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12/03/2004 - 14h25

Bienal em Nova York trata do pessimismo do presente

ANGELA PIMENTA
da BBC, de Nova York

A Bienal do Museu Whitney, de Nova York, aberta até o dia 30 de maio, revela que não existe nada de realmente novo no "front" da arte contemporânea.

Considerada a mais precisa bússola da arte contemporânea, a primeira Bienal deste milênio é um retrato fiel --e um tanto desnorteado-- dos dilemas atuais.

Para o trio de curadores da Bienal --Chrissie Iles, Shamim Momin e Debra Singer-- o otimismo dos anos 90 deu lugar a uma nova atitude artística, pessimista e ansiosa depois dos ataques de 11 de setembro de 2001.

"O atual clima econômico, social e artístico é dominado pela ansiedade, medo e incerteza sobre a capacidade dessa geração superar os difíceis desafios impostos por essa nova época", afirmam eles no catálogo da exposição.

Perfeição pop

Para dar conta da imensa diversidade de temas e atitudes da arte contemporânea, os curadores resolveram escalar 108 artistas de três diferentes gerações.

Dos anos 60, comparecem dois nomes consagrados: o minimalista Mel Bochner e o pop David Hochney.

Investindo na própria linguagem como tema, Bochner apresenta uma série de pinturas em que trabalha com letras coloridas.

Pintadas em tons vibrantes contra o fundo negro, suas telas confundem o espectador com seu aparente otimismo formal.

É o caso, por exemplo, da obra Nothing ("Nada"), que traz inscrições niilistas, como "negation" (negação), "non-existence" (não-existência) e "not-being" (não-ser) em letras impecavelmente pintadas.

A mesma precisão aparece nas pinturas e aquarelas de Hochney.

Na aquarela "L.A. Studio" ("Estúdio em Los Angeles"), por exemplo, Hochney retrata seu local de trabalho com uma gama de tons pastéis agradáveis ao olhar.

Mas a limpeza, organização e o vazio do estúdio --inspirado na obra do holandês Van Gogh-- evocam a frieza nada inspirada de um consultório médico.

Paz universal

Já entre os artistas revelados nos anos 80, um dos trabalhos mais pungentes é a vídeo-instalação "Count on Us" ("Conte Conosco"), de Marina Abramovic.

Num quarto escuro, quatro telões trazem grupos de crianças cantando canções de paz e louvor à ONU.

A ironia da história está na roupa do maestro, vestido com uma malha colante negra que o retrata como um esqueleto, numa evidente associação com a ameaça da guerra que assombra o mundo desde setembro de 2001.

Mas além de denúncia e pessimismo, a Bienal também investe na frivolidade que marcou os anos 90.

Talvez o melhor exemplo disso não esteja dentro do Museu, e, sim, na fronteira norte do Central Park.

Como parte da Bienal, o parque abriga uma série de esculturas, como "Daddies Bighead" ("Papais Cabeça-Grande"), um boneco inflável de plástico de autoria de Paul McCarthy, também revelado nos anos 80.

Tendo a forma de uma garrafa como corpo, olhos redondos e um nariz de cenoura, o boneco, de 15 metros de altura, não passa de uma tolice gigantesca.

Revelações

Entre novos nomes, uma boa surpresa é a desenhista Julie Mehretu, que trata da saturação tecnológica e consumista da vida atual.

Através de desenhos coloridos na fronteira da abstração, como Empirical Construction ("Construção Empírica"), a desenhista retrata uma cidade assombrada por uma nuvem de formas geométricas que tanto podem ser sucata tecnológica quanto apenas inocentes formas geométricas.

Do Brasil, a Bienal contará, entre os dias 17 de abril e 4 de maio, com a performance do grupo de patinadores e músicos Assume Vivid Astro Focus, que montará um colorido rinque de patinação e música ao vivo na parte sul do Central Park.

Como se vê, o saldo dessa Bienal é tão vasto e desigual quanto a própria sociedade de massas deste novo milênio.
 

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