PRESO HOMEM QUE VENDEU O PARQUE DO IBIRAPUERA

Publicado na Folha de S.Paulo, sábado, 8 de julho de 1972

De golpe em golpe, durante trinta anos, José Donato de Araujo teve altos e baixos na sua vida: cumpriu algumas penas, chegou a ficar milionario, casou-se três vezes sem se desquitar. Foi preso ontem, tomando banho de praia, na Cidade Ocian, com uma loira, que não é nenhuma das três anteriores, e apenas dez cruzeiros no bolso, tudo o que restou da sua vida acidentada.
Como este homem vendeu o parque do Ibirapuera, como ele trocou um terreno que não lhe pertencia por um navio, como ele dirigiu uma industria com mais de cem empregados, lesando todos eles com uma falencia fraudulenta, toda a historia de José Donato de Araujo - o maior estelionatario que a Policia de São Paulo já conheceu.
"Agora você pode dizer a verdade: em moveis, imoveis e bens de raiz, quanto você realmente possui? - perguntou o delegado Expedito Marques Pereira, ontem à tarde, na Delegacia de Estelionato, a José Donato de Araujo.
Alquebrado, cabeça baixa, provavelmente recordando os 30 anos de uma carreira de crimes, este homem, que nunca andou armado, puxou uma cedula de dez cruzeiros do bolso, entregou ao delegado:
"Meu patrimonio, doutor, o resto é fantasia".
Naquele momento, aos 47 anos de idade, José Donato de Araujo, que sempre gostou de muito dinheiro e de mulheres, mas nunca bebeu, jogou ou fumou, caia na realidade e já não possuia todos aqueles bens que falsamente declarou no Imposto de Renda este ano, para impressionar pessoas que ia enganar depois.
"Qual foi o maior golpe de sua vida? - perguntou um reporter, lapis e papel na mão, enquanto um fotografo, em cima de uma cadeira, procurava um angulo melhor.
"Foi quando eu vendi o parque do Ibirapuera" - respondeu José Donato de Araujo, em pé, no meio da sala, cercado pela Policia e a Imprensa, a roupa esporte, o rosto moreno e cheio.
Não fossem os olhos cinzas, irrequietos e penetrantes, José Donato de Araujo poderia passar por um pacato dono de bar de um bairro da periferia. Mas ele é o maior estelionatario que já foi fichado pela Policia de São Paulo em todos os tempos.

Veio de longe

José Donato de Araujo nasceu numa cidade pobre, chamada Esperança, no interior da Paraíba. Lavrou a terra, não foi à escola, e, aos 17 anos, abandonou os pais e irmãos, fugindo para a Guanabara. Alistou-se no Exercito Nacional mas não deu baixa regularmente: foi expulso.
Viveu dois anos na Guanabara - de 1942 a 1944 - e veio para São Paulo. Deixou alguns credores naquele Estado, onde aplicou seus primeiros golpes, nenhum importante.
Alto, forte, educado, inteligente, falando baixo e devagar, José Donato de Araujo recordou esta passagem de sua vida, ontem, na Delegacia de Estelionatos:
"Quando vim para São Paulo pensava em me regenerar. Afinal de contas eu não havia feito nada de grave na Guanabara. Mas, havia guerra, o mundo estava em crise, eu precisava de dinheiro".
Em São Paulo, de onde nunca mais se mudaria, José Donato de Araujo trabalhou como entregador de leite, mecanico de automovel, pedreiro, carpinteiro, mas, como ele mesmo confessa, nunca se deu bem com o trabalho, especialmente o pesado.
Logo que chegou à Guanabara, em 1942, José Donato de Araujo deu o seu primeiro golpe: sumiu de uma pensão sem pagar. Começava a sua carreira criminosa. Nos dois anos que passou na Guanabara falsificou cheques, alterou documentos, arranjou letras de cambio com assinaturas ficticias, mas não conseguiu dar nenhum golpe grande.
Em São Paulo, fez as mesmas coisas erradas, mudou de nome varias vêzes. Chegou aqui em 1944 mas só foi indiciado em inquerito, pela primeira vez, em 1948. Nesse ano a Policia conheceu de perto o maior estelionatario da sua historia.
De inquerito em inquerito José Donato de Araujo chegou ao ano de 1954, na seguinte situação: condenado a nove anos e meio de reclusão por crimes de estelionato e falsificação de documentos. Foi para a cadeia pela primeira vez nesse ano. Um advogado conseguiu a unificação das suas penas e ele acabou cumprindo só seis anos.
A cadeia foi a grande escola de José Donato de Araujo que afirma ter conhecido ali os homens que mais tarde ele reuniria para organizar uma quadrilha. Saiu da cadeia em 1960 mas voltou dois anos depois. Ficou mais um ano preso. Em 1963, ganhou novamente a liberdade e desta vez iria aproveitá-la bastante com uma ideia nova: vender terras que não lhe pertenciam.
Mas, as mulheres começaram a atrapalhar a vida deste homem alto, forte e educado. Ele se casou três vezes, coincidentemente com três Marias, e acabou sendo processado por poligamia, o que lhe custou uma condenação de dez anos de reclusão em sentença proferida pela 20ª Vara Criminal em 1964.

