Bento 16 faz prosperar finanças do Vaticano
VALQUÍRIA REY
da BBC, de Roma
O papa Bento 16 pode até parecer menos carismático do que João Paulo 2º, mas para os tesoureiros do Vaticano ele tem toque de Midas com os fiéis.
Conforme reportagem de capa da revista italiana "Espresso", publicada nesta sexta-feira, o pontífice alemão não está lotando apenas a praça de São Pedro nas tradicionais audiências das quartas-feiras e nas bênçãos do Angelus aos domingos, mas também o caixa do Vaticano.
Apesar dos escândalos dos padres pedófilos nos Estados Unidos, as doações aumentaram durante o seu pontificado.
Com o título "Que Tesouro de Papa", a revista assinala que as doações dos fiéis cresceram 58% em 2006 em relação ao ano anterior, chegando a US$ 101,9 milhões (cerca de R$ 193,6 milhões).
"Não tem escândalo pedófilo. Nenhuma ingerência política que se pague. Nenhuma gafe no relacionamento com outras religiões que se desconte. A realidade é que Bento 16 administra uma igreja que financeiramente explode de saúde", diz o texto.
Superávit
Segundo o balanço oficial, a Santa Sé fechou 2006 com um superávit de 2,4 milhões de euros (cerca de R$ 6,2 milhões), contra 9,7 milhões de euros de 2005 (R$ 25 milhões).
Mas o cardeal Sergio Sebastiani, responsável pela Prefeitura dos Assuntos Econômicos do Vaticano, diz que esse dado não deve ser considerado isoladamente.
Segundo o cardeal, mais importante é verificar que a Santa Sé melhorou o desempenho de suas finanças em vários setores, aumentando consideravelmente sua renda.
Sebastiani cita como exemplo as contribuições feitas pelas conferências episcopais, dioceses, institutos religiosos e fiéis de todo o mundo, que aumentaram 16,3% em relação ao ano anterior, totalizando 86 milhões de euros.
As conferências episcopais dos Estados Unidos, da Alemanha e da Itália permanecem na liderança entre as que mais contribuem. De acordo com as informações do Vaticano, não foi registrada redução no volume das doações americanas em função dos casos de pedofilia envolvendo padres católicos.
O setor imobiliário também merece destaque. De acordo com o balanço da Santa Sé, o patrimônio imobiliário teve um lucro líquido de 32,3 milhões de euros, com 59,3 milhões de euros de faturamento total.
Segundo a revista italiana, informações extra-oficias apontam que o patrimônio do Vaticano está avaliado em 450 milhões de euros (cerca de R$ 1,174 bilhão).
Com a renda do patrimônio imobiliário, a Santa Sé consegue cobrir o prejuízo da Rádio Vaticana (23,8 milhões de euros em 2006) e do jornal oficial "Osservatore Romano" (4,4 milhões de euros).
Sua Santidade o Bestseller
A "Espresso" também destaca, numa outra reportagem, os lucros com as vendas de livros da Livraria Editora Vaticana, considerada um caos na época de João Paulo 2º.
Num texto assinado pelo vaticanista Sandro Magister e com o título "Sua Santidade o Bestseller", é lembrado que um dos primeiros atos de Bento 16 em seu pontificado foi assinar um decreto dando à editora a tutela de todos os direitos de autor e de todos os direitos exclusivos de utilização econômica dos textos e documentos do papa.
Com a nova determinação, nenhum dos textos de Bento 16 pode ser publicado sem um contrato, que, geralmente, estabelece uma taxa de 3% a 5% de direitos autorais sobre o preço de capa para as publicações de homilias e discursos.
No final do pontificado de João Paulo 2º, circulavam com a sua assinatura, entre outros, 370 livros em língua italiana, mais de mil em espanhol e 2.770 em inglês. Todos com milhões de cópias vendidas, sendo que apenas uma pequena parcela dos lucros retornava ao Vaticano sobre a forma de direitos autorais.
Com Bento 16, tudo mudou. Pela publicação de uma antologia de textos escrita pelo papa, a Livraria Editora Vaticana assume que pediu 15% sobre o preço de capa.
Não é revelado, no entanto, que percentual o Vaticano lucrará com as vendas de Jesus de Nazaré, de Bento 16, com difusão prevista em mais de 20 milhões de cópias.
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