JURUPARI CRIOU A CHUVA


Publicado na Folhinha, sábado, 10 de abril de 1999

Certa vez, apareceu na margem de um rio uma tribo que só tinha mulheres jovens e homens velhos, que não podiam ter filhos. Os índios estavam tristes, porque as mulheres estavam com medo de sua gente desaparecer.
O Sol, para resolver a situação, mandou seu filho à Terra com a missão de trazer fertilidade à comunidade. Jurupari trouxe também leis e regras para organizar a aldeia. Para facilitar o trabalho, o Sol deu a Jurupari um saquinho com pedras mágicas, que serviam para fazer feitiço. O Sol disse:
— Aqui está, meu filho. Com elas, você governará os homens e as mulheres. Tudo quanto você quiser fazer, achará aqui, e todos ouvirão o que ensinar.
Na Terra, Jurupari nasceu de uma índia, chamada Ci, que não precisou se casar para engravidar. Tudo aconteceu de acordo com a vontade do Sol, que fez uma mágica para Ci. Certa manhã, a índia saiu para passear e viu macacos-da-boca-preta comendo as frutas do uacuzeiro.
Ci quis experimentar um uacu. Provou o fruto, e o suco escorreu pelo seu corpo, até o ventre. A jovem notou que sua barriga crescia.
O conselho de velhos da aldeia quis saber quem era o pai do bebê, para matá-lo. Ci explicou que só tinha comido os frutos do uacuzeiro.
Nove luas depois, Ci deu à luz um bonito curumim. Ele ganhou o nome de Jurupari ou Izi, que quer dizer "o que nasceu da fruta".
Bebê invisível
No mesmo dia, Jurupari desapareceu. Para aliviar a tristeza, Ci foi para perto do uacuzeiro. Ao sentar-se embaixo da árvore, sentiu uma criança mamar em seu peito. Não podia ver o menino, apenas sentia. Todos os dias, a índia ia até a árvore, e o bebê mamava misteriosamente, sem a mãe lhe ver. Ci sentava-se na sombra e ouvia Jurupari correr e brincar em volta dela.
Chegou num incêndio
Tempos depois, quando já era um homem, Jurupari apareceu na aldeia. Chegou de surpresa, de modo assustador, como num incêndio: bonito, com fogo saindo das mãos e dos cabelos. Toda a aldeia se aproximou, impressionada.
Os índios falavam ao mesmo tempo, mas queriam a mesma coisa: que Jurupari fosse o chefe. O índio disse:
— Não posso ser o chefe, porque ainda não tenho a pedra nanacy, que está na serra do Gancho da Lua.
As mulheres da aldeia formaram um grupo para ir à serra buscar a pedra. Nesse tempo, as mulheres dividiam o poder com os homens e tomavam decisões importantes. Os homens também quiseram ir buscar a pedra. Para resolver a disputa, os feiticeiros assopraram para ver quem iria. Disseram depois:
— As mulheres não podem pegar na pedra. E não deram explicações. Os índios começaram a brigar.
A mágica
Então Jurupari tirou do saquinho umas panelinhas mágicas. Pôs fogo e breu e os colocou para ferver. Quando ferveram, soltaram fumaça, de onde saíram morcegos, jacamins, uakuraus, murucututus, iakurutus, andorinhas e gaviões. Quando o gavião-real saiu da fumaça, Jurupari disse:
— Gavião-Real, leve-me à serra do Gancho da Lua. Solto você depois que voltarmos.
Chegando à serra, a Lua reconheceu Jurupari como o enviado do Sol. Deu a ele nanacy, a pedra da energia com que poderia governar a Terra. A Lua falou:
— De hoje em diante, você será o chefe de sua aldeia.
A Lua explicou a Jurupari como deveria governar. Ao voltar às margens do rio, Jurupari tornou-se o primeiro chefe a mando do Sol.
Criou frutas
Jurupari mandou embora o gavião, chamou os anciões e os feiticeiros e distribuiu as leis às quais os índios deveriam obedecer. Dividiu o trabalho entre homens e mulheres. Fez panelas, ensinou a fazer farinha. Passou a dizer com quem um índio podia e com quem não podia casar. Acabou com o conselho de anciãos e tirou o poder das mulheres.
O herói deu arco aos índios e cestas às mulheres, que não podiam pegar nos arcos, assim como os homens eram proibidos de tocar nos cestos. Eles ficaram com o trabalho de caçar e as mulheres, com o de cuidar das plantas, arrancar raízes e preparar o beiju.
Jurupari contou aos velhos e aos feiticeiros tudo quanto a Lua lhe dissera e pediu que guardassem segredo. Criou a casa dos homens e disse:
— As mulheres que quiserem saber esses segredos morrerão. Os homens que contarem morrerão.
Depois de falar, Jurupari chorou. Suas leis eram duras, e ele sabia que deveriam ser seguidas, até pela mãe.
Muitos índios ficaram tão aborrecidos com as novas regras que resolveram matar Jurupari. Eles inventaram um plano. Os velhos prepararam uma festa, embriagaram Jurupari com caxiri, bebida de mandioca, e o incendiaram.
O fogo espalhou-se e tomou conta da floresta. Mas Jurupari era mágico, e de suas cinzas nasceu a chuva, que apagou o incêndio. Das cinzas, nasceu também o pé de uatanhom, que cresceu alto e levou a alma de Jurupari ao céu, além de outras árvores de frutas gostosas, como açaí, bacaba, ingá e miriti, que todo ano frutificam com a chuva.
O Sol ficou furioso com os velhos. Depois da morte deJurupari, mandou um raio que queimou a mata. No incêndio, fez com que os índios que deram a bebida ao chefe se transformassem em estrelas. Ci estava entre eles.
Para os índios não esquecerem essa história, o Sol, até hoje, manda o espírito que surge do fogo na forma de pesadelo para atormentar o sono das pessoas. Para evitar isso, os índios fazem festas e tocam flauta para Jurupari e ainda guardam os segredos de serem homens, que só os homens sabem, e os segredos de serem mulheres, que só as mulheres conhecem.
Jurupari volta à Terra todos os anos, na mesma época, para visitar as comunidades. As aldeias que contam essa história escolhem o momento de sua chegada para fazer festas e celebrar casamentos.
Como Jurupari chorou depois de ter distribuído as leis, sempre que há chuva e sol ao mesmo tempo significa que o espírito de Jurupari está perto. Jurupari teve muitos seguidores, que conservaram as leis de uma sociedade que aprendeu a guardar segredo de suas festas sagradas.

Lenda adaptada por Mônica Rodrigues da Costa, Paula Medeiros de Oliveira e Paulo Pedro Costa.


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