Ficou rico

Manobrando juridicamente, José Donato de Araujo, assessorado por bons advogados, reduziu bastante aquela pesada de dez anos de reclusão, acabou não cumprindo pena nenhuma. Mas, em 1967, ele já estava novamente condenado, desta vez a 19 anos de cadeia, por uma série de golpes que praticara em São Paulo.
A Policia o prendeu em 1967, a pena era longa, novos recursos, José Donato de Araujo só ficou dois anos na cadeia. Saiu em 1969 com liberdade vigiada. No mesmo dia em que saiu da cadeia - 5 de fevereiro de 1969 - ele aplicou um golpe contra o fruteiro Flavio Picchia.
Este golpe aplicado assim: José Donato de Araujo saiu da cadeia meio sem dinheiro. Andou um pouco a pé, pegou uns onibus, foi para no parque do Ibirapuera. Lá ele viu que Flavio Picchia vendia frutas numa barraquinha instalada num terreno baldio,
"Meu amigo - disse ele ao fruteiro - eu sou o dr. José Donato de Araujo e esse terreno é meu. O sr. sai já dai ou me paga um aluguel. Tem graça ganhar dinheiro nas minhas costas".
Uma semana depois o humilde fruteiro celebrava um contrato de locação com José Donato de Araujo, que arranjou um monte de documentos falsos, para provar que era o dono do terreno e também doutor.
O fruteiro passou a pagar Cr$ 200,00 por mês ao falso dono do terreno. Isso durou dois anos, até que José Donato de Araujo ficou muito rico, e um dia apareceu lá na banca de frutas:
"O sr. está perdoado, sr. Flavio Picchia, não precisa me pagar mais. Fica com o terreno de presente."
O pobre fruteiro agradeceu ao malandro de joelhos.

Ibirapuera

Quando foi preso, anteontem, tomando banho de praia na Cidade Ocian, junto com uma loira que não é nenhuma daquelas três Marias, José Donato de Araujo tinha quatro pastas com centenas de documentos que ele falsificou em 1970 para provar que era dono do parque do Ibirapuera.
Aquela documentação toda partia de uma procuração falsa de da. Elvira Magro. José Donato de Araujo provava com esta documentação que era dono de 70 mil metros quadrados (a area abrangia uma parte da av. Republica do Líbano, da av. IV Centenário , da av. Rubem Berta e do parque do Ibirapuera, incluindo imoveis particulares e até a sede do QG do II Exército).
Provando que era um homem tão rico, José Donato de Araujo conseguiu comprar varias industrias. A estas alturas ele já trabalhava junto com aqueles estelionatarios que conhecera na cadeia (estava formada a quadrilha finalmente).
A quadrilha chefiada por José Donato de Araujo faliu fraudulentamente varias industrias, entre elas a Pirassununga S/A - Industria de Papel e Papelão, em Cachoeira das Emas, no municipio de Pirassununga, com capital de quase dois milhões de cruzeiros, instalada em terreno de três alqueires, com mais de cem operarios .
De golpe em golpe José Donato de Araujo vendeu o parque do Ibirapuera, comprou, e depois faliu fraudulentamente, farmacias, padarias, firmas comerciais, industrias, grandes ou pequenas, não interessava, eu comprava tudo, sempre com nomes falsos.

Um navio

José Donato de Araujo não parava. Ficava cada vez mais rico. Trocou um terreno que não lhe pertencia pelo navio "São Pedro" do armador Uraquitá Bezerra Leite. O armador perdeu o dinheiro e o estelionatario acabou vendendo o navio como sucata.
"O que é que eu ia fazer com aquele navio se nem nadar eu sei" - disse José Donato de Araujo, ontem, na Delegacia de Estelionatos.
"Meu negocio é na terra" - conclui o estelionatario que realmente, negociou, sempre de forma a prejudicar alguém 25 automoveis de luxo e 12 caminhões de carga nos ultimos dois anos.
Mas, o dinheiro foi acabando. José Donato de Araujo ficou na miseria, gastou tudo com mulheres, a vida de um foragido custa muito caro. Em maio deste ano ele já estava sem dinheiro mas, para impressionar futuras vitimas, naquele mesmo mês, José Donato de Araujo declarou possuir o seguinte ao Imposto de Renda: uma fazenda de 660 alqueires em Juquiá, 32 casas em Pirassununga, 40 por cento das ações da Companhia Coronado de Hoteis, Industria de Macarrão Nova Iguaçu, Transportadora Urupuru, dois milhões de cruzeiros depositados em bancos.
Penando em tudo, José Donato de Araujo entregou aquela cedula de dez cruzeiros ao delegado Expedito Marques Pereira, ontem, na Delegacia de Estelionatos:
"Meu patrimonio, doutor, o resto é fantasia."

© Copyright Empresa Folha da Manhã Ltda. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Empresa Folha da Manhã Ltda.