BBC Brasil
19/04/2003 - 08h42

Menem aposta em volta ao poder na Argentina

MARCIA CARMO
da BBC, em Buenos Aires

Aos 72 anos de idade, o ex-presidente Carlos Menem afirmou que será pai outra vez. A revelação, na reta final da campanha eleitoral, levou seus adversários políticos a afirmarem que este é mais um lance de marketing de sua candidatura. Menem jura que não.

Presidente entre 1989 e 1999, casado com a ex-Miss Universo Cecília Bolocco, 37, o ex-presidente acumula o maior índice de rejeição nesta campanha: 56%.

Ao mesmo tempo, aparece como o provável presidente, na opinião de 40% dos argentinos, quando os eleitores respondem quem será o sucessor de Eduardo Duhalde na Casa Rosada.

A gravidez de Cecília, confirmada pelo candidato em uma tumultuada entrevista na Província de Córdoba, mereceu a ironia dos chargistas, entre eles Nik, do jornal "La Nación", que publicou um desenho insinuando que Menem é capaz de tudo para vencer as eleições.

Campanha

Nos cartazes nas ruas de Buenos Aires e nas emissoras de rádio e de televisão, a campanha do ex-presidente apela para palavras-chaves, como governabilidade, crédito garantido e segurança comandada pelas Forças Armadas.

A campanha pergunta ao eleitor em que época era possível comprar carro e casa própria, através de crediário, e quando o país era mais seguro.

Desde a decretação da moratória da dívida privada externa, em dezembro de 2001, a Argentina não oferece crédito imobiliário e outros tipos de empréstimo de longo prazo.

Os poucos crediários oferecidos, não atraem ao desconfiado pequeno, médio ou grande investidor argentino.

Quando fala em segurança, Menem cita de maneira insiste o nome de Luiz Inácio Lula da Silva. "Quando falei, há muito tempo, em colocar as Forças Armadas nas ruas me chamaram de fascista. Agora que o doutor Lula fez o mesmo no Rio de Janeiro, ninguém fala nada", declarou.

Citar o presidente do Brasil é uma forma, discreta, de tentar conquistar o voto da classe média e da esquerda argentina -fãs de Lula e avessos a Menem.

Em Buenos Aires e nas principais cidades do país, os cartazes da campanha do ex-presidente adotam o lema "A Argentina merece viver melhor", ou ainda "Menem sabe fazer e como fazer".

Em alguns bairros, no entanto, os eleitores de áreas de classe média ou alta, que rejeitam a imagem do ex-presidente, acrescentaram com caneta "sabe roubar e enganar".

Críticas

Até poucos dias, o ex-presidente evitava fazer críticas diretas a seus adversários políticos. Durante a última semana, na contagem regressiva para o primeiro turno das eleições, em 27 de abril, Menem não poupou mais ninguém.

"O presidente interino Eduardo Duhalde vai ter que engolir a seco antes de me passar a faixa presidencial", disse.

"A Aliança [coalizão que elegeu o ex-presidente Fernando de la Rúa] foi um papel em branco e a prova foi a renúncia, dois anos antes do fim do mandato. Depois, apareceu um presidente [o agora também candidato Adolfo Rodríguez Saá], que declarou a moratória e saiu fugido do poder", afirmou Menem.

O principal adversário do ex-presidente nas eleições do próximo dia 27, o candidato governista Nestor Kirchner, também foi alvo dos ataques.

"Ele não sabe o que dizer, o que fazer. O governo interino está empurrando todas as medidas para a próxima administração", disse Menem.

Perdão

Na televisão, uma propaganda de Menem, com olhar cabisbaixo, caminhando sozinho por um jardim, enquanto o locutor afirmava que ele está de "joelhos", pedindo perdão pelos erros cometidos, causou surpresa.

A publicidade, quase idêntica a um artifício semelhante utilizado na campanha do ex-presidente Fernando de la Rúa, em 1999, desagradou até os seguidores do ex-presidente e foi tirada do ar.

"Esta eleição está sendo marcada pela pobreza de idéias e de recursos", afirmou o especialista Gustavo Martínez Pandiani, professor da Universidade del Salvador.

O publicitário Jorge Dell'Oro, que trabalhou na campanha da reeleição de Menem, em 1995, e deu assessoria ao primeiro-ministro espanhol, José Maria Aznar, diz que a tendência da corrida eleitoral argentina neste ano é a de "pouco barulho".

"Depois da dose exagerada de marketing político na campanha de 1999, hoje existe uma espécie de medo do exibicionismo", explica Dell'Oro.

Menem, no entanto, faz barulho e deixa os outros candidatos indignados com sua ousadia ao garantir, sempre publicamente, que vencerá as eleições no primeiro turno.

"Menem esteve preso e, depois, quase desapareceu dos jornais. Mas, quando todos pensavam que estava politicamente morto, reapareceu e, hoje, a campanha está centralizada em ser contra ou a favor dele", afirma Ricardo Rouvier, da consultoria Ricardo Rouvier e Associados.

"Se Menem for eleito, vai gerar divisões ainda maiores neste país", diz a analista Graciela Römer, da consultoria Römer e Associados.

Telão

A poucos dias das eleições presidenciais, a equipe de campanha de Menem passou a usar um telão com imagens dos saques, panelaços e protestos contra o "corralito" (congelamento dos depósitos), que ocorreram em dezembro de 2001 e janeiro de 2002.

As manifestações provocaram a queda do ex-presidente De la Rúa e uma crise institucional na Casa Rosada.

Em janeiro de 2002, com Duhalde no poder, as manifestações foram contra a desvalorização do peso, incluindo os depósitos bancários que estavam em dólares.

O telão é utilizado antes de Menem subir ao palanque de campanha, onde chega distribuindo beijos para o público em geral. "Voltarei e não vou decepcioná-los", promete o ex-presidente a seus eleitores.

Hoje, de acordo com diferentes pesquisas de opinião, Menem está à frente, mas tecnicamente empatado com Nestor Kirchner, e tudo indica que a definição vai ficar para o segundo turno.
 

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