Ambiente
24/10/2009 - 07h19

Líder indígena reclama dos efeitos de mudança climática no Xingu

Publicidade

RODRIGO VARGAS
da Agência Folha, em Cuiabá

Ondas de calor jamais sentidas. Ventos acima da média. Rios cada vez menos caudalosos. Esse é o cenário atual da região do Alto Xingu, segundo o chefe indígena Raoni Txucarramãe, líder da etnia caiapó.

Conhecido ícone da causa ambientalista, o líder caiapó --que chegou a viajar para o exterior acompanhado do músico britânico Sting-- foi ontem o convidado de honra de um evento em Cuiabá (MT) que discutiu os impactos do aquecimento global no Centro-Oeste.

Dado Galdieri -13.ago.02/AP
Madeiras de mogno apreendidas pelo Ibama no rio Xingu; líder indígena constata mudança climática na região Centro-oeste do país
Madeiras de mogno apreendidas pelo Ibama no rio Xingu; líder indígena constata mudança climática na região Centro-oeste do país

Ele falou sobre como a mudança climática afeta os índios. Com "aproximadamente 87 anos", Raoni disse que queimadas, desmatamento e grandes obras de infraestrutura previstas para a região amazônica, como a usina de Belo Monte (PA), poderão agravar os efeitos já sentidos hoje.

"O calor está intenso, os ventos são muitos mais fortes do que eram antes e o nível dos rios na seca é diferente do que era tempos atrás. Estou muito preocupado, pois estou vendo acontecer tudo o que vinha falando há tanto tempo", disse.

Segundo Raoni, não é apenas a etnia caiapó que percebe as mudanças. "Vários outros povos do Alto Xingu estão assustados com o calor e a ventania. Há muito tempo era bom, tinha muita floresta e a gente vivia tranquilo. Agora temos medo que o Xingu possa secar."

Sobre a usina de Belo Monte --que será uma das maiores do mundo-, Raoni disse que os "projetos de desenvolvimento do governo brasileiro" devem respeitar "os índios e suas terras. Por isso, fiquei indignado com o que o ministro disse."

Ele faz referência a declarações do ministro Edison Lobão (Minas e Energia), para quem o projeto da usina sofre oposição de "forças demoníacas".

"Estou preocupado com Belo Monte e acho que seria bom mesmo o rio ficar lá quieto, em seu leito e sem barragem. Temos o direito de viver em nossa terra", diz Raoni.

Percepção

A percepção de Raoni sobre o clima no Alto Xingu pode não estar diretamente relacionada a um fenômeno global, diz o engenheiro florestal Maurício Philipp, coordenador do departamento de mudanças climáticas do governo de Mato Grosso.

Alterações na cobertura vegetal da região do Xingu (norte de MT e sul do PA) poderiam explicar, por exemplo, o agravamento da estiagem. "Se há um desmatamento maior, há interferência no ciclo hidrológico. Sem a cobertura vegetal, não há retenção da água da chuva para os canais de drenagem, por exemplo", disse Philipp.

Mesmo cientistas não têm condições de diferenciar bem o que é "variabilidade natural do clima e o que pode ser atribuído à uma mudança provocada por ações antrópicas", diz.

"No caso do Xingu, acredito em alterações regionais, no microclima. Isso não descarta a possibilidade de existir algum efeito global se manifestando, mas é algo que precisa ser muito bem analisado para que se possa afirmar com segurança."

Comentários dos leitores
Andréia Sarno (2) 29/11/2009 17h28
Andréia Sarno (2) 29/11/2009 17h28
Turma, muito se falou no RIO 92, depois Kioto que já vai expirar, enfim tantas conversas em várias partes do mundo e simplesmente Copenhague. Eu desejo que não se fale em 2050, mas agora, pois 2010 necessita de mudanças não só de fulano ou beltrano, mas de todos nós, pois o amanhã poderá não existir se esperarmos até o dia que fulano e beltrano desejam mudar suas ações, faça agora porque amanhã verás a recompensa.
Na natureza nada se copia tudo se cria e tranforma, faça sua parte. REDUZA, REUTILIZE, RECICLE E REINVENTE uma ação DIFERENTE.....
sem opinião
avalie fechar
Andréia Sarno (2) 29/11/2009 17h12
Andréia Sarno (2) 29/11/2009 17h12
Olá eu agradeço em participar da folha on line, e fazer comentários nas reportagens. sem opinião
avalie fechar
Olmir Antonio de Oliveira (68) 28/11/2009 14h08
Olmir Antonio de Oliveira (68) 28/11/2009 14h08
A Respeito de desmatamento, e de reflorestamento no Pará. È bom sinal estarem fazendo metas e reflorestado, mas poderiam certamente fazer muito mais e melhor usando espécies nativas, também de ciclo curto e pontecialmente grandes geradoras de receitas, empregos e de sistema de industrialização para diversos produtos. Do etanol, biodiesel, bioquerozene, e óleos para outros fins. A Floresta nativa possui variedade de tipos de palmeiras, podendo se extrair de seus frutos diversos itens, inclusive alimenticios, e outras árvores que produzem óleo, inclusive já aproveitados minimamente na industrialização atual, poderiam produzir novos produtos. Se implantada um florestamento mesclado, consorciado, poderiam usar muitas espécies, e ou até incluir, cacau, cupuaçú.....castanheiras....... Quanto a margens de rios, lagos deveria se dar regras claras para se implantar o ampliar as "matas ciliares", algo parecido com meia duzia de vezes maiores aos adotados em estados do sul, que posuem por via de regra uma faixa que atende minimamente a sobrevivencia da biodiversidade e penaliza itens da maior importancia. Demoraram muito para iniciar a recomposição vegetal, mas pelo visto só estão fazendo para atender o interesse de alguns produtores de itens de exportação. Bom sinal em termos de manter o solo com cobertura vegetal, reteção de carbono e de águas. No visto e por organizado do governo local esta faltando aprofundar nos estudos e na quantidade de plantios.... sem opinião
avalie fechar
Comente esta reportagem Veja todos os comentários (127)
Termos e condições
 

FolhaShop

Digite produto
ou marca