Análise: Bush se distancia de Maliki, mas carece de alternativa
da BBC Brasil
Na estratégia americana para ganhar tempo no Iraque, o reforço de tropas deve ser acompanhado de avanços políticos em Bagdá.
O envio de mais soldados apresenta alguns resultados positivos, como na redução de violência, mas na visão do governo Bush a precária coalizão do primeiro-ministro xiita Nuri al-Maliki não está fazendo a sua parte e o dirigente está perdendo sua serventia aos interesses de Washington.
O próprio presidente George W. Bush se juntou publicamente ao coro que expressa frustração com o dirigente iraquiano, incapaz de forjar uma reconciliação sectária no país e desarmar as milícias xiitas.
A rigor, o objetivo do reforço de tropas é criar condições para o governo de Bagdá consolidar sua posição e fazer os progressos políticos.
Mas a coalizão de Maliki está aos frangalhos, abandonada ou boicotada pelos ministros sunitas, sem falar do seu descrédito junto a facções xiitas.
Maliki, claro, não gosta destas manifestações abertas de decepção da parte dos seus patrocinadores. Nesta quarta-feira, ele garantiu que não irá se curvar às pressões americanas na condição de dirigente eleito.
Em entrevista coletiva na terça-feira, Bush se distanciou abertamente de Maliki (o qual ele definiu em novembro como o "homem certo para o Iraque"), mas não chegou a pedir sua cabeça, como estão fazendo influentes senadores democratas e republicanos.
O presidente sugeriu que isto poderá ser feito pelos próprios iraquianos diante do sofrível desempenho do primeiro-ministro para promover a reconciliação nacional.
Já em discurso na quarta-feira, Bush quis estreitar um pouco o distanciamento manifestado na véspera. Em um discurso para veteranos de guerra, ele observou que Maliki "é um bom homem e eu o apóio".
Mas, de fato, Maliki carece de um reforço organizado de solidariedade americana. Existe, isto sim, frustração orquestrada.
Horas antes das declarações de Bush, o embaixador dos EUA em Bagdá, Ryan Crooker, disse que os esforços do primeiro-ministro para colocar a casa em ordem têm sido "extremamente decepcionantes".
E em uma reportagem na última segunda-feira, o Wall Street Journal destacou que "para um crescente número de comandantes militares americanos a atual estratégia não produzirá ganhos duradouros a não ser que Maliki seja substituído".
A impaciência com Maliki é razoável. Há um senso de urgência no Pentágono, Departamento de Estado e Congresso.
Em meados de setembro, o embaixador Crooker e o comandante militar americano no Iraque, general David Petraeus, deverão apresentar ao Congresso a avaliação obrigatória sobre o impacto do reforço das tropas e os avanços políticos em Bagdá.
Especialistas citados nesta quarta-feira nos órgãos mais influentes da imprensa americana ressaltaram que o presidente Bush não está tentando forçar a saída de Maliki, simplesmente por inexistirem alternativas efetivas para o lugar do acuado primeiro-ministro.
A frustração serve para intensificar a pressão para que Maliki seja mais vigoroso.
Outra função deste muro das lamentações é identificar para a opinião pública americana um bode expiatório fácil para a agonia iraquiana, embora para esta audiência doméstica a responsabilidade de Bush já esteja consagrada.
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