imagens para compreender a Copa de 2014. No Brasil.

Guilherme D'Arezzo
